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    Niko olhou para o lado, sua visão encontrando com o rio, ouvindo o som na água batendo no concreto. O tipo de correnteza ali presente não limpa ou aberta — era um fluxo pesado, irregular e quebrado. O rio de Daurlúcia passava ali mais lento, mais escuro, como se estivesse pesado demais para conseguir correr direito.

    O grupo desceu a última rampa sem dizer nada. Estavam atentos a todo momento. O movimento ali era mínimo. Não era coincidência — estavam no ponto mais afastado possível do rio. Ali, estavam nos limites da cidade, onde não acontecia nenhuma atividade e só restava o silêncio da noite.

    Estavam rodeados por paredões cinzentos, úmidos, marcados por anos de impacto de água e sujeira acumulada. Escadas embutidas desciam direto para o nível do rio, algumas parcialmente submersas, outras completamente inúteis. 

    O cheiro também começou a mudar. O cheiro de peixe começava a diminuir, com um cheiro de ferrugem se destacando. Niko inspirou curto pelo nariz. Não precisou de muito esforço para reconhecer. Sangue. Não era fresco, mas recente o suficiente para marcar presença, preso no ar pesado, misturado com a umidade do lugar.

    Ele não comentou sobre. Apenas fixou o pé onde havia pisado e levantou a mão em sinal de alerta. Todos atrás dele acenaram; Brigitte puxou sua lança; Tsugumi sua katana.

    Mais à frente, perto de uma das bordas mais baixas, duas figuras estavam paradas. Não — não estavam exatamente paradas. Uma delas se movia. Parecia arrastar algo.

    Em seguida, a suspeita se confirmou. Veio o som de um arrastar irregular, pesado, raspando contra o concreto áspero. Depois o formato começou a se definir na penumbra: um saco grande, escuro, deformado pelo peso interno. O tecido estava molhado na parte inferior, escurecido ainda mais pelo contato constante com o chão úmido.

    O homem puxava pelos pés do saco, sem pressa, sem esforço aparente além do necessário. Parou perto da beirada, ajustou a pegada e inclinou o corpo levemente para frente.

    Mais acima, fora da linha direta de visão, o grupo já estava se posicionando. Avistaram uma estrutura de concreto para fora da rampa. Niko encostou primeiro, o corpo colado na superfície fria, inclinando só o necessário para manter os dois homens no campo de visão. Os outros vieram logo atrás. O grupo respirava baixo, observando os prováveis alvos.

    O outro estava alguns metros atrás. Sentado em um bloco de concreto, cotovelos apoiados nos joelhos, o corpo levemente curvado. Não ajudava. Não parecia interessado em ajudar. Os olhos estavam perdidos em algum ponto entre o chão e o rio, como se já tivesse assistido aquilo acontecer vezes demais para se importar com mais uma.

    — Vai demorar muito ainda? — perguntou ele, a voz arrastada, sem energia.

    O outro homem, que estava arrastando o saco, não respondeu de imediato, só empurrou o objeto.

    O volume escuro deslizou pela borda, bateu de leve na lateral de concreto antes de cair na água. O impacto foi seco, abafado. O corpo ficou suspenso alguns segundos na água antes de afundar por completo no rio. Ele não esbanjou nenhuma reação. Nenhuma palavra. Só observou o movimento da água absorvendo mais um peso.

    Em seguida, o homem limpou a mão na própria calça, como se aquilo resolvesse alguma coisa.

    — Só falta mais dois. — disse por fim. — Vamo acabar logo com isso… Anda, me ajuda.

    Silêncio. O homem sentado passou a mão no rosto, esfregando os olhos com força suficiente para deixar a pele marcada por alguns segundos.

    — Eu não aguento mais isso… — murmurou, mais para si mesmo do que para o outro. — Não aguento mais esse trabalho… 

    O outro soltou um sopro pelo nariz, sem paciência, mas sem energia pra discutir de verdade.

    — Provavelmente depois de hoje nem vai ter mais trabalho. — respondeu, já se abaixando para pegar o saco. — Pensa pelo lado positivo.

    — …

    O homem sentado ficou alguns segundos em silêncio. Depois soltou um riso curto. Seco.

    — Lado positivo, heh.

    Ele se levantou devagar, como se o próprio corpo estivesse relutando em obedecer. Caminhou até o outro sem pressa, segurou a outra ponta do saco.

    Os dois se posicionaram na beirada. Um pequeno ajuste de mãos. Coordenação automática, como quem já fez aquilo muitas vezes. O saco balançou levemente entre eles.

    — Três… — disse um.

    — Dois… — respondeu o outro.

    — …

    Atrás deles, vários passos aconteceram simultaneamente. Não se importaram com quem estava atrás, mas a resposta era óbvia: foram pegos. Os dois pararam o movimento. Não viraram de imediato. O medo travou qualquer reação. 

    Niko vinha à frente, com a foice já em mãos, apoiada de forma natural ao lado do corpo. Ao seu lado, Evelyn mantinha duas estacas de gelo formadas, o ar ao redor ainda levemente condensado. Brigitte vinha logo atrás, com a lança apoiada no ombro, firme. Tsugumi com a sua katana desembainhada e o corpo inclinado para frente. Mais atrás, Gwen e Gabe erguiam as pistolas. Nenhum deles parecia com pressa. Nenhum deles parecia tenso. 

    Os dois capangas olharam para o grupo em silêncio. Um deles soltou o saco que segurava. O corpo caiu com um som abafado contra a madeira.

    — …

    O olhar dele passou de um para o outro. Analisando. Contando. Confirmando. Logo, o outro bandido soltou o saco.

    — …O grupo de vocês aumentou agora?

    Ninguém respondeu. O outro soltou um riso curto, mais cansado do que qualquer outra coisa. Passou a mão no rosto.

    — Não aguento mais isso… — murmurou. — Sério. Acabem logo com o meu sofrimento. Me matem de uma vez!

    Silêncio. Gwen, atrás, se colocou à frente, balançando sua arma de fogo, como se quisesse exibi-la aos dois ali.

    — Olha, eu posso matar os dois agora se eu quiser. — disse, quase casual, desviando o cano para o lado no meio da frase. — Mas existe um motivo do por quê eu não faço isso.

    Ela inclinou a cabeça de leve.

    — E é porque a morte de vocês não tem valor.

    Uma pequena pausa.

    — Então sejam bons cachorrinhos e respondam nossas perguntas.

    Brigitte apoiou a lança nos ombros, equilibrando o peso com naturalidade.

    — É isso aí. — disse, apontando para o rosto de um deles. — Respondam. Onde tá o dríade?

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