Capítulo 220: Deus, o Diabo e o Vazio.
Assim que os acólitos e noviças, armados até os dentes, olharam para Renato e para as garotas, eles simplesmente estacaram. Ficaram paralisados feito estátuas. Nos olhos, traziam o assombro de alguém que testemunhava uma aparição de fantasma. As mãos vacilavam; mesmo os dedos trêmulos que roçavam nos gatilhos.
Até que um grito feminino soou, vindo de dentro do Priorado. Não era um grito de medo e nem de dor, mas de autoridade. O grito de alguém dando ordem.
— Seus idiotas! — berrava a garota. — Abaixem isso! — Surgiu Midiã, a noviça, empurrando um dos acólitos pelo peito e puxando a arma de outro. — Não conseguiriam matar este homem nem que todos vocês atirassem ao mesmo tempo!
Os Novos Vigias do Priorado encararam sua nova líder com hesitação e uma pontada de medo. O medo não era todo por causa dela.
Midiã olhou para Renato e para as meninas, correndo os olhos pelo rosto de uma por uma.
Mordiscou um lábio. Renato achou curioso ver nela o mesmo gesto de nervosismo tão comum em Jéssica.
A garota suspirou e sorriu.
— Bem-vindos! — Ela fez uma mesura desajeitada, não porque não sabia como fazer, mas devido ao nervosismo. — A que devemos a honra da visita?
— Não queremos problemas… — disse Renato —, mas…
— Mas também não fugimos deles! — completou a súcubo, dando um passo adiante, cheia de petulância. — Então apontam as armas de novo pra gente e…
— Calma, calma… — Renato pôs a mão no ombro dela. — Não é provocando as pessoas que conseguimos as coisas. Bom, às vezes é, mas…
— Renato tem razão! — disse Irina. Suas mãos estavam para trás, e Renato soube que ela estava segurando uma arma escondida. — Não é com a violência que resolvemos as coisas. O diálogo é sempre a melhor opção…
— Hipócrita… — murmurou Clara.
Lírica contraiu as garras retráteis que tinham se projetado na ponta de seus dedos.
A única que permaneceu sem qualquer reação foi Tâmara. Seu sorriso não se desmanchou em nenhum momento. Renato, por um momento, sentiu arrepios.
— Como eu ia dizendo — continuou ele —, não queremos problemas, mas tem algo que precisamos saber.
Midiã continuou calada, olhando para ele, com uma expressão enigmática. O garoto prosseguiu:
— Na última vez que estivemos aqui…
— Sei! — Ela o interrompeu, mas logo pareceu arrependida, e então esperou ele continuar.
— Nós lutamos contra um anjo.
Os Novos Vigias se entreolharam. Renato prosseguiu:
— O corpo dele. O que fizeram?
Novamente os jovens armados se entreolharam. Depois olharam para Midiã, esperando uma resposta dela. Estavam dispostos a lutar por ela, é verdade, mas preferiam não precisar fazê-lo. Estavam tão traumatizados do último confronto, que muitos deles nem rezavam mais; outros, rezavam em excesso.
Midiã suspirou e relaxou os ombros.
— Queiram me acompanham.
Enquanto caminhavam pelo pátio de solo batido, que antes tinha sido seu lar terrível e prisão, Jéssica não pôde deixar de sentir angústia.
O poste de madeira, que outrora fora usado para queimar pessoas vivas como punição e espetáculo, não estava mais lá.
Nenhum sinal de Isaias ou de Kézar, ou daquele padre executor balofo, que agia como carrasco para júbilo de seus irmãos em fé. Então porquê…
Mical segurou sua mão.
— Eu sei — sussurrou ela. — É estranho. Mas estamos seguras.
— Sim. Estamos mesmo. — Jéssica sussurrou de volta.
Clara, com seus sentidos aguçados, ouviu, mas preferiu fingir que não. Ela adorava provocar as garotas, é verdade, mas por algum motivo lhe faltou vontade dessa vez.
— Fizemos algumas mudanças por aqui, como podem ver — disse Midiã. — Não há mais punições públicas e nem linchamentos. A maior parte do ouro do templo, nós tiramos para construir amuletos e munição mágica já que, como sabem, não contamos mais com a proteção da Pedra Fundacional. Espero que ela tenha sido de utilidade para vocês.
— Foi sim.
— Essas pessoas que vivem… todas elas… estão tão perdidas quanto qualquer um. Estamos tentando melhorar, sabe?
— Sei… — Renato olhou em volta. Realmente, o ambiente parecia diferente. Algumas crianças corriam, brincando de pega-pega, onde antes havia um poste para tortura. As armas, o medo, ainda estavam lá, mas por algum motivo, parecia mais leve.
Chegaram finalmente no templo. Os Novos Vigias ficaram esperando na entrada. Somente Mídia e os convidados entraram.
A nave ainda era esplendorosa, com aquele teto alto em formato de abóbada e toda a arquitetura construída para fazer as pessoas sentirem-se pequenas.
— Ah, que sensação de nostalgia! — disse Clara.
— Esse lugar tem mais medo impregnado nas paredes do que a maioria dos castelos infernais — disse Lírica.
— Tem mais sangue também. — Clara sorriu.
Irina ficou impressionada com o lugar. Ela tocou um dos bancos de madeira, brilhantes de verniz, sentindo a lisura, o detalhamento, os desenhos entalhados na superfície.
— Digno de um sheik árabe. Mas as casas lá fora… são tão pobres!
— A diferença era maior, acredite — disse Jéssica.
— Sim — confirmou Midiã. — Nós estamos reduzindo certas injustiças. Mas ainda somos falhos demais em alguns aspectos. É difícil caminhar com as próprias pernas, entende? Saber o que fazer e o que não fazer, o que é certo e errado, sem ter um anjo, um Deus, um guia para nos ajudar. Como as pessoas conseguem?
— Que bonitinho! A freirinha número três tá tendo uma crise existencial… — Clara esboçou um sorriso com a lateral da boca.
— Normalmente, a gente bebe — disse Renato. — O álcool serve justamente pra isso.
— Álcool? — Midiã enrugou a testa. — Me parece meio… supérfluo. Sem sentido! Tem alguma coisa que eu não estou vendo?
— Ou come. Ou transa. Ou assiste um filme. Ou se diverte com os amigos. As possibilidades são infinitas. A vida passa pra todo mundo. Ela é tipo um grande vazio que a gente tenta preencher da melhor maneira possível. E não tem Deus e nem Diabo pra preencher isso por você. Só você mesmo.
Clara, ao ouvir as palavras de Renato, deu um tapinha no ombro dele.
— Hedonista e existencialista, igual a uma súcubo! Que orgulho!
— Também tem amor! — disse Mical. — Amizade. Lealdade. Tenho certeza que a vida não é só… isso! Tem mais coisa, mas às vezes a gente tem dificuldade de enxergar.
— Mical… — Midiã olhou para a garota, e finalmente sentiu algo próximo do afeto. — Você se tornou tão sábia.
As bochechas de Mical coraram e ela desviou o olhar, e se agarrou em Renato.
— Sabe… eu discordo de você, Renato! — disse Midiã. — Não acho quê “não tem Deus e nem Diabo que preencha isso”. Acho que eu só não sabia pra onde olhar. Toda a minha vida, eu cresci acreditando que era uma escolhida por Deus para ser algo grande. Me falaram desse Deus amoroso e de seus anjos protetores e mensageiros. Que tudo acontece por um propósito e que eu deveria confiar. Que meus líderes eram homens justos e tementes a Deus, e que eles sabiam diferenciar o bem do mal, e bastava que eu acreditasse nisso e tudo ficaria bem. É por isso que eu não podia suportar quando vocês duas fugiram daqui. Como alguém pode ousar negar tamanha bondade? Tamanho privilégio? Negar algo assim só poderia ser um pecado terrível. Mas Jés, Mica… sabe o que eu senti quando vi vocês aqui? Quando vi que estavam bem e que nenhuma punição divina havia caído sobre vocês… eu senti inveja. Muita inveja. Perdão! Peço que me perdoem! Eu… eu desejei que vocês fossem punidas. Eu fui uma das pessoas que incentivou aquela coisa terrível que o Prior Regente pretendia fazer. Mas hoje eu sei. Meu coração estava enevoado e mergulhado em ressentimento.
— Midiã… — Jéssica segurou sua mão. — Nós sabemos como isso funciona. Não foi sua culpa.
— É por isso, Renato, que eu discordo daquilo que você disse. Porque quando eu vi você lutar contra um anjo e vencer, e ainda proteger aquelas pessoas que te desprezaram… eu soube. Demorei pra aceitar, mas soube. Tenho certeza que você está tentando manter em segredo. Mas conta pra mim, por favor! Eu preciso saber!
— Saber o quê? — Renato ergueu uma sobrancelha.
Irina e Lírica se entreolharam, confusas. Só Clara entendeu, e ela abriu um sorriso de satisfação de orelha à orelha.
— Preciso saber se você é mesmo Deus.
— Peraí! Quê?!
Palavras do autor:
Salve, salves, amigos! Ceis tão bão?
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