Para todos os leitores de O que eu deixei para trás?, passem nos capítulos extras!
Como eles estão sendo adicionados agora, no bloco após o Volume 2, não tenho certeza se as notificações estão chegando corretamente. Por isso, não esqueçam de dar uma espiada de vez em quando para ver se saiu um capítulo extra novo!
(E isso vale especialmente para quem já finalizou o segundo volume e está no terceiro agora!)
Capítulo 55: Era Invernal
CAPÍTULO ANTERIOR:
— Por favor, entenda. Acredite você ou não…
Ela ergueu o rosto outra vez.
— …se o futuro for mesmo aquilo que eu vi…
A explosão veio de uma vez, engolindo tudo o que o julgamento mostrava ao redor.
— …então o mundo inteiro vai morrer por sua causa, Louie Kaede.
O eco das palavras dela não se dissipou, permaneceu suspenso no ar. Até o mar escarlate, antes inquieto, agora era contido por aquela pressão silenciosa.
Por alguns segundos, nada reagiu. As correntes cessaram o movimento. O olho pulsante desacelerou. E Louie… ficou imóvel.
O sorriso que outrora insistia em exibir no rosto havia sumido por completo. Em seu lugar, restava apenas um olhar cabisbaixo.
Os elos vibraram baixo quando ele relaxou o corpo.
— … você está certa.
O tom saiu mais abafado do que o habitual.
— H-hãn? — A Vigia recuou um passo, lágrimas ainda marcando seu rosto.
Ele desviou a atenção por um instante e puxou o ar com calma, organizando os pensamentos antes de continuar. Quando voltou a encará-la, não havia mais resistência em sua expressão.
— Me desculpa.
— Q-que…? — A menina piscou, genuinamente surpresa. — P-por que está pedindo desculpas?
— Como assim ‘por quê’? — Seus ombros relaxaram junto ao suspiro cansado. — Eu fui um idiota.
As correntes afrouxaram mais um pouco, cedendo sem esforço.
— Antes mesmo de tentar ouvir o que vocês tinham a dizer, eu fugi. — Por um breve instante, abaixou o olhar. — Fiz piada porque era mais fácil do que admitir que estava com medo de estar aqui.
Os dedos se curvaram sutilmente.
— Ainda sou novo, não só como Kaelum, mas como pessoa. Não sei reagir quando sou pego de surpresa, então acabo escolhendo o caminho que parece mais seguro… mesmo que isso signifique me enganar.
A menina o observava, percebendo a fragilidade escondida na voz trêmula.
— Não é só essa situação… — o tom mudou. — É encarar a realidade. Quanto mais o tempo passa, mais percebo o quanto estou preso na podridão desse mundo… e o pior é que nem entendo direito como estou ligado a tudo isso.
Seus dentes se apertaram uns contra os outros, expondo a frustração de alguém perdido dentro de si.
— E fazer parte disso sem compreender significa ter que enfrentar as consequências. Mas, ao encarar esse passado que me assombra desde o dia em que acordei, também acabo colocando aqueles que amo em perigo outra vez.
Por um momento, fechou os olhos.
— Então… sinto muito por ter agido daquela forma.
Quando tornou a abri-los, já não havia qualquer intenção de fugir daquele problema.
— Não foi justo com você.
Ele sustentou o olhar dela.
— Não quero que pense que sou alguém que não se importa com o que pode acontecer, sendo culpa minha ou não.
As amarras já não ofereciam resistência, soltas ao redor do corpo.
— Sou só alguém que ainda tem medo… e não sabe lidar com isso.
Sem suavizar, sem esconder.
— Por isso… estou disposto a ouvir. E entender esse futuro do qual tu fala.
Seu semblante, agora cru e sincero, mergulhava nos olhos azul-celestes dela.
— Então… poderia me dar outra chance e explicar por que estou sendo julgado?
A tensão presente na garota não desapareceu, mas se estabilizou momentaneamente.
— Eu também peço desculpas.
Louie soltou um leve suspiro.
— Tu não tem pelo que se desculpar.
— Tenho, sim. Fiquei tão desesperada com o que vi que esqueci que, assim como eu, você também não passa de um adolescente. — cochichou, sentindo o peso de cada xingamento que havia lançado contra o garoto. — Foquei apenas na situação em que eu estava. Apenas na pressão que eu estava sentindo, sem tentar olhar pelo seu lado. No fim, ainda fomos nós que te sequestramos.
— Sim… mas relaxa quanto a isso. Não foi a primeira, e provavelmente não será a última vez que me sequestram.
— Entendi… não sei se isso chega a me aliviar, pra ser sincera. — A Vigia soltou uma breve risada, as bochechas levemente ruborizadas. — Bom, deixando isso de lado, eespero que não seja tarde para nos apresentarmos. Me chamo Takua Vestrak. É um prazer te conhecer, Louie Kaede.
À frente dela, já livre da pressão das amarras, o garoto sorriu.
— O prazer é meu! — Ele moveu os pulsos de um lado para o outro, as algemas de sangue ainda firmes em seus punhos, embora já não o mantivessem preso à força. — Caramba… pensei que iam arrancar meus braços fora. Mesmo usando minha superforça, não consegui nem sequer trincar essas algemas. Esse poder é muito dahora.
— Bem, acho que é, sim. Ele é uma variação do poder “A Visão de Todos”, passado por milhares de gerações dentro da família Vestrak, proveniente da fé em Odin.
— Então ele é herdado de geração em geração? Que incrível.
Os olhos dele voltaram a se fixar nos dela.
— Certo, agora que nos apresentamos, conseguiria me explicar brevemente a situação?
A expressão da garota voltou a endurecer aos poucos. O breve conforto que havia surgido entre os dois desapareceu à medida que suas íris azul-celeste retomavam a mesma seriedade de antes.
Ela puxou o ar devagar.
— Sim. Para entender o motivo deste julgamento… é preciso voltar muito antes de qualquer um de nós existir.
Louie permaneceu em silêncio. Os elos frouxos balançavam lentamente sobre o mar escarlate abaixo deles.
Takua ergueu o olhar para o vazio ao redor, como se buscasse as palavras em algum lugar distante da própria memória.
— Vallheim Vestrak é uma das cidades Kaelums mais antigas já registradas. Tão antiga que nem mesmo nossos arquivos conseguem apontar quando ela realmente surgiu.
O enorme olho suspenso acima deles voltou a pulsar.
— Existe uma enorme lacuna na nossa história. Uma verdadeira “queima” de arquivos que desafia a própria lógica.
Sua voz saiu mais baixa, porém carregada por um peso ainda maior.
— Tudo o que aconteceu antes do início do calendário cristão desapareceu. Registros, nomes, acontecimentos e até… lembranças. Como se alguém tivesse arrancado um pedaço inteiro da nossa existência.
O menino estreitou levemente o olhar. O ambiente esfriou junto daquelas palavras.
— Nós chamamos esse período perdido de: Era Invernal. — continuou. — E foi justamente no fim dessa era… quando Vallheim ainda tentava entender o que havia acontecido… que uma criança nasceu.
Os dedos dela se fecharam devagar sobre o próprio braço.
— Aallar Vestrak.
O nome caiu pesado sobre o grande julgamento de sangue.
— Ele foi o primeiro membro da família Vestrak a despertar a A visão de Todos. Aos olhos dos cidadãos, era alguém diretamente ligado, pela fé, a Odin.
Enquanto ela falava, o vasto oceano vermelho sob eles ondulou, reagindo à história e formando imagens moldadas pela própria narrativa.
Sombras tomaram forma sobre a superfície líquida.
Uma cidade colossal surgiu no reflexo escarlate. Estruturas gigantescas cobertas pela neve se erguiam enquanto as paredes do imenso cânion formavam uma muralha natural ao redor, e luzes azuladas brilhavam entre a tempestade branca.
O semblante de Louie acompanhou aquilo atônito.
— Assim como hoje, naquela época os Kaelums eram desconhecidos pelos humanos comuns e caçados pelas elites que sabiam de sua existência, apenas por serem diferentes e fortes demais para serem controlados.
A imagem no oceano mudou.
— Temidos e odiados, fomos rejeitados pela sociedade e declarados uma ameaça pelo mundo exterior.
Figuras humanas marchavam através da neve, carregando tochas que brilhavam em meio à tempestade.
— Sabendo do risco de a cidade sofrer retaliações, e priorizando a segurança dos moradores, Aallar fez uso do poder que havia herdado de Odin.
O brilho azul nos olhos de Takua se intensificou por um instante.
— O Escurecer dos Olhos.
Assim que aquelas palavras foram pronunciadas, a visão da grande cidade começou a se desfazer lentamente diante deles, como fumaça sendo dissipada pelo vento.
— Uma variação da Visão de Todos, capaz de manipular completamente a percepção das pessoas comuns em larga escala.
Louie arqueou uma sobrancelha.
— Espera… pessoas comuns?
— Sim. Não-Kaelums.
Ela assentiu.
— Aqueles que não possuíam olhos provindos de um corpo Kaelum tornavam-se incapazes de perceber Vallheim Vestrak, fazendo com que a cidade fosse impossível de ser vista, ouvida ou até mesmo lembrada.
O reflexo tornou-se vazio outra vez. Como se a cidade nunca tivesse existido.
— Durante quase um século inteiro, desaparecemos do restante do mundo.
Takua desviou o olhar por um momento.
— Até finalmente sermos encontrados.
— Por quem?
Ela voltou a encará-lo.
— Por uma organização que havia surgido algumas décadas antes.
A voz dela vacilou, tomada por um sutil insegurança.
— Imagino que já tenha ouvido esse nome antes…
As correntes ao redor de Louie vibraram.
— Ordo Protectorum Kaelum Mundi.
O garoto levou a mão ao queixo, tentando se recordar daquele nome, que não lhe era estranho, mas parecia inalcançável em seus pensamentos.
Antes que Louie pudesse chegar a alguma conclusão, Takua completou:
— A atual ‘Organização de Poderes Kaelums Mundial’, ou melhor, a OPKM.
Finalmente, ele se lembrou de onde já tinha ouvido aquilo. Um flash da conversa que tivera com Kael no hospital central o atingiu.
— Então foi aí que Vallheim Vestrak começou a ter contato com o resto do mundo?
— Sim. E foi também a partir desse momento…
A pupila de sangue suspensa atrás dela voltou a se mover de forma descontrolada.
— Que a futura ruína mundial começou.
O cenário refletido no rubro retornou ao futuro trágico que haviam visto anteriormente.
Louie franziu a testa, sua expressão curiosa percorrendo aquele destino sombrio.
— Certo. Acho que entendi o passado dessa cidade. Mas o que isso tem a ver comigo e com o futuro que você viu?
Takua fitou o rosto dele por alguns segundos. Então ergueu as duas mãos.
— Acredito que mostrar seja melhor do que falar.
O mar carmesim voltou a tremer violentamente.
Em um susto, o garoto cambaleou, mas logo se firmou novamente.
— O quê?
— Vamos adentrar agora… — Aquele lugar, outrora um tribunal, começou a perder sua forma e cor. — A Galeria das Visões…
CLAP!
O bater de palmas ecoou. E, junto dele, tudo se transformou. O rubro foi enfim substituído por paredes brancas como a neve, exibindo inúmeros quadros.
— O ‘Presságio dos passados‘.
[ Místico, oriundo da fé em Odin].
Variação IV. Presságio dos passados: Permite acessar ecos de visões futuras deixadas por antigos usuários do poder. Esses registros surgem como fragmentos em uma galeria metafísica de quadros, onde cada imagem representa um evento futuro já testemunhado. Cada quadro contém um fragmento da visão, o nome do usuário original e sua profecia.
‼️ IMPORTANTE ‼️
A Galeria não mostra o futuro, mas fragmentos de futuros já vistos por antigos usuários do poder mistico: A visão de todos.
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CURIOSIDADE 20:
Takua Vestrak, assim como todos os portadores do poder A visão de todos oriundo da fé em Odin, exceto Allar Vestrak, não herda suas habilidades pelo sangue, como ocorre com muitos Kaelums, mas pela fé dos cidadãos de Vallheim Vestrak na crença de que o sangue dos Vestrak carrega o poder de Odin, o guardião absoluto dos vales flutuantes.
Por acreditarem que só pode existir um único usuário desse poder divino, quando um descendente direto de Allar Vestrak completa dez anos e desperta a Variação I: Escurecer dos Olhos, o antigo Vigia é sacrificado. O sucessor então assume oficialmente o título, recebendo grande poder e autoridade junto ao conselheiro-chefe da cidade.
Ao longo das eras, duas linhagens Kaelums acompanharam historicamente o Vigia, com o dever de protegê-lo. São elas: a linhagem Veritas, portadora do poder místico Verbo do Trapaceiro, oriundo da fé em Loki, e a linhagem Valdaskar, detentora do poder místico Geri Freki, Guardiões do Senhor, oriundo dos cães de Odin.
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FRAGMENTO HISTÓRICO 16:
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⟬ ARQUIVO DE ESTÁGIO 1 — Nº 013 ⟭
Diário pessoal — Observações
Autor: Marek Aurellum — Ano XL após a morte de Cristo.
(Documento confidencial. Extraído dos registros centrais da OPKM.)
Originalmente compilado por Marek Aurellum no quadragésimo ano após a morte de Cristo, como parte da obra Crônica de Um Poder que Não Compreendo.
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𐌌 Após algumas horas desde que despertei nesta caverna, finalmente consegui me alimentar adequadamente.
Meu corpo ainda carrega dores constantes, principalmente ao mover o braço esquerdo, mas a exaustão já não pesa da mesma forma que antes.
Livia preparou a refeição utilizando ingredientes que armazenava entre seus pertences de viagem. Disse que aprendera aquela receita ainda em sua terra natal, nas regiões orientais do Império Parta.
Tratava-se de um ensopado de lentilhas e cevada, temperado com ervas secas e acompanhado por pequenos pedaços de carne conservada em sal. Havia também um pão achatado, assado diretamente sobre pedra quente.
Enquanto comíamos, ela comentou sobre as estradas do leste.
Falou sobre mercados erguidos entre desertos, cidades cercadas por muralhas claras e caravanas que atravessavam rotas tão extensas que alguns homens passavam metade da vida caminhando por elas.
Disse ter nascido entre comerciantes.
Seu povo vivia do movimento constante das caravanas e do contato com diferentes culturas. Desde jovem, acostumou-se a ouvir relatos sobre terras distantes, reinos desconhecidos e povos separados por oceanos e montanhas.
Talvez tenha sido isso que despertou nela o desejo de partir.
Segundo suas próprias palavras, permanecer muito tempo no mesmo lugar fazia com que sentisse a alma aprisionada.
Por isso escolheu viajar.
Não em busca de riqueza ou glória. Mas apenas pelo desejo de conhecer o mundo enquanto ainda lhe restavam anos suficientes para percorrê-lo.
Confesso que ouvi-la falar trouxe uma estranha sensação de calma.
Sua presença exala uma confiança inabalável.
Mesmo sozinha, atravessando regiões perigosas e suportando tempestades como a que recentemente atingiu estas montanhas, ela demonstra uma serenidade difícil de encontrar até mesmo entre soldados experientes.
Também descobri mais detalhes sobre a forma como fomos encontrados.
Segundo Livia, pouco, um estrondo colossal ecoou na direção do mesmo lugar onde achou o homem no dia da tempestade. O som foi tão intenso que parte do teto chegou a desprender pequenas pedras.
Inicialmente acreditou tratar-se de um desmoronamento. Ainda assim decidiu verificar.
Seguiu por um longo trecho escuro até nos encontrar desacordados, já não tão longe da segunda entrada no lado oposto da caverna, que também fica próxima de onde estamos agora.
Entretanto, é incrível sua bondade ao ajudar dois desconhecidos assim. Quanto mais escrevo estas linhas, mais percebo que começo a admirar profundamente essa mulher, mesmo conhecendo-a há tão pouco tempo.
Tem sido reconfortante conversar com ela. Talvez mais do que eu próprio esperava.
Entretanto, terei de interromper este registro neste exato instante.
O homem deitado ao lado de Lucanus acaba de despertar com uma tosse agressiva.
Será que finalmente conseguirei as respostas que busco?
Logo registrarei o que descobrir de novo.
Assinado: Marek Aurellum
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⟬ FIM DO FRAGMENTO ⟭
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