Índice de Capítulo

    Estou revisando, refazendo e remodelando todos os capítulos iniciais de “O que eu deixei para trás?”. Então, já peço desculpas caso vocês percebam uma mudança drástica de qualidade entre os primeiros capítulos e os que virão em seguida.

    Quero trazer a melhor versão possível da obra para o Volume 1 físico, que sairá em breve. Por isso, vou tentar concluir toda essa melhoria o quanto antes e peço a compreensão e paciência de vocês durante esse processo.

    Muito obrigado pelo apoio de sempre. Vocês são o que me motiva a continuar escrevendo todos os dias!

    LINHA DO TEMPO: Entre o salto de dois meses ocorrido entre os capítulos 39: Começar de Novo e 40: Camélia Branca.

    DIA 15 após o capítulo 39


    A noite já havia tomado conta de Áurea.

    Dentro da casa dos Kaede, a lareira crepitava suavemente, espalhando sua luz alaranjada pela sala.

    O ambiente, normalmente tranquilo, estava prestes a virar um campo de guerra.

    — NÃO! — a voz de Nina ecoou pela casa. — A gente NÃO VAI dormir sem jogar!

    Louie, largado de qualquer jeito no sofá em U, virou o rosto lentamente, com os olhos semicerrados.

    — Eu acabei de sobreviver a outro treino do Kael… tô cansado — murmurou, exausto. — Fora que estou ocupado.

    — Ocupado com O QUÊ?! — berrou a menina.

    — Em não fazer nada.

    — Isso é o oposto de estar ocupado! — rebateu, já conectando os cabos no console com uma habilidade avançada demais para a idade. — Hoje é noite de campeonato!

    Aya, sentada ao lado, inclinou levemente a cabeça.

    — Campeonato…?

    — Sim! — Nina ergueu o controle como se fosse um troféu. — E vocês dois vão participar!

    — Eu não sei jogar isso… — respondeu a garota, sincera.

    — Tu aprende jogando — sorriu a menina, de forma maliciosa. — Vai ser ainda mais divertido assim!

    Louie soltou um suspiro longo.

    — Tu sabe que isso não vai dar certo, né?

    — Fresco. Vai ser incrível! — respondeu ela, animada demais. — Vai ser bem diferente de quando tentei te ensinar. Afinal, a Aya é inteligente e aprende rápido.

    — Ei! — resmungou o garoto.


    Minutos depois…

    A TV iluminava a sala com cores vibrantes. Na tela, um jogo de luta se desenrolava, cheio de personagens exagerados, poderes absurdos e uma dose generosa de brutalidade desnecessária.

    — Certo! — Nina apontou. — Cada um escolhe um personagem!

    — Esse aqui parece forte, hehe — disse Louie, escolhendo o mais brutamontes da tela. — Esse campeonato já tá no papo.

    — Eu vou com esse. — Nina selecionou um personagem pequeno, ágil e claramente apelão.

    Aya analisava todos, como se buscasse respostas na estrutura de cada um.

    — Esse parece o mais equilibrado. — moveu o analógico até um personagem com lâminas grandes e físico bem definido.

    O garoto ao lado estreitou os olhos.

    — Tu escolheu baseado em quê?

    — Nos padrões de movimento das habilidades e na distribuição de peso do corpo. — respondeu a garota com naturalidade, como se fosse óbvio.

    — Tu sabe que, num jogo, esse tipo de análise provavelmente não ajuda muito… né? — murmurou ele.

    — Sério? — a pergunta saiu sincera.

    — Afu… — Louie suspirou. — “Kael versão feminina 2.0…”

    A luta começou.

    Rodada 1: Aya Nafidh VS Louie Kaede.

    — Aperta esse! NÃO! ESSE NÃO! — Nina gritava, apontando os botões que Louie devia pressionar. — É ESSE AQUI!

    Louie fazia exatamente isso… do seu próprio jeito.

    — EU TÔ APERTANDO TUDO!

    — NÃO TUDO, BURRO! Quem é o idiota que aperta todos de uma vez!?

    — EU SEI LÁ! Nada tá funcionando!

    Enquanto isso, Aya permanecia silenciosa e concentrada, analisando cada ação. Seus dedos pressionavam os botões com precisão cirúrgica.

    Um combo. Depois outro. Um desvio. Um contra-ataque perfeito.

    Então, como um gongo marcando o fim do combate:

    KO!

    — Hã? — Louie olhou para a tela. — Como assim eu já morri?!

    — O quê? — perguntou Aya, inocente.

    — TU ACERTOU TUDO!

    — Eu só repeti o padrão que funcionou antes…

    Nina congelou.

    — …ela é um monstro…

    Rodada 2: Aya Nafidh VS Nina Kaede.

    Agora Aya já tinha entendido completamente o jogo. E isso definitivamente era um problema.

    — NÃO! — Nina gritou. — ISSO NÃO VALE!

    — Vale sim! — Louie riu. — Tu que chamou ela!

    Aya desviava de tudo, mantendo pressão constante enquanto controlava o espaço.

    Seus combos eram perfeitamente limpos.

    E então, mais uma vez:

    KO!

    — C-como tu fez isso?! — Nina perguntou, incrédula, olhando para a televisão, de queixo caído.

    — Você deixou uma abertura de 0,07 segundos após o ataque. — respondeu Aya, tranquila.

    — 0,07 O QUÊ?!

    Rodada 3: Aya Nafidh VS Louie Kaede. Revanche.

    Silêncio.

    Tensão.

    E, novamente… KO!

    Aya conquistou outra vitória perfeita.

    — … — Louie ficou imóvel, o controle ainda na mão.

    — … — Nina também.

    Aya piscou.

    — Eu fiz algo errado?

    — Não! — Nina bateu as mãos nas pernas. — Tu fez certo demais! Arrebentou o irmão—

    Nesse momento…

    — O que está acontecendo aqui? — a voz grave de Kael surgiu atrás do sofá, observando a cena.

    — AH! — Nina se virou. — Vem jogar também!

    Kael arqueou uma sobrancelha.

    — Eu não tenho tempo para isso.

    — Tá com medo? — disse a menina, sem rodeios.

    Um silêncio denso tomou conta da sala.

    Louie e Aya viraram o rosto lentamente, suas expressões irreconhecíveis pelo terror da provocação.

    O comandante encarou Nina, fixamente.

    — Me dê esse controle. — disse, com os olhos em chamas.


    Minutos depois…

    Kael analisava as habilidades dos personagens com concentração absoluta, os olhos cravados na tela, como se estivesse diante de um relatório de missão.

    — Certo… — murmurou. — Entendi. Estou pronto.

    Nina cruzou os braços.

    Louie abriu um sorriso quase maligno.

    Os dois aguardavam, ansiosos, pelo que parecia ser um destino trágico e inevitável para o grande pináculo de Áurea.

    A luta começou.

    Kael Dragan VS Aya Nafidh.

    Kael avançou com precisão, cada movimento calculado, cada ação estratégica. Ainda assim, algo o pegou de surpresa:

    KO!

    — …

    Ele perdeu.

    — …

    — Hahahahaha! — Nina explodiu. — PERDEU SEM NEM DAR DANO!

    Louie caiu para trás no sofá.

    — Minha nossa… como se sente, ó grandioso comandante? O tão temido pilar do tempo… aquele de quem os oponentes fogem só de ouvir o nome… sendo completamente derrotado?

    Kael permaneceu imóvel.

    — Esse sistema… não tem lógica.

    — É videogame, Kael. — disse Louie, enxugando as lágrimas de tanto rir. — Não precisa de lógica.

    Tentativa número dois.

    Kael Dragan VS Aya Nafidh: revanche.

    Agora sim, com concentração máxima, a luta começou.

    Kael melhorou muito. Chegou a acertar um golpe.

    Mas Aya…

    Aya já estava em outro nível. Combos, desvios, contra-ataques.

    Resultado?

    Mais uma derrota humilhante de Kael.

    — …

    — HAHA! — Louie bateu no braço do sofá. — AYA AMASSOU!

    — Eu só fiz a mesma coisa da luta anterior… — disse ela.

    Kael soltou o controle lentamente. Seus olhos se fixaram na garota, depois na tela e, por fim, nas próprias mãos.

    — …isso não mede habilidade real. — resmungou, virando o rosto.

    Nina inclinou a cabeça.

    — Tá chorando, tio Kael?

    Louie perdeu completamente o controle.

    — HAHAHAHAHAHAHA!


    Mais tarde…

    A sala estava um caos. Controles espalhados. Risadas altas. Nina comemorando como se tivesse vencido tudo.

    Todos estavam animados.

    Menos Kael.

    Ele permanecia em silêncio absoluto, braços cruzados, refletindo sobre seu desempenho medíocre contra Aya.

    A garota olhou para ele.

    — Quer revanche amanhã?

    Kael não demorou a responder.

    — Sem dúvidas.

    A lareira estalava suavemente enquanto a noite seguia tranquila.

    E, pela primeira vez em muito tempo, Kael, ainda que de forma discreta, fazia parte daquilo.

    Louie apoiou a cabeça no encosto do sofá.

    Olhou ao redor.

    Nina rindo.

    Aya serena.

    Kael… tentando entender o que aconteceu e já planejando sua vingança.

    Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

    “Isso aqui…”

    Seus olhos suavizaram.

    “Isso até que foi legal…”

    E, por um instante, ele não pensou no passado. Nem no futuro.

    Apenas ali.

    No presente.

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