Índice de Capítulo

    Sigrid estava maravilhada.

    Hrafn, esperto como uma raposa e descarado como só ele sabia ser, em tão pouco tempo já tinha conseguido para si uma mansão no segundo anel, enquanto ela e Brion ainda colecionavam broncas dos instrutores da Hird como se fossem medalhas.

    A casa se erguia diante dos dois com suas paredes limpas, janelas amplas e jardim bem cuidado. Ao lado dela, Brion fungou alto, e ali estava a outra metade da cena. Se Hrafn era esperto como uma raposa, e como ele mesmo dizia, Brion era burro como uma porta, ele também era forte e talentoso, mas ainda assim burro como uma porta quando queria, e ele queria com frequência admirável.

    “O aleijado é um bastardo sortudo, hein,” resmungou Brion. E como se a ofensa não bastasse, ainda assoou o nariz no jardim.

    “Brion!” reclamou Sigrid. “Não seja nojento.”

    “Ah, olha pra todos esses servos. Eles dão conta.” Fungou de novo e limpou a mão no próprio casaco. “Além do mais, eu tô meio doente.”

    Sigrid abriu a boca para repreendê-lo outra vez, mas Brion já estava rindo. “E essa história de engolir líquido grosso é coisa de puta,” concluiu, explodindo numa gargalhada descarada.

    Era como se toda a inteligência que possuía fosse usada para criar ofensas cada vez mais criativas, obscenas e desnecessárias. Os servos que os guiavam lançaram olhares ofendidos na direção do pequeno voroir, mas nenhum ousou dizer nada, pois por menor que fosse, Brion ainda era um dos elevados. 

    Limitaram-se a seguir adiante, guiando-os pelo jardim até a grande porta da mansão, subiram até o segundo andar, onde passaram por um corredor limpo e perfumado, ladeado por quadros a óleo e paredes claras, e enfim pararam diante de uma porta com a palavra escritório escrita acima dela.

    O servo curvou-se e abriu para que entrassem, Hrafn já os aguardava lá dentro, ele vestia roupas de tecido verde e negro, sentado atrás de uma mesa de madeira maciça. O cheiro de café preenchia o ar inteiro e ao lado do mordomo, apoiada num suporte, estava uma armadura imponente, a visão arrancou dela um pequeno encarar de inveja, já que a sua ainda demoraria a ficar pronta.

    “Sigrid, que bom ver você,” disse Hrafn. Então lançou um olhar fingidamente perdido mais para cima. “Onde está o nanico? Ele não veio? Não consigo ver ele.”

    “Vai me ver muito bem quando eu enfiar meu pé no seu rabo,” rosnou Brion na mesma hora, o rosto já vermelho. “Seu aleijado safado.”

    Hrafn fingiu escutar alguma coisa vinda de muito baixo e começou a abaixar os olhos aos poucos, com uma solenidade tão ofensiva que Sigrid teve de morder a parte de dentro da bochecha para não rir. “Ah,” disse ele por fim. “Aí está você.”

    “Desgraçado de merda.”

    Brion arregaçou as mangas e partiu para cima dele sem pensar duas vezes, jogou-se por cima da mesa com a megin ativa e o punho fechado, mirando direto no rosto de Hrafn, e Sigrid mal teve tempo de reagir, quando um som irritado cortou o cômodo. Raízes rápidas saíram de baixo da mesa e se enroscaram no pulso e nas pernas do pequeno voroir antes que ele pudesse completar o movimento.

    A madeira estalou sob o esforço de conter um elevado feito para ser violento, mas resistiu. “Quer bolo de nozes?” perguntou Hrafn, no meio daquilo tudo, erguendo um pedaço até perto do nariz de Brion. “Está uma delícia.”

    Ao contrário de Sigrid, Brion não pareceu especialmente impressionado com galhos ganhando vida e prendendo seus membros como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. O que o impressionou foi o cheiro, seus olhos cresceram, e por um instante a baba quase caiu.

    “Bom,” disse ele, tentando parecer digno. “Não vou fazer desfeita.”

    Burro como uma porta, pensou Sigrid, e fácil de distrair como um cachorro. As raízes o soltaram, a mão dele foi ligeira até o bolo, e então puxou uma cadeira tão rápido que Sigrid mal viu o movimento. Serviu café para si antes que Edvard pudesse fazê-lo e começou a comer com a entrega total de um glutão.

    “Hrafn,” disse Sigrid, ainda tentando acompanhar a cena inteira. “O que era aquilo?”

    “Liv,” respondeu ele. 

    Assim que sua voz caiu, um guincho baixo e fofinho soou debaixo da mesa, uma coisinha saiu dali e começou a escalar o corpo dele em gritinhos felizes até se instalar sobre sua cabeça.  Hrafn ergueu a mão e começou a fazer carinho nela com naturalidade.“Essa é minha ligação mística,” disse.

    Sigrid esqueceu por um instante o resto do mundo, pois a pequena criatura era encantadora de um jeito quase injusto, parecia feita de madeira, folhas e alegria. “Eu disse que o aleijado é um bastardo sortudo,” comentou Brion, de boca cheia. “Nem sei o que é isso, mas porra… parece foda.”

    Sigrid ainda estava confusa demais para responder qualquer coisa, então fez o mais sensato e resolveu ouvir. Hrafn convidou os dois a se sentarem, Edvard serviu comida e bebida, e então ele começou a contar o que acontecera nos últimos dias. Falou da mina e do posto avançado, conforme ela ouvia tudo com atenção. 

    A parte da luta e da bravura acendeu nela um brilho difícil de esconder. Ela também queria começar as próprias aventuras, encontrar os próprios monstros, sobreviver a eles e voltar diferente. Em vez disso, passava os dias sendo corrigida pela instrutora azul da Hird, uma mulher tão severa que provavelmente pisaria numa criança sorrindo se isso tornasse a postura de Sigrid mais reta.

    Mas então Hrafn falou das mortes e o ar pesou, com Sigrid sentindo o gosto da conversa mudar na boca. E piorou ainda mais quando ele terminou tudo com uma simplicidade quase obscena. “Creio que foi isso. Ah, e eu também vou casar.”

    “Eu estou te dizendo que ele é—”

    “Casar?!” interrompeu Sigrid.

    A palavra saiu mais alta do que devia, a surpresa a atingiu muito mais fundo do que gostaria, e isso a envergonhou na mesma velocidade, fazendo ela se endireitar na cadeira e controlar a voz antes de continuar. “Hrafn… como assim casar?”

    “Bem, acontece que…”

    O que veio a seguir foi outro monólogo, Hrafn não explicou muito, mas deixou a farsa óbvia e aquilo trouxe algum alívio a Sigrid, assim como preocupação, ele parecia se meter em coisas mais complicadas a cada vez que ela piscava.

    “Então você vai participar de um duelo para salvar a garota que você gosta?” perguntou Brion, entendendo tudo errado com uma convicção quase admirável. “Eu te ajudo nisso, irmão. Vamos foder com eles.”

    Sigrid fechou os olhos por um instante. Lá estava ele outra vez, gloriosamente burro, avançando por cima da conversa com a elegância de uma porta caindo da dobradiça. “Não é—” começou Hrafn, mas então pensou melhor. “Obrigado, Brion. Era exatamente isso que eu ia pedir a vocês.”

    “Mas eu não vou morrer pra você molhar o biscoito, hein, aleijado,” avisou o pequeno, apontando o bolo para ele. “Se você começar a apanhar, eu me rendo rapidinho.”

    Hrafn e Sigrid balançaram a cabeça ao mesmo tempo e se olharam por um instante. Era, de fato, o que se podia esperar de Brion. “Eu preciso perguntar à instrutora,” disse Sigrid, um pouco sem graça. “Ainda não posso me mover sem autorização.”

    “Fez um acordo com a Hird?” perguntou Hrafn, sem peso na voz.

    O alívio com a resposta calma dele a fez sorrir de vergonha, pensara que ele poderia se decepcionar. Mas sendo quem ele era, já devia ter um plano b e c. “Sim,” respondeu ela.

    “Não há problema.” Hrafn apontou para a pequena mandrágora, ainda aninhada perto dele. “Com a sua ajuda seriam quatro contra três. Mas três contra três pode servir também.”

    A coisinha pareceu entender a parte em que era incluída no grupo. Saltou para a mesa e começou a se exibir com um contentamento tão puro que Sigrid sentiu o peito apertar de ternura. “Eu posso pegar ela?” perguntou, sem conseguir esconder o desejo na voz.

    “Se ela deixar.”

    Sigrid estendeu as mãos devagar, a pequena mandrágora pareceu desconfiada a princípio, mas então alguma coisa mudou nela, e como se tivesse decidido que Sigrid era segura, começou a subir por seus dedos, caminhou pelo braço e por fim se acomodou em seu colo. Feliz demais consigo mesma por ter encontrado um local confortável.

    O resto da conversa seguiu em direções mais leves, com Brion produzindo alguma indecência nova sempre que abria a boca, sempre com aquela mesma mistura de coragem, sujeira e estupidez que fazia dele Brion. Hrafn devolvia com a rapidez esperta de sempre, tirando sarro dele sem esforço algum. O cheiro de café permanecia no ar, e Sigrid com a pequena Liv em seu colo percebeu que estava feliz.

    Ela ergueu os olhos para Hrafn uma vez mais, para o jeito como ele sorria ao dizer alguma maldade, para a naturalidade com que falava do próprio casamento, para alguma coisa dentro dela apertar. 

    Ele vai casar.

    Mesmo sabendo que aquele casamento era um acordo e uma solução política empurrada pela necessidade, a ideia ainda trazia um sentimento que ela não sabia bem nomear. Talvez fosse melhor assim, algumas coisas eram mais seguras quando continuavam sem nome.

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