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Capítulo 54: Máscara de sangue
CAPÍTULO ANTERIOR:
A garota caminhou até o centro da plataforma e então parou. Sem pressa, ergueu as pálpebras e encontrou o olhar dele.
Louie travou. Havia profundidade demais naquele ínfimo lapso, como se ela enxergasse uma versão dele que não existia. Pelo menos, ainda não.
O homem ao lado do círculo suspenso avançou um passo, sua voz alta vibrando por todo o salão.
— Agora daremos início ao julgamento do Oriundo da Morte: Louie Kaede, pelo possível envolvimento futuro com aquele que trará a calamidade final ao mundo… Calamifer.
O murmúrio começou baixo.
Começou como um sussurro entre as arquibancadas. Em segundos, virou um ruído que dominava o Núcleo de Julgamento.
O nome ainda pairava no ar.
Calamifer.
Louie franziu a testa. Aquilo não lhe remetia a nada e, ainda assim, causava um estranhamento imenso.
— Silêncio. — A voz da Vigia não foi alta, mas foi o bastante para calar todos.
Ela deu um passo à frente no tablado.
— Louie Kaede — repetiu, agora sem pressa. — Ou melhor… Oriundo da Morte.
Fez uma breve pausa, sustentando o olhar com firmeza.
— Levante-se.
Akun hesitou por um instante, mas afrouxou o aperto, permitindo, enfim, que o garoto se erguesse devagar.
Enquanto se levantava, Louie encontrou os olhos dela outra vez. Mas, agora, não desviou.
A pressão que se formou não era da gravidade, mas do encontro entre aquela que conhecia o futuro e aquele que desconhecia o passado.
— Me diga… você entende a acusação que foi feita contra você?
Louie inclinou a cabeça, como se realmente pensasse naquilo.
— Nem um pouco — respondeu, com um pequeno sorriso no canto da boca. — Na verdade, acho que vocês todos não batem bem. Ainda tô tentando entender como as coisas funcionam aqui, mas, de onde venho, não se julga alguém pelo futuro.
Algumas figuras entre os assentos elevados se agitaram, visivelmente incomodadas com o tom desrespeitoso.
— Que garoto arrogante! — Ecoou a primeira voz.
— Quem ele pensa que é pra falar assim com a Vigia?! — Outra veio logo em seguida.
— Condenem ele logo! — ordenou um dos mascarados.
Akun soltou um suspiro baixo, passando a mão pelo rosto.
“Esse moleque ainda vai piorar a própria situação…”
A menina ignorou completamente qualquer reação ao redor.
— Entendo sua dúvida. Afinal, o nome citado não pertence ao presente, muito menos ao passado.
Seu semblante se estreitou sutilmente.
— Ele pertence a um futuro manchado pela dor, que não deveria existir. E isso… envolve você.
Louie levou a mão à nuca, coçou os cabelos negros entremeados por mechas esbranquiçadas.
— E como você saberia disso?
A pergunta saiu firme. A Vigia sustentou o olhar nele por um bom tempo antes de responder.
— Não vem ao caso agora — disse, em um suspiro calmo.
Ela ergueu a mão com sutileza e, no mesmo instante, o solo abaixo de Louie reagiu. Linhas finas de luz surgiram sob seus pés e se espalharam em padrões circulares pelo chão.
Os guardas deram um passo para trás.
Akun também recuou e se inclinou enquanto cochichava:
— Uma dica, moleque… pro seu próprio bem, é melhor não mentir.
— Quê? Como ass—
CRACK!
O som seco reverberou.
O solo se projetou para cima, lançando a plataforma até a altura da garota.
Seu corpo reagiu atrasado, com um breve desequilíbrio, enquanto o estômago se embrulhava com a subida brusca.
— Saiba de uma coisa, garoto…
“Garoto? Ela parece ter a minha idade…”
— Sua vida aqui dependerá daquilo que eu ver. — Sua voz saiu calma, porém firme e inabalável.
Ele lançou um olhar rápido para baixo, onde o chão já estava distante demais, e então voltou a encará-la.
— Ver o quê, exatamente?
Ela não respondeu de imediato. Permaneceu quieta, enquanto a plataforma terminava de se alinhar à dela.
Só então, declarou:
— A verdade… dentro de você.
Com um movimento calculado, o homem ao lado da passarela ajoelhou-se, levou a mão à cintura e puxou uma pequena adaga das costas.
— Aqui está, senhora Vigia. — murmurou, enquanto estendia a curta lâmina para a bela menina.
Louie, sem compreender a situação, recuou meio passo, deparando-se com o limite da pequena base flutuante.
“O que eles planejam fazer? Quem é esse Calamifer que eles falaram? Como pretendem me julgar pelo futuro?”
Louie cerrou os punhos, suas pupilas correram ao redor como se buscassem alguma saída dali.
“Quanto mais tempo passo aqui, mais perguntas surgem, e menos respostas fazem sentido… Tudo o que me resta agora é ver onde isso vai dar.”
— Bem, vamos começar…
A adaga subiu lentamente até a altura do peito. A Vigia virou a mão, expondo a palma com naturalidade ritualística, e apoiou a lâmina contra a própria pele.
Naquele momento, os olhos do garoto estremeceram diante dela. Um desconforto estranho percorreu suas entranhas.
Mas, interrompendo isso—
— O julgamento.
TCHAK.
O som do corte rasgou o silêncio. A lâmina abriu a pele da garota com precisão cirúrgica, sem hesitação ou desvio.
O sangue salpicou as mechas esbranquiçadas de Louie e voltou para a Vigia, marcando seu rosto.
Ao mesmo tempo, o rubro denso que surgiu abundante em sua palma, escorreu em fios espessos e contínuos.
A primeira gota se desprendeu.
Por um lapso, não caiu. Pairou, como se recusasse o próprio destino. O carmesim em sua superfície distorcia o mundo ao redor, capturando fragmentos do rosto de Louie, da lâmina e… da própria Vigia.
Então, cedeu. Desceu lenta, cortando o espaço sem emitir qualquer som.
Até que—
GLUMP!
Tocou o chão sem respingar.
As linhas sob a plataforma pulsaram. Uma vez. Duas. Três. E, enfim, VERMELHO.
A cor se espalhou como uma infecção viva e devorou cada traço e símbolo do Núcleo de Julgamento. O branco desapareceu sem resistência, substituído por um tom visceral.
Sob os pés de Louie, a superfície perdeu forma e se tornou um líquido espesso, reluzente e consciente. Ainda assim, o reflexo abaixo não o imitava, mas revelava outra coisa: um ser distorcido, de cabelos brancos, com a pele nascida da própria escuridão.
“E-esse… é o mesmo cara que apareceu quando usei os poderes pela primeira vez!”
O mar escarlate se expandiu. Engoliu as arquibancadas e apagou qualquer vestígio do que existia antes.
Cada respiração vinha mais curta que a anterior.
Louie tentou recuar, mas—
CLANK.
O som metálico rasgou o ambiente, fazendo seu olhar descer rapidamente.
CLANK.
Um arrepio percorreu sua espinha. E, por fim—
CLANK.
— Hã? O que é isso?
Correntes irromperam do líquido e se enrolaram em seus braços e pernas em um único puxão.
— Ugh!
Seus punhos foram forçados para lados opostos e romperam as antigas algemas como se não fossem nada.
O corpo foi erguido, com os braços estendidos ao limite e as pernas puxadas para baixo, formando uma cruz suspensa acima do chão ruborizado.
As amarras vibravam, emitindo um ranger contínuo.
Louie tensionou o corpo e tentou se libertar com força bruta. Mas nada aconteceu.
— Que merda é essa?! — As palavras saíram entrecortadas.
Diante dele, a Vigia permanecia intacta. O sangue ainda escorria de sua mão, porém, já não caía. E sim, flutuava ao redor, girando em espirais lentas.
Seus olhos já não eram os mesmos. Uma ampulheta negra tomava suas pupilas.
— Este é o julgamento de Odin.
A maré rubra ao redor se contraiu enquanto ela abria os braços teatralmente.
— A verdade do sangue.
No fundo do cenário, o líquido escarlate se ergueu e se moldou em um olho pulsante, cuja íris oscilava em movimentos irregulares
[ Místico, oriundo da fé em Odin].
Variação III. A Verdade do Sangue: Permite à usuária criar um espaço metafísico denominado Tribunal de Odin, uma realidade conceitual isolada, fora das leis físicas e sustentada pelo próprio poder. Ao ser ativado, o corpo do alvo é arrastado para o domínio, passando a existir sob suas regras.
No Tribunal, o alvo é aprisionado pelos Laços de Gleipnir Carmesim, correntes inquebráveis que anulam fuga ou resistência. Apenas a usuária e o alvo existem no domínio, sem interferência externa. O alvo não pode escapar, e a usuária não pode causar dano físico direto, caso contrário, sofrerá o mesmo dano.
O julgamento ocorre por perguntas binárias (sim ou não). As respostas são avaliadas por dois mecanismos: o Olho de Odin, que analisa a verdade subjetiva (consciência, intenção e crença), e a Escrita do Sangue, que revela a verdade objetiva absoluta, independente do que foi dito ou do que o alvo sabe.
‼️ IMPORTANTE ‼️
O poder não extrai informações, apenas valida respostas. Perguntas mal formuladas podem gerar resultados imprecisos.
Ela deu um passo à frente.
O oceano abaixo reagiu, elevou-se em um leve impulso, como se reconhecesse sua presença.
— Aqui, não existem mentiras. Nem futuro, passado ou presente. — ficou imóvel por um momento, totalmente voltada para ele. — Existe apenas aquilo que você carrega.
As correntes tilintaram, apertando não só o corpo, mas também a mente do garoto, que, mesmo sob a pressão, não se calou.
— Aquilo que eu carrego? — Um riso curto escapou. — Tenho só uma beleza estonteante e um belo par de bíceps!
— Tsk.
A língua dela estalou. Os olhos, antes firmes, baixaram, ocultos pelas sombras.
— Agora que aqueles conselheiros de merda não estão olhando… eu posso falar — sussurrou, a voz comprimida entre os dentes. — Tu tem noção do que está em jogo aqui?
— Hm? — piscou, pego de surpresa pelo tom. — Não ouvi.
O mar ao redor ondulou antes dela sequer se mover.
— Eu perguntei… — repetiu, agora mais alto — Se tu tem noção do que está em jogo.
Louie franziu a testa e deu de ombros; o metal que o aprisionava rangeu com o movimento.
— Sabe, me ajuda a te ajudar. Eu já disse que não estou ouvin—
— ACHA QUE ESSA MERDA TODA É SÓ UMA GRANDE PIADA?!
A explosão veio abrupta.
O oceano respondeu na hora, elevando-se em ondas caóticas que colidiam com violência. Atrás dela, o olho se contraiu de súbito, a pupila tremendo de forma instável.
— O que? — Ele hesitou e recuou um pouco.
Ela avançou, enfurecida, sem qualquer traço de controle, apenas raiva.
— Até quando pretende continuar fazendo gracinha?!
Quanto mais se aproximava, mais os elos rangiam, apertando os membros do garoto.
— Ugh! — O corpo dele cedeu contra a pressão. — Como assim?
— Pensa que é a vítima aqui?! O único preso contra a própria vontade?! — Ela disparou, já à frente dele, tocou com força o indicador em seu peito. — Não tô fazendo isso porque quero. Tô fazendo porque, se eu não fizer, ninguém vai!
O solo carmesim enlouqueceu. A superfície se contorceu e cuspiu imagens irregulares.
Cidades reduzidas a pó. Céus rasgados. O caos cobrindo tudo.
E algo no meio disso. Algo que não deveria existir.
Um homem alto de manto negro.
No lugar do rosto, uma máscara azul, manchada por um brilho pulsante que corria por suas ranhuras como veias vivas. O sorriso entalhado nela era rasgado.
Ao redor do olho esquerdo, uma fumaça azul escapava em fios lentos, serpenteava pelo ar como se ainda buscasse algo.
O instinto do menino tremeu.
“Esse ser… tenho a impressão de já ter visto ele em algum lugar…”
Ela vacilou por um momento, não por fraqueza, mas pelo peso do que via.
— Aquele… não. Aquilo não é uma possibilidade. — disse, mais baixo, o corpo trêmulo. — É um futuro que já começou.
— Um futuro…?
— Sim. E você é a pessoa que está no centro disso! — acrescentou, focada nele. — Cada decisão, cada palavra, cada passo… tudo arrasta o mundo para mais perto disso!
Ela avançou até ficar a centímetros dele, sem hesitar. Já não era mais só raiva que existia em sua expressão.
— Acha que isso aqui é sobre você?! — A voz saiu embriagada. — Sobre suas piadinhas ou esse maldito orgulho?!
— N-não…
— Crianças, mulheres e homens… todos lá fora podem deixar de existir por causa de um pirralho que não leva nada a sério!
A menina vacilou.
— Então para… — As palavras saíam cada vez mais apertadas. — Para de agir como se isso fosse um jogo…
Por um segundo, tudo cedeu.
Ela abaixou a cabeça, e as ondas se aquietaram junto.
Então, uma silenciosa lágrima despencou em direção ao oceano grotesco.
— Por favor, entenda. Acredite você ou não…
Ela ergueu o rosto outra vez.
— …se o futuro for mesmo aquilo que eu vi…
A explosão veio de uma vez, engolindo tudo o que o julgamento mostrava ao redor.
— …então o mundo inteiro vai morrer por sua causa, Louie Kaede.

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