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    — A gente não sabe, porra. — respondeu o homem, gesticulando as mãos para o alto, como se quisesse deixar aquilo bem claro. — E mesmo se a gente soubesse não iríamos falar pra uns merdas como vocês. 

    Gwen moveu levemente o pulso. O cano da pistola oscilou alguns centímetros para o lado. O movimento foi pequeno, mas suficiente para reforçar sua autoridade.

    Os dois homens travaram. A garganta de um deles subiu e desceu seco. O outro engoliu em vazio, os olhos fixos na arma como se ela tivesse ganhado peso de repente.

    Brigitte soltou um pequeno “hm” pelo nariz, inclinando a cabeça de leve, chegando próximo às orelhas pálidas de Niko.

    — Traduzindo… — começou, sem tirar os olhos deles. — eles não sabem.

    Fez uma pausa curta.

    — E mesmo se soubessem… já decidiram que não iam colaborar.

    Ela virou o rosto na direção do albocerno.

    — Quer tentar outra coisa?

    Niko não respondeu de imediato. O olhar passou pelos dois homens. Depois pelo saco no chão. Depois pela água. Até finalmente chegar em uma ideia.

    — Pergunta sobre o despacho. — disse por fim.

    Brigitte assentiu uma vez e voltou a olhar para os dois.

    — Quando a gente foi no terminal descobrimos que o despacho não aconteceu. — disse, cruzando levemente o peso do corpo. — Por quê?

    O homem da esquerda soltou um riso curto pelo nariz. Sem humor.

    — Claro que não aconteceu.

    — Isso não responde a pergunta, babaca. — disse Gwen. — Por que não aconteceu?

    — Não aconteceu porque era o Giuseppe que fazia essa parte do trabalho. — respondeu o outro, mais irritado.

    Silêncio curto. Brigitte inclinou levemente a cabeça.

    — Explica.

    — Ele era o responsável pelo despacho. — continuou o homem, agora mais direto. — Ia até o terminal, conferia tudo, dava autorização. Mas ele não conseguiu fazer isso hoje porque ele tá morto. 

    Ninguém respondeu. O homem deu de ombros, quase automático.

    — Vocês mataram ele.

    Silêncio. O som da água voltou a ocupar espaço por um instante, batendo leve contra o concreto.

    Niko manteve o olhar nos dois homens, sem reação imediata. Aquilo era o tipo de informação que odiava ter — ainda mais que a falta dela. O despacho não falhou por erro ou resistência. Falhou porque ele mesmo tinha removido a peça central sem saber. Um único ponto de falha.

    Puro azar… Ou sorte. Se o transporte dependia exclusivamente de uma autorização… então o dríade não tinha saído da cidade, ainda estava em Daurlúcia. Em algum lugar. Ainda poderia ser salvo.

    Brigitte inclinou levemente a cabeça, processando a informação.

    — Certo… — murmurou.

    Ela virou o rosto para o grupo, apoiando a lança no ombro com naturalidade.

    — O despacho não aconteceu porque o responsável morreu antes de autorizar.

    Evelyn franziu levemente a testa.

    — Pelo menos a gente sabe que o despacho de fato não aconteceu e não que mudar o trem no último segundo.

    — Pelo menos isso. — respondeu Brigitte.

    Gwen cruzou os braços, pensativa.

    — Então o dríade ainda tá na cidade.

    — Sim. — disse Niko, simples.

    Ele não tirou os olhos dos dois homens, apenas aproximou o rosto da luminar.

    — Pergunta sobre a equipe do trem.

    Brigitte, segundo o movimento do garoto, também inclinou levemente a cabeça, entendendo na hora. Em seguida, voltou o olhar para os capangas.

    — Quem operava o trem? — perguntou. — Maquinista, operários… quem eram?

    O homem da esquerda respondeu sem pensar.

    — A gente não sabe.

    — Nem nomes, nem rostos? — insistiu ela.

    — Não. — respondeu o outro, mais irritado. — Isso não passa pela gente… Passava pelo Giuseppe.

    Silêncio. Brigitte olhou de relance para Niko. O garoto não respondeu, só continuou olhando para os dois. Mais um segundo e nada aconteceu. Nenhuma reação diferente. Nenhuma hesitação nova ou resposta que desse a algum lugar. Brigitte soltou o ar pelo nariz e virou levemente o corpo de volta para o grupo.

    — Não sabem de nada da equipe.

    — Ou não querem falar. — disse Gabe.

    O grupo ficou em silêncio por um instante. Não era dúvida exatamente — era mais uma checagem rápida, como se todos estivessem chegando na mesma conclusão ao mesmo tempo, mas esperando alguém confirmar primeiro. Porém, antes que o momento chegasse, Gwen quebrou o silêncio.

    — Eles vão querer falar rapidinho então. — respondeu Gwen, suspirando alto.

    Ela deu um passo à frente, erguendo a pistola de forma direta e bem agressiva. O movimento foi simples, mas a intenção era nítida. Sua expressão estava em uma mistura de raiva e inquietação.

    — Olha… — começou, inclinando levemente a cabeça. — sua dupla de porcos nojentos…

    Os dois capangas travaram de medo.

    — Ou vocês respondem quem eram os operários do trem… — continuou, ajustando minimamente a mira — ou eu vou dar um tiro na cara dos-

    Antes que a garota pudesse terminar a frase, Niko se moveu. A mão dele subiu e segurou o cano da pistola e o antebraço de Gwen com uma força considerável, empurrando levemente para o lado.

    — Ei! — respondeu ela.

    — Isso é desnecessário, Gwen. Chega. — disse o rapaz.

    Gwen desviou o olhar para ele, rápido.

    — Por quê? — repetiu, sem abaixar a arma ainda.

    — Porque não vai ajudar. — respondeu Niko. — Chega.

    Os dois capangas já tinham levantado as mãos, totalmente aflitos. Estavam aproveitando aquela oportunidade que o chifrudo deu para barganhar suas vidas.

    — D-dona, a gente realmente não sabe quem são os caras! — disse um, a voz saindo mais alta do que pretendia.

    — A gente até falaria! — completou o outro. — Mas não sabe mesmo!

    O primeiro assentiu várias vezes.

    — Essa parte do trbalho não passava pela gente! A gente só cuidava dos estoques!

    Gwen manteve a arma levantada por mais um segundo. Observando e avaliando os dois. Depois soltou um pequeno sopro pelo nariz e tirou sua força da arma. Niko soltou o braço da garota e ela abaixou a pistola.

    — Inúteis. — murmurou.

    Niko desviou o olhar pela primeira vez, olhando rapidamente ao redor — o rio, as estruturas, os sacos no chão. Nada ali levava a lugar nenhum. Era inútil continuar com aquilo.

    — Parece que esse interrogatório terminou. — disse.

    A tensão que sustentava o grupo até então começou a ceder quase ao mesmo tempo. Não houve um comando direto, mas o movimento aconteceu — um passo para trás aqui, um relaxamento de postura ali, armas ainda presentes, mas sem a mesma pressão imediata.

    Os dois capangas demoraram um segundo para entender o que estava acontecendo. O olhar de um foi para o outro, buscando confirmação, como se esperasse que aquilo fosse algum tipo de teste. Quando perceberam que ninguém avançava, que ninguém fazia mais perguntas, o alívio veio.

    — …Ah. — soltou um deles, deixando os ombros caírem.

    O outro soltou um riso curto, nervoso no começo, mas que foi ganhando forma.

    — Então pronto, acabou, né? — disse, olhando de um para o outro do grupo. — Já perguntaram, já respondemos… então deixa a gente em paz logo, seus idiotas.

    Brigitte soltou um pequeno “hm” pelo nariz antes de virar levemente o rosto para o grupo, traduzindo a fala de forma rápida e direta, sem alterar o tom.

    À medida que as palavras eram passadas, as expressões do grupo mudaram quase em sincronia — sobrancelhas franzindo, olhares ficando mais duros, um incômodo geral que não precisava ser verbalizado. Ninguém gostou daquilo. O pedido não soava como alívio, soava como desprezo.

    Em seguida, se reorganizaram de maneira quase automática, se aproximando o suficiente para formar um pequeno círculo que serviria como o tribunal para os criminosos.

    Do outro lado, os dois capangas continuavam onde estavam. Estavam tão confiantes que nem viram o circulo se fechar. Um deles deixou escapar um riso mais solto agora, o corpo relaxando como se o peso finalmente tivesse saído dos ombros.

    — Por um momento achei que a gente tava morto…

    O outro respondeu com um sopro pelo nariz, passando a mão pelo cabelo. 

    — Ainda bem que isso acabou rapidinho.

    O grupo se desfez da roda com a mesma naturalidade com que a formou. Voltaram a se posicionar, retomando a distância inicial. Niko foi o único que fez um pequeno gesto — um aceno curto com a cabeça, quase indiferente, como se estivesse concordando silenciosamente com o encerramento. Enquanto isso, os homens continuavam a rir.

    Brigitte surgiu pela lateral, o corpo girando no tempo exato para transferir todo o impulso para a perna, que conectou direto no rosto do homem que ainda sorria, interrompendo qualquer reação no mesmo instante.

    Ao mesmo tempo, Tsugumi avançou pelo outro lado, com a voadora acertando o peito do segundo homem com precisão limpa, tirando ele do chão antes de jogá-lo contra o cabeço do cais em um impacto seco.

    Os dois caíram quase juntos. O som reverberou pela estrutura e morreu rápido. Quando o silêncio voltou, elas já estavam de pé.

    Brigitte ajustou a lança sobre os ombros, equilibrando o peso com naturalidade. Tsugumi voltou à posição anterior como se nunca tivesse se movido.

    — Agora só falta entregá-los pra polícia.

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