Capítulo 206 - O Lixo IV
— A gente não sabe, porra. — respondeu o homem, gesticulando as mãos para o alto, como se quisesse deixar aquilo bem claro. — E mesmo se a gente soubesse não iríamos falar pra uns merdas como vocês.
Gwen moveu levemente o pulso. O cano da pistola oscilou alguns centímetros para o lado. O movimento foi pequeno, mas suficiente para reforçar sua autoridade.
Os dois homens travaram. A garganta de um deles subiu e desceu seco. O outro engoliu em vazio, os olhos fixos na arma como se ela tivesse ganhado peso de repente.
Brigitte soltou um pequeno “hm” pelo nariz, inclinando a cabeça de leve, chegando próximo às orelhas pálidas de Niko.
— Traduzindo… — começou, sem tirar os olhos deles. — eles não sabem.
Fez uma pausa curta.
— E mesmo se soubessem… já decidiram que não iam colaborar.
Ela virou o rosto na direção do albocerno.
— Quer tentar outra coisa?
Niko não respondeu de imediato. O olhar passou pelos dois homens. Depois pelo saco no chão. Depois pela água. Até finalmente chegar em uma ideia.
— Pergunta sobre o despacho. — disse por fim.
Brigitte assentiu uma vez e voltou a olhar para os dois.
— Quando a gente foi no terminal descobrimos que o despacho não aconteceu. — disse, cruzando levemente o peso do corpo. — Por quê?
O homem da esquerda soltou um riso curto pelo nariz. Sem humor.
— Claro que não aconteceu.
— Isso não responde a pergunta, babaca. — disse Gwen. — Por que não aconteceu?
— Não aconteceu porque era o Giuseppe que fazia essa parte do trabalho. — respondeu o outro, mais irritado.
Silêncio curto. Brigitte inclinou levemente a cabeça.
— Explica.
— Ele era o responsável pelo despacho. — continuou o homem, agora mais direto. — Ia até o terminal, conferia tudo, dava autorização. Mas ele não conseguiu fazer isso hoje porque ele tá morto.
Ninguém respondeu. O homem deu de ombros, quase automático.
— Vocês mataram ele.
Silêncio. O som da água voltou a ocupar espaço por um instante, batendo leve contra o concreto.
Niko manteve o olhar nos dois homens, sem reação imediata. Aquilo era o tipo de informação que odiava ter — ainda mais que a falta dela. O despacho não falhou por erro ou resistência. Falhou porque ele mesmo tinha removido a peça central sem saber. Um único ponto de falha.
Puro azar… Ou sorte. Se o transporte dependia exclusivamente de uma autorização… então o dríade não tinha saído da cidade, ainda estava em Daurlúcia. Em algum lugar. Ainda poderia ser salvo.
Brigitte inclinou levemente a cabeça, processando a informação.
— Certo… — murmurou.
Ela virou o rosto para o grupo, apoiando a lança no ombro com naturalidade.
— O despacho não aconteceu porque o responsável morreu antes de autorizar.
Evelyn franziu levemente a testa.
— Pelo menos a gente sabe que o despacho de fato não aconteceu e não que mudar o trem no último segundo.
— Pelo menos isso. — respondeu Brigitte.
Gwen cruzou os braços, pensativa.
— Então o dríade ainda tá na cidade.
— Sim. — disse Niko, simples.
Ele não tirou os olhos dos dois homens, apenas aproximou o rosto da luminar.
— Pergunta sobre a equipe do trem.
Brigitte, segundo o movimento do garoto, também inclinou levemente a cabeça, entendendo na hora. Em seguida, voltou o olhar para os capangas.
— Quem operava o trem? — perguntou. — Maquinista, operários… quem eram?
O homem da esquerda respondeu sem pensar.
— A gente não sabe.
— Nem nomes, nem rostos? — insistiu ela.
— Não. — respondeu o outro, mais irritado. — Isso não passa pela gente… Passava pelo Giuseppe.
Silêncio. Brigitte olhou de relance para Niko. O garoto não respondeu, só continuou olhando para os dois. Mais um segundo e nada aconteceu. Nenhuma reação diferente. Nenhuma hesitação nova ou resposta que desse a algum lugar. Brigitte soltou o ar pelo nariz e virou levemente o corpo de volta para o grupo.
— Não sabem de nada da equipe.
— Ou não querem falar. — disse Gabe.
O grupo ficou em silêncio por um instante. Não era dúvida exatamente — era mais uma checagem rápida, como se todos estivessem chegando na mesma conclusão ao mesmo tempo, mas esperando alguém confirmar primeiro. Porém, antes que o momento chegasse, Gwen quebrou o silêncio.
— Eles vão querer falar rapidinho então. — respondeu Gwen, suspirando alto.
Ela deu um passo à frente, erguendo a pistola de forma direta e bem agressiva. O movimento foi simples, mas a intenção era nítida. Sua expressão estava em uma mistura de raiva e inquietação.
— Olha… — começou, inclinando levemente a cabeça. — sua dupla de porcos nojentos…
Os dois capangas travaram de medo.
— Ou vocês respondem quem eram os operários do trem… — continuou, ajustando minimamente a mira — ou eu vou dar um tiro na cara dos-
Antes que a garota pudesse terminar a frase, Niko se moveu. A mão dele subiu e segurou o cano da pistola e o antebraço de Gwen com uma força considerável, empurrando levemente para o lado.
— Ei! — respondeu ela.
— Isso é desnecessário, Gwen. Chega. — disse o rapaz.
Gwen desviou o olhar para ele, rápido.
— Por quê? — repetiu, sem abaixar a arma ainda.
— Porque não vai ajudar. — respondeu Niko. — Chega.
Os dois capangas já tinham levantado as mãos, totalmente aflitos. Estavam aproveitando aquela oportunidade que o chifrudo deu para barganhar suas vidas.
— D-dona, a gente realmente não sabe quem são os caras! — disse um, a voz saindo mais alta do que pretendia.
— A gente até falaria! — completou o outro. — Mas não sabe mesmo!
O primeiro assentiu várias vezes.
— Essa parte do trbalho não passava pela gente! A gente só cuidava dos estoques!
Gwen manteve a arma levantada por mais um segundo. Observando e avaliando os dois. Depois soltou um pequeno sopro pelo nariz e tirou sua força da arma. Niko soltou o braço da garota e ela abaixou a pistola.
— Inúteis. — murmurou.
Niko desviou o olhar pela primeira vez, olhando rapidamente ao redor — o rio, as estruturas, os sacos no chão. Nada ali levava a lugar nenhum. Era inútil continuar com aquilo.
— Parece que esse interrogatório terminou. — disse.
A tensão que sustentava o grupo até então começou a ceder quase ao mesmo tempo. Não houve um comando direto, mas o movimento aconteceu — um passo para trás aqui, um relaxamento de postura ali, armas ainda presentes, mas sem a mesma pressão imediata.
Os dois capangas demoraram um segundo para entender o que estava acontecendo. O olhar de um foi para o outro, buscando confirmação, como se esperasse que aquilo fosse algum tipo de teste. Quando perceberam que ninguém avançava, que ninguém fazia mais perguntas, o alívio veio.
— …Ah. — soltou um deles, deixando os ombros caírem.
O outro soltou um riso curto, nervoso no começo, mas que foi ganhando forma.
— Então pronto, acabou, né? — disse, olhando de um para o outro do grupo. — Já perguntaram, já respondemos… então deixa a gente em paz logo, seus idiotas.
Brigitte soltou um pequeno “hm” pelo nariz antes de virar levemente o rosto para o grupo, traduzindo a fala de forma rápida e direta, sem alterar o tom.
À medida que as palavras eram passadas, as expressões do grupo mudaram quase em sincronia — sobrancelhas franzindo, olhares ficando mais duros, um incômodo geral que não precisava ser verbalizado. Ninguém gostou daquilo. O pedido não soava como alívio, soava como desprezo.
Em seguida, se reorganizaram de maneira quase automática, se aproximando o suficiente para formar um pequeno círculo que serviria como o tribunal para os criminosos.
Do outro lado, os dois capangas continuavam onde estavam. Estavam tão confiantes que nem viram o circulo se fechar. Um deles deixou escapar um riso mais solto agora, o corpo relaxando como se o peso finalmente tivesse saído dos ombros.
— Por um momento achei que a gente tava morto…
O outro respondeu com um sopro pelo nariz, passando a mão pelo cabelo.
— Ainda bem que isso acabou rapidinho.
O grupo se desfez da roda com a mesma naturalidade com que a formou. Voltaram a se posicionar, retomando a distância inicial. Niko foi o único que fez um pequeno gesto — um aceno curto com a cabeça, quase indiferente, como se estivesse concordando silenciosamente com o encerramento. Enquanto isso, os homens continuavam a rir.
Brigitte surgiu pela lateral, o corpo girando no tempo exato para transferir todo o impulso para a perna, que conectou direto no rosto do homem que ainda sorria, interrompendo qualquer reação no mesmo instante.
Ao mesmo tempo, Tsugumi avançou pelo outro lado, com a voadora acertando o peito do segundo homem com precisão limpa, tirando ele do chão antes de jogá-lo contra o cabeço do cais em um impacto seco.
Os dois caíram quase juntos. O som reverberou pela estrutura e morreu rápido. Quando o silêncio voltou, elas já estavam de pé.
Brigitte ajustou a lança sobre os ombros, equilibrando o peso com naturalidade. Tsugumi voltou à posição anterior como se nunca tivesse se movido.
— Agora só falta entregá-los pra polícia.

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