Índice de Capítulo

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    — Chegamos — disse Lua, com um sorriso orgulhoso.

    — Mas eu não tô vendo nada!

    — Nem eu! — Irina apertou os olhos, tentando enxergar além daquela gigantesca nevasca, densa e barulhenta que se apresentava diante deles.

    Era como uma parede de gelo que se movia. Parecia impenetrável.

    — Eu que não entro nessa coisa! — exclamou Jéssica.

    Mical balançou a cabeça, sinalizando que ela também não entraria.

    — Visitantes imbecis… — murmurou Aerin, olhando para eles de soslaio, enquanto ajeitava seu chapéu de folhas congeladas.

    Clara e Lírica ouviram, mas preferiram ignorar a ofensa por enquanto. Só por enquanto!

    — Calma, pessoal! — disse Lua, tomando a frente. — As portas ainda precisam ser abertas!

    Ela ergueu os braços, gesticulando, e a nevasca se dissipou, revelando uma das coisas mais incríveis que Renato já tinha visto.

    Era um tipo de ilha flutuante, toda feita de gelo. Ficava a, pelo menos, 30 metros do chão; e um olhar atento notaria que a ilha estava girando lentamente em seu próprio eixo.

    E também havia algumas estruturas parecidas com torres, mas era difícil ter certeza dali de baixo.

    — Vamos? — convidou Lua, e deu o primeiro passo.

    Imediatamente, um bloco de gelo se formou embaixo de seu pé direito, como um degrau. E, quando ela deu o segundo passo, outro bloco se formou embaixo do pé esquerdo.

    — O que estão esperando? Vamos logo!

    — Acho que eu prefiro voar até lá! — respondeu Clara.

    Lua balançou a cabeça.

    — Péssima ideia! Se tentar chegar até lá em cima de outro jeito, além da escada invisível, a nevasca vai te derrubar rapidinho. — Lua riu. — Mas vai lá! Eu adoraria ver você tentar! Vai ser engraçado.

    Clara fez uma expressão carrancuda. Renato conhecia ela bem o suficiente para saber que a súcubo estava tendo pensamentos nada ortodoxos envolvendo torturas e otras cositas más.

    Resolveram seguir o método de Lua. Os degraus apareciam conforme eles pisavam, e desapareciam logo em seguida.

    Lua e Aerin tinham muita habilidade, já os visitantes eram um tanto desajeitados.

    — Não olha pra baixo! Não olha pra baixo! — Irina dizia para si mesma, enquanto dava passos lentos, acompanhando seu irmão.

    O pior não era nem a altura, mas a total ausência de qualquer apoio para se segurar. E o vento era implacável.

    Clara, obviamente, não demonstrava nenhum incômodo e agia como se aquilo fosse normal para ela, e ignorava corajosamente aquele frio na barriga.

    Para o gosto de Lírica, os degraus eram escorregadios demais, então ela pisava com o máximo cuidado.

    Mas foi Mical que, num descuido, pisou errado e seu pé escorregou no degrau liso.

    Ela caiu, Jéssica tentou segurá-la, mas também se desequilibrou.

    Renato e Clara rapidamente abriram suas asas para resgatá-las, mas não foi preciso.

    Blocos de gelo se formaram embaixo delas, segurando-as no ar.

    — Que foi? — Lua ergueu uma sobrancelha. — Vocês acharam que os Elementais do Gelo seriam tão descuidados a ponto de criar uma escada que não evita possíveis quedas? Francamente! Isso chega a ser ofensivo! Nós somos os melhores, tá legal?!

    — Se fossem os melhores mesmo, não teriam casamentos arranjados! — retrucou Clara.

    — Meros detalhes culturais! Agora vamos andando! Já estamos chegando!

    Conforme se aproximavam, ficava mais evidente que as torres que viram antes eram partes de um castelo. Já podiam ver as ameias dos muros e as torres de vigia.

    E também puderam ouvir música. Uma melodia suave e bonita, proveniente de algum instrumento de corda.

    Assim que chegaram na ilha flutuante, e ficaram diante do castelo de gelo, Lua se aproximou daquelas portas gigantescas e as tocou com a palma da mão.

    Um brilho azulado refletiu na superfície das portas, como se elas tivessem reconhecido a garota, e então se abriram, revelando um mundo mágico.

    A música vinha do alaúde de um pequeno elfo de orelhas pontudas, que estava sentado sob uma árvore. Alguns outros elfos, tão diminutos quanto o primeiro, dançavam ao som da música.

    Algumas fadinhas do tamanho de pardais, das asas brancas como algodão, deslizavam no ar, fazendo acrobacias, como se também estivessem dançando, e a música reverberava nelas, como se o próprio som quisesse dançar também.

    Num canto do muro, saindo de um morro de neve, emergia uma enorme cabeça de réptil, branca como o gelo que a cobria. A criatura estava dormindo, mas não restava dúvidas. Era…

    — Um dragão?! — Renato arregalou os olhos.

    As meninas ficaram tão espantadas quanto ele. Nem mesmo Clara conseguiu esconder a surpresa.

    — Dragões aqui? Mas eles não… não…?

    — Estão desaparecidos? — Lua completou o raciocínio da súcubo. — Talvez nos outros planos de existência, mas aqui em Feéria, eles ainda habitam. Eu disse que nós somos incríveis!

    — Mas ele tá todo soterrado na neve… — Clara já nem tentava disfarçar. Estava maravilhada com aquela criatura. — Há quanto tempo não vejo um! Nunca vi um dessa cor…

    — Esse é o velho Roon. Está enterrado na neve porque… bom… as nevascas cobriram ele, ué! Ele está dormindo há centenas de anos! Talvez nunca acorde. Dizem que se a nossa Terra for ameaçada, ele se levantará para defendê-la. De vez em quando ele se mexe, muda de posição e continua dormindo. É um dorminhoco! O dragão mais dorminhoco do mundo! Tenho certeza que se os outros dragões o vissem, zombariam dele.

    — Todo esse tempo, você tinha um dragão no quintal de casa e nunca me contou?

    — E todo esse tempo, Clarinha, você tinha o condutor de Arimã e nunca me contou…

    — É diferente…

    — Não, não é.

    — Uma vez ouvi sobre um dragão que dormiu por tanto tempo — disse Lírica —, que a própria terra o cobriu, uma floresta se formou em cima dele, e depois uma cidade. E quando ele se levantou, queimou toda a cidade e os habitantes com seu sopro de fogo.

    O ronco grave e cavernoso do bicho ressoava por baixo da música do elfo.

    Lua ficou em silêncio por um tempo, avaliando essa história terrível. Depois, apenas deu de ombros.

    — Não! Roon não faria isso. Ele é um dragão bonzinho!

    — Senhorita — disse Aerin —, vou avisar sua mãe que chegamos.

    — Tá, tá, vai lá… — Lua parecia pouco interessada nisso.

    O riso de Mical chamou a atenção de todos. Quando olharam, viram que as fadinhas estavam voando em volta dela, brincando com seu cabelo, tocando seu rosto.

    — Que linda! — diziam. — Os cabelos dela são vermelhos como o das salamandras!

    — E seus olhos são como o musgo à luz da lua!

    — E ela tem uma aura tão agradável!

    Uma fada pousou no ombro de Mical, como se fosse uma borboleta.

    — Fique em Feéria, garotinha! Vamos dançar e cantar para sempre!

    — E comer biscoitos e beber leite com mel!

    — Não posso… — Mical riu. — Preciso voltar para casa.

    — Então dance conosco!

    — Você sabe cantar?

    — Mais ou menos… — respondeu Mical, um tanto insegura.

    Lua riu.

    — É difícil conquistar a amizade das fadas. Mical realmente tem uma aura agradável. Ela só não pode falar que o frio é do mal, senão vai ter problemas…

    Jéssica deu de ombros e sorriu.

    — Mical sempre se deu bem com todo mundo. Faz amizade fácil. Já eu… sou mais contida, eu acho.

    — Você não é contida. — Clara pôs a mão em seu ombro. — Só precisou crescer mais cedo.

    Tâmara, encantada pelas fadas, tentou se aproximar também, mas as fadas rapidamente se afastaram dela, o que deixou Tâmara meio triste.

    — Ei! Sai da frente! — disse uma voz grave e mal humorada, muito parecida com a voz de alguém que fumou Derby vermelho por 50 anos.

    Renato se assustou e saiu, dando passagem aos anões. Eles mediam por volta de um metro e dez, eram atarracados e tinham barbas longas e volumosas, algumas trançadas e ornamentadas com pedras e metais.

    Eram mais ou menos 8 ou 9, andando em fila. Um deles, o primeiro da fila, trazia um machado largo com o cabo apoiado no ombro. Quatro de seus companheiros carregavam um barril de madeira.

    — Saia da frente, humano, se não quiser ser atropelado pelos anões da montanha de Grot!

    A maioria deles mal deram atenção para Renato ou o grupo das garotas, focados em sua marcha para dentro do território do castelo. Carregavam o barril como se ele estivesse cheio de ouro. Mas houve um murmúrio, algo como: “eles voltaram a sequestrar humanos?”

    Então, houve um rugido atroz. E até a música parou.

    E um monstro caiu diante de Lua.

    Era o K’allpaq. Dois metros e meio de altura, no mínimo. Gordo, pesado, peludo. Tinha dois chifres ornamentando o topo da cabeça.

    Dois dentes curvados se projetavam para fora de sua boca.

    —  Minha noiva! Finalmente…

    — Se afaste de mim! Eu já disse que não vou me casar com você!

    — Mas sua mãe! Mas a lei! — A fala dele era arrastada e vinha do fundo da garganta.

    — Quanto a minha mãe, eu me resolvo com ela! E quanto a lei, eu já tenho um noivo! — Lua se agarrou em Renato. — E ele irá derrotá-lo num duelo!

    — É mesmo? — O K’allpaq olhou direto para o garoto, fitando-o com aqueles olhos azuis.

    — Homenzinho vai morrer!

    — Então eu sou seu noivo agora? — Renato perguntou a Lua.

    — Droga! Me ajuda! — Lua murmurou nervosamente. — Eu precisei falar isso, senão…

    — Que cena interessante! — E logo após essa fala, todo o pátio mergulhou no silêncio. A música parou. Até mesmo o dragão parou de roncar.

    — Então você vai se resolver comigo? — Aquela mulher atravessou o pátio com passos elegantes. Trazia um cigarro preso nos dedos, cuja fumaça se misturava à brancura do ambiente.

    À esquerda, Aerin a seguia, como um subalterno obediente; e à direita, Soll, a irmã de Lua, a acompanhava.

    Por um momento, os olhares das irmãs se cruzaram, e Soll pareceu realmente irritada com alguma coisa.

    A marquesa, mãe das duas, fitou os olhos vermelhos, quase do mesmo tom dos de Clara, diretamente para Renato.

    — Então este é seu noivo?

    — Não… espera! — Renato até tentou argumentar, mas não soube como. E a mãe de Lua o interrompeu bruscamente.

    — Então você vai derrotar o K’allpaq num duelo? E então, Strausun? — Ela chamou o monstro pelo nome. — Vai lutar com esse humano?

    — Mim vai devorar o humano!

    A marquesa riu.

    — Ótimo! Teremos entretenimento hoje!

    — Mãe…!

    — Shhh! Quieta! Você não queria um duelo? Pois que o duelo aconteça agora! Aquele que vencer, terá direito à mão da marquesa infante!

    Soll estalou a língua e, num instante, se acendeu como uma tocha. O fogo a cobriu, e seu salto foi quase como um voo.

    Ela pousou ao lado de sua irmã.

    — O que pensa que está fazendo?!

    — O que eu tô fazendo?! Eu não vou me casar com um monstro!

    — Você não iria se casar com ele! Nós daríamos um jeito de…

    — Iríamos nada! Nossa mãe é teimosa demais para ouvir qualquer uma de nós! Mas até ela precisa obedecer a lei!

    — E aí você vai… — Ela olhou para Renato, depois para Clara, e depois para as outras meninas.

    — Um problema de cada vez! — retrucou Lua, dando de ombros.

    — Chega de conversa fiada! — berrou o K’allpaq, quase num rosnado, e puxou uma clava espinhenta da cintura. — Homenzinho vai morrer! — berrou, balançando a clava acima da cabeça.

    Os outros K’allpaqs, que estavam espalhados pelo pátio, incomodando as fadas e os elfos, ou até cutucando o dragão dorminhoco, se aproximaram. Eufóricos e barulhentos, queriam ver seu companheiro trucidar um pequeno ser humano.

    Renato suspirou, resignado. Não tinha jeito! Lá estava ele de novo numa luta!

    Apanhar quieto é que ele não ia! Decidiu acabar logo com isso.

    Na palma de sua mão, cintilou a bola de fogo negro, sem luz e sem calor.

    Soll franziu o cenho quando viu aquilo. Ela era uma elemental do fogo, mas este tipo de chama era novidade pra ela.

    O K’allpaq estacou, como se estivesse petrificado.

    Encarou aquela bola na mão de Renato como um gato olhando um pontinho de laser.

    — Isso é…

    A reação do monstro deixou o garoto um bocado confuso.

    — Ah, isso? — Renato olhou para a magia cintilando em sua mão. — Isso é…

    — Que tipo de fogo é esse?

    Renato suspirou impaciente.

    — Quer lutar ou não quer?

    O K’allpaq o encarou por um instante, pensativo.

    — Eu não. — Ele jogou a clava no chão. — Eu desisto.

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