Capítulo 37 — Hrafn — Preparações Finais
“Consegue fazer isso, Ed?” perguntou Hrafn.
“Creio que sim, meu senhor, mas,” continuou Edvard, “alguns chamariam isso de trapaça.”
“Não vão chamar,” respondeu Hrafn. “Pelo mesmo motivo que não seria trapaça usar Liv.” Fez um gesto vago com a mão. “Faz parte das minhas bênçãos, assim como eles terão as vantagens únicas deles”
Edvard sustentou o olhar dele com a calma habitual. “Ainda assim, é um uso… criativo.”
“Se souberem, mas, eu não vou contar.” Hrafn respondeu. “Você vai?”
“Jamais, meu senhor.”
“Bom.” Hrafn assentiu. “Então creio que é hora de começarmos.”
A batalha de seis fora marcada para quinze dias depois da conversa que tivera com Alva e Leif, desde então vinha se ocupando como podia, acima de tudo ele treinava com a arma, a própria megin e com Liv. Esta última parte tem tido um problema sério de coordenação.
Sentir a criatura era uma coisa, já entender seus impulsos e se fazer entender era outra. A mandrágora conseguia entender um pouco instintivamente o que ele queria fazer, o difícil era fazer ambos quererem a mesma coisa no mesmo instante, sem ter a diferença daquele atraso em um momento que o mataria.
A segunda parte da preparação era mais suja, e essa coubera a Edvard, assim como seus vastos meios e contatos. Hrafn mandara o mordomo descobrir qual seria a arena e, em seguida, e plantar discretamente várias raízes e sementes por toda a área ao redor dela.
Era um trabalho difícil apesar da simplicidade, pois era perigoso caso fossem pegos. Explicar por que um velho mordomo, ou algum servo andava mexendo em terra perto da arena exigiria uma imaginação que Hrafn preferia poupar para emergências. A ideia viera graças a Liv, de como ela conseguia sentir e tocar outras formas de vida vegetal, integrando-se a elas como se todas fizessem parte de um mesmo corpo espalhado pelo solo.
“Dagny chegou, meu senhor,” anunciou Edvard.
Esta seria a terceira parte das preparações. A Hird prezava demais a saúde de Sigrid para permitir que ela se atirasse em uma batalha daquelas tão cedo, então ele precisou ter outras ideias, o que era uma sorte talvez. Ele sabia que a velha amiga não seria o tipo de pessoa que recuaria quando fosse sensato fazê-lo. Já Brion preocupava menos por outro lado, se renderia sem a menor vergonha se o vento soprasse errado.
“Peça que entre.”
Poucos instantes depois, Dagny estava diante dele com os braços cruzados, a cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar desde que fosse pago o bastante pela própria má vontade. “Então, garoto,” disse ela, sem rodeios, “qual é o acordo da vez?”
Hrafn fez um gesto para a cadeira diante da mesa, mas ela bufou, mantendo-se de pé. “Como você se sentiria se tivesse de participar de uma batalha de seis?” perguntou ele.
“Uma batalha de seis?” Então voltou seu rosto para Edvard. “No que ele se meteu agora?”
“Não cabe a mim dizer, guerreira Dagny,” respondeu o mordomo.
“Vou ser direto,” disse Hrafn. “Você não precisa fazer muito. Na verdade, não precisa lutar de verdade, para ser sincero.”
Dagny ergueu uma sobrancelha. “O que exatamente eu precisaria fazer numa batalha de seis, se não for para batalhar?”
“Bom,” disse ele, “acontece que eu tenho tomado um gosto inesperado por jardinagem…” Hrafn então explicou o papel dela, e a guerreira parecia não ter gostado. Ele então ofereceu uma quantia que fez a boca de Dagny apertar antes que ela pudesse impedir. Ela ate tentou manter o desprezo, disse que ele provavelmente acabaria morto de um jeito ridículo. No fim, porém, o valor era grande demais para ser chutado porta afora.
“Tudo bem, garoto,” disse. “Eu aceito.” Cuspiu na própria mão e a estendeu.
Hrafn olhou para a mão cuspida, depois para o rosto dela, e decidiu que um bom acordo valia o nojo. “É sempre bom fazer negócios com você, guerreira Dagny.”
“Mentiroso.”
“Mas pago bem.”
Dagny soltou um ruído baixo, depois se virou para sair. Edvard a acompanhou até a porta, e Hrafn, aproveitando o breve silêncio que restou, deixou o escritório e subiu até o quarto. Lá dentro um vaso de terra o aguardava perto da janela, grande e cheio de terra escura. Ele ficou diante dele e levou a mão a um dos bolsos, onde retirou algumas sementes.
Ele ficou com essa ideia na cabeça desde a luta contra as mandrágoras, ja que Liv era capaz de fazer aquilo, pensou que poderia alcançar algo próximo sendo um verde. Mas enquanto para mandrágora fazer aquilo era o mesmo que respirar, para ele era como tentar nadar na terra.
Tem tido passado horas por dia repetindo tentativas desde que voltou do posto de mina, tentara com plantas crescidas e árvores jovens, mas sua megin era quase sempre rejeitada. A energia escorria pelas plantas como água em pedra lisa. Então teve a ideia de voltar ao começo, ao que ainda não era de fato planta, algo que mal nascera. Hrafn fechou a mão sobre as sementes e permaneceu ali por um longo tempo, sentindo o pulsar da transferência na pele.
Depois as colocou na terra do vaso e cerrou os olhos, sentou e inspirou com calma, tentando apagar o resto do mundo. A casa, o frio do lado de fora, o peso do próprio corpo, o cheiro e ate mesmo Liv. Essa era a parte mais difícil do processo, já que o mundo para ele quase nunca ficava em silêncio.
Demorou muito, mas aos poucos, Hrafn conseguiu estreitar seus sentidos até restarem quase só ele e as sementes enterradas no vaso.
Nasça, acorde, e cresça.
O comando se desfez na terra sem resposta, ficando assim por mais vários minutos. Quando já cogitava chamar aquilo de fracasso e voltar mais tarde, sentiu um tremor percorrer sua megin, sentiu logo depois as sementes vibrarem debaixo da terra.
Segundos depois pequenos caules finos romperam a superfície da terra, e começaram a crescer numa velocidade vertiginosa, desabrochando brotos e folhas, como se uma estação inteira estivesse sendo comprimida dentro de um só instante, mas acabou durando pouco.
Assim como o crescimento começou e, como se tivesse gastado tudo o que tinha, em um momento seguinte as plantas murcharam e encolheram. Apodreceram sobre si mesmas como se alguma coisa tivesse lambido delas até o último resto de vigor.
Hrafn abriu os olhos, olhou para os restos das pequenas plantas mortas, e sentiu um cansaço satisfeito atravessá-lo. Por enquanto, aquilo seria o bastante.

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