A coisa se lançou sobre Hrafn outra vez.

    As seis pernas finas batiam no chão com rapidez repulsiva, cada passada cravando na estrada e jogando pedrinhas para trás. O braço dele ainda latejava por causa do primeiro impacto. Receber o peso daquela criatura naquela velocidade não fora pouco, e o solo rachado sob suas botas ainda mostrava isso, pequenas fendas em forma de teia, abertas pelo choque.

    Mesmo assim, ela vinha de novo.

    Hrafn viu a investida chegar naquele estranho tempo que a bênção lhe concedia. Os movimentos do caído alongaram-se o bastante para que ele se escolhesse mal a tempo, em vez de ser esmagado sem escolha nenhuma.

    Girou a maça e acertou a criatura na boca.

    O golpe entrou de lado, dentes se partiram com barulho de pedra quebrando e voaram junto com saliva escura. A cabeça foi arrancada da linha de ataque, o pescoço torcendo num ângulo errado por um instante antes de o corpo acompanhar. 

    Girar a maça daquele jeito fora um exercício miserável nas primeiras semanas de treino. No começo, o peso parecia sempre um pouco mais esperto que ele. Chegara a pensar que a arma o faria de idiota para sempre, mas o corpo mudara. A cada dia a bênção afundava mais na carne, saturando músculo e osso. E junto da força vinha a capacidade de torcer a percepção, até que o manejo da arma começou a parecer injusto de bom, ao menos para os outros.

    O giro saiu veloz e pesado, arrastando vento, e tudo o que a cabeça da arma tocava parecia ceder.

    O rastejante rolou pelo chão, mas não ficou caído. As seis pernas se dobraram em ângulos antinaturais, finas demais para sustentar o corpo e ainda assim capazes de recolocá-lo de pé num solavanco, como se o esqueleto obedecesse a leis piores do que as do resto do mundo. 

    Mal retomara o eixo e já recebeu uma lança de cada lado do corpo. “Segurem!”, gritou a líder dos guerreiros.

    A mulher avançou junto da ordem. O grande machado veio de lado, e Hrafn chegou a ver os músculos dela se enrijecerem sob o esforço. A lâmina arrancou um bom pedaço da carne da criatura, mas não entrou tão fundo quanto devia. A pelagem espessa e a pele dura pararam parte da força.

    O bicho respondeu na mesma hora.

    Desvencilhou-se com uma violência brusca, arrebentando uma das lanças no processo e quase levando junto a mão do guerreiro que a segurava. O homem praguejou e largou a haste no instante final. Então o rastejante girou de um jeito esquisito, rápido demais, e se lançou com a boca escancarada na direção desse mesmo guerreiro.

    Mas Hrafn já vinha por cima.

    Antes que a criatura fechasse as mandíbulas, ele bateu com a maça de novo, desta vez, de cima para baixo.

    Três das seis lâminas da cabeça da arma bateram e afundaram na carne com um som abafado. O peso do golpe mandou o resto do corpo ao chão com um estrondo que subiu pelas pernas de Hrafn, do joelho ao ombro, ate os dentes.

    Os outros não desperdiçaram o instante.

    Ninguém parou para falar, houve apenas ação. Lanças foram cravadas outra vez enquanto a besta ainda se debatia, os golpes levando o corpo ao chão. O contato arrancou um chiado da criatura, daí veio o cheiro, carne podre, queimando sobre o sal.

    Hrafn ergueu a maça e bateu outra vez na cabeça da criatura. Depois de novo e de novo.

    O braço já começava a pesar, mas ele continuou. Os guerreiros cravaram mais lanças, empurrando, prendendo, rasgando. O rastejante se debatia, prendia as pernas no chão, torcia o torso de um lado para o outro, tentando libertar-se.

    Hrafn bateu mais uma vez.

    Mas já estava cansado, por um momento quase perdeu o aperto do cabo. A cabeça da arma já vinha suja de negro, oleosa de sangue e carne esmagada.

    Os homens e mulheres ao redor começavam a perder fôlego também. Um deles respirava pela boca, descontrolado, outro mantinha a lança fincada com os ombros trementes. A líder dos guerreiros recuou meio passo para recuperar base e ar. 

    A criatura percebeu.

    Havia algum tipo de inteligência doentia por trás daquela carne, cálculo o bastante para suportar dor e esperar. O rastejante aguentou os golpes porque sabia que não morreria de imediato, era grande demais.

    Esperou até o braço de Hrafn perder um pouco da rapidez. Só então firmou as seis pernas no chão.

    A besta arrancou o próprio peso do solo com uma violência tão abrupta que uma das lanças fincadas rasgou mais fundo ao sair. A boca abriu-se diante de Hrafn como uma ferida viva.

    O cheiro era imundo, a visão, pior.

    Lá dentro parecia haver só dentes. Dentes até onde a vista alcançava, grandes como adagas, apertados uns contra os outros numa quantidade absurda, como se a criatura tivesse sido construída pela fome e depois terminado às pressas. 

    Pensou em girar a maça, mas não daria tempo, tentou erguer o braço, mas ele vinha pesado demais.

    Burro.

    Usara demais em pouco tempo. Esquecera outra vez que muito tempo para ele, quando torcia a própria megin, era pouco para o que havia fora. Forçava demais aquela bênção sempre que precisava dela. Ela respondia, depois cobrava.

    A criatura já estava perto o bastante para que Hrafn visse a umidade pulsando no fundo da boca quando a lança entrou.

    Veio de trás dele, por cima do ombro. A ponta atravessou a goela, subiu por dentro da cabeça e saiu perto do topo do crânio. O salto desviou na mesma hora, o corpo da criatura passou por Hrafn raspando, e ele sentiu o bafo quente e imundo tocar seu rosto antes de cair de lado. O cabo da lança se partiu quando as mandíbulas se fecharam num estalo bruto.

    “Consegui!”, declarou uma voz.

    Hrafn virou a cabeça e viu a garota.

    Quase da idade dele. O rosto estava pálido sob a sujeira, e o peito subia e descia com força. Havia choque nos olhos dela, aquele primeiro choque de triunfo antes de o corpo decidir se vai tremer ou vomitar.

    O rastejante bateu no chão e ficou ali, o corpo meio torcido, ainda se mexendo. Sangrava muito e torcia devagar; respirava com ódio.

    Mesmo assim, recusava-se a morrer. A criatura começou a rastejar, lenta, miserável, arrastando-se alguns palmos por vez.

    Quando a adrenalina começou a baixar, o estômago de Hrafn se embrulhou.

    Durante a luta, a emoção abafava quase todo o desnecessário. Depois vinha o resto, o cheiro, o sangue. A consciência de que aquilo tinha estado perto o bastante para abrir seu peito e beber o que houvesse lá dentro.

    A garota que arremessara a lança virou o rosto e vomitou no mato.

    Ninguém queria chegar perto demais da criatura. Como estava, morreria sozinha. 

    Um dos guerreiros deu um passo à frente, como se cogitasse terminar o trabalho. A líder o segurou.”Deixe.”

    Hrafn respirou pelo nariz, o braço esquerdo ardia. O ombro protestava toda vez que ele mexia a maça alguns dedos para reposicionar o cabo na mão.

    “Está bem, garoto?”, perguntou a líder, ofegante.

    “Sim.”

    Ela assentiu uma vez, curta. “Isso é bom”, disse, apontando com o queixo para o caído que se arrastava no sal. “Conhece?”

    Hrafn observou a criatura mais um instante antes de responder. “Rastejante”, disse por fim. “Sempre vão longe.”

    A mulher cuspiu no chão. “Isso mesmo, garoto. Eles vão.” Os olhos dela seguiram a trilha por um momento, depois voltaram ao bicho. “Mas não tão longe.”

    Hrafn olhou para ela.

    “O que significa que estamos com azar.”

    O jeito como ela disse aquilo quase arrancou dele um sorriso, “Superstição?”, perguntou.

    Era curiosidade mais do que provocação. Entre todos os que estavam com ele, ela parecia a última pessoa a trocar juízo por cochicho de estrada.

    “Experiência”, corrigiu a guerreira.

    Ela cruzou os braços. “Talvez devêssemos voltar”, continuou. “Avisar a Hird.”

    Hrafn ergueu os olhos para o caminho velho, subindo entre pedra e mato em direção à mina. O vento vinha de lá com cheiro de terra mexida e ferrugem. Não havia mais nada no som além do normal do mundo.

    Tinham subido até ali com uma encomenda para Lady Alva. Já haviam gasto moeda e tempo. E o trabalho precisava ser feito, era nisso que Hrafn pensava primeiro. Não por heroísmo. Por saber que voltar com metade do serviço e uma história ruim quase nunca enchia estômago de ninguém.

    “Não”, respondeu, “Ninguém usa esse caminho velho”, disse ele. “E ele termina numa mina pequena. É normal que haja alguma atividade.”

    A mulher não respondeu de imediato. Passou a língua pelo dente, cuspiu outra vez e tornou a fitar a trilha. “Normal”, repetiu ela, sem parecer acreditar na palavra nem um pouco.

    Hrafn prosseguiu, sentindo o peso do próprio raciocínio enquanto o dizia. “Talvez o rastejante tenha sentido o movimento, talvez haja carniça por perto”

    Talvez, pensou, e a palavra lhe pareceu magra demais.

    A líder percebeu o mesmo vazio, porque bufou sem humor. “Ou talvez”, disse ela, “tenhamos algo pior lá em cima, pior o bastante pra ele correr de lá.”

    Hrafn não respondeu. O silêncio pareceu melhor do que mentir firmeza. Ainda assim, não voltou atrás.

    A garota que o salvara havia limpado a boca com o dorso da mão e tentava recuperar alguma dignidade ao lado de uma pedra. Um dos guerreiros recolhia a lança quebrada, outro conferia a própria mão quase esmagada. “Tudo bem, garoto”, disse a líder por fim.

    Ela tornou a cuspir no chão antes de se virar. “Só não diga depois que eu não avisei.”

    Ele cuspiu de lado, imitando sem querer o costume da mulher, e tornou a olhar a trilha.

    “Vamos terminar logo isso”, murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer outro.

    E, por um instante curto, ao encarar o caminho estreito que subia até a mina, Hrafn teve a sensação desagradável de que algo lá em cima esperava com maldade. 

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