Estou revisando, refazendo e remodelando todos os capítulos iniciais de “O que eu deixei para trás?”. Então, já peço desculpas caso vocês percebam uma mudança drástica de qualidade entre os primeiros capítulos e os que virão em seguida.
Quero trazer a melhor versão possível da obra para o Volume 1 físico, que sairá em breve. Por isso, vou tentar concluir toda essa melhoria o quanto antes e peço a compreensão e paciência de vocês durante esse processo.
Muito obrigado pelo apoio de sempre. Vocês são o que me motiva a continuar escrevendo todos os dias!
Capítulo extra 5: Receita para o desastre
LINHA DO TEMPO: Entre o salto de dois meses ocorrido entre os capítulos 39: Começar de Novo e 40: Camélia Branca.
DIA 20 após o capítulo 39
O cheiro de algo queimando invadia a casa.
— LOUIE! — a voz de Emi ecoou por todo o lugar.
— NÃO FUI EU QUEM QUEIMOU O ARROZ! — ele respondeu da cozinha no mesmo instante.
Dois segundos depois, a mãe já descia as escadas.
— Mas eu não disse que foi você, muito menos falei sobre arroz…
— …
— …
— É… não..?
Louie apareceu na porta da cozinha segurando uma panela, com a expressão de alguém que já tinha aceitado o próprio destino.
Uma fumaça suspeita subia dela.
Emi cruzou os braços.
— O que foi que eu te falei?
— Pra mexer de vez em quando…
— E você fez isso?
— Bommm… — ele desviou o olhar. — Eu pensei em fazer.
Nina surgiu atrás dele, os longos cabelos castanhos caídos sobre o blusão azul que usava.
— Pensar não conta, bobão.
— Cala a boca. — Seu rosto ficou vermelho de vergonha.
Aya apareceu logo depois, atraída pela comoção. Vestia uma camisa preta simples e uma calça escura.
— O que aconteceu?
— Ele tentou cozinhar. — Nina respondeu.
— Eu não “tentei”! Eu tava indo muito bem, pra sua informação!
Emi levantou a tampa da panela e, junto da fumaça tóxica que escapou dali, veio também um silêncio constrangedor.
Aya observou atentamente a substância carbonizada dentro da panela com seus olhos roxos, sem saber se sentia medo ou nojo.
— Isso aqui era pra ser o quê?
— Arroz.
— Tem certeza?
— …não…
Minutos depois…
A cozinha estava organizada, os ingredientes separados, e Louie permanecia de pé com uma postura estranhamente séria. Afinal, aquilo era uma missão de vida ou morte.
— Certo… — Emi começou. — Hoje tu vai aprender o básico.
— Eu sei o básico.
— Tu queimou arroz.
— Foi apenas um teste.
— De quê?
— Resistência térmica.
Nina riu.
— E pelo visto, tu perdeu.
Emi apontou para a bancada.
— Primeiro: lavar o arroz.
Louie pegou o recipiente, observou por um instante e o virou direto na pia. A água saiu com tanta força que lançou grãos para todos os lados.
— LOUIE! — gritou Emi.
— EU SEI! EU SEI!
Em pânico, ele levou a mão até a saída da torneira na tentativa de conter a água, o que só fez jatos descontrolados espirrarem pela cozinha inteira.
— Tu tá lavando ou executando o arroz?! — perguntou Nina, gargalhando sem parar.
— M-MÃE! O QUE EU FAÇO?! ELE TÁ FUGINDO!
— ARROZ NÃO FOGE! — berrou Emi, erguendo os braços à frente do rosto para se proteger da água. — S-Só fecha a torneira!
Aya virou o rosto, rindo baixo.
Nina já estava dobrada no chão.
Na tentativa desesperada de fechar a torneira, Louie ergueu a mão e girou com força.
A água enfim parou.
— Finalmente. Pensei que a gente ia alagar a casa inteira. — disse Emi, respirando aliviada enquanto secava o rosto.
Louie encarava algo na própria mão.
— M-mãe…
— O que foi?
Ele se virou devagar, mostrando a peça metálica que segurava.
— É normal… isso sair?
— Q-que?
No segundo seguinte—
BLANG!
A torneira explodiu outra vez.
Só que agora, sem qualquer forma de ser detida.
Três horas depois…
Louie encarava a panela com concentração, mexendo o arroz devagar em movimentos circulares.
— Tá vendo? Agora tá indo.
Emi observava de lado, com os braços cruzados.
— Tu só começou a acertar depois de duas horas tentando arrumar a torneira. Ainda acha que pode falar com orgulho?
Louie parou de mexer e virou o rosto para a mãe.
— B-bem… pelo menos eu tô tentando.
— Filho…
— Se for só pra criticar, prefiro aprender sozinho.
— Filho…
— Pra quem não sabe nada, até o básico difícil!
— Filho…
— O que fou agora? Vai me julgar de novo?
— Não é isso, filho… — o silêncio tomou conta da cozinha junto do cheiro que começou a subir no ar. — Olha o arroz.
— Quê? Por que?
Ele olhou rapidamente para a panela. À primeira vista, tudo estava normal.
— Ué? Mas tá certo. Eu tô mexendo o tempo todo.
— Não é isso…
— Então o quê é?
— Tu esqueceu o sal.
Louie congelou.
— E-e… ainda dá tempo, né?
— Não. O arroz já tá praticamente pronto.
— Dá sim. É só colocar um pouco agora.
Sem pensar duas vezes, ele despejou um punhado gigantesco de sal na panela.
— Aío, resolvido.
Emi fechou os olhos lentamente antes de pegar a panela com cuidado.
— Eu nem sei mais o que falar…
Ela caminhou até a mesa e colocou a panela no centro. Os pratos já estavam postos diante de cada um.
Nina, animada, começou a rir enquanto servia arroz na própria tigela.
— Vai ser só arroz puro?
— Isso é só um aperitivo da “primeira” tentativa do Louie na cozinha. Depois eu faço a janta de verdade.
Aya observava a comida em silêncio, ainda tentando aceitar o que estava prestes a enfrentar.
Enfim, as três provaram a comida.
— …
— E aí? — perguntou Louie. — Podem dar suas opiniões sinceras.
As três se entreolharam por alguns segundos.
— Olha… — disse Aya, com a voz falhando um pouco. — Tem… personalidade.
— Tá uma bosta, irmão.
— E-ei!
— Olha a boca, Nina — corrigiu Emi.
— Mas ele pediu sinceridade! E você mesma falou que mentir é feio!
— Às vezes é necessário omitir certas coisas para não machucar alguém.
Com delicadeza, Emi pegou um guardanapo ao lado e levou discretamente até a boca, deixando ali a comida logo após a primeira mastigada. Em seguida, virou-se para Louie com um sorriso calmo.
— Ficou ótimo, meu amor.
— Se omitir era teu objetivo, tenta fazer direito pelo menos… — respondeu ele imediatamente, soltando um suspiro desanimado. — Mas o que ficou tão ruim assim?
Nina levantou a mão na mesma hora.
— Posso falar?
— Tu não.
— Tudo.
— EU FALEI PRA TU NÃO FALAR!
Aya tentou segurar o riso, mas acabou gargalhando mesmo assim.
— Não tá horrível… — disse entre as risadas.
Louie olhou para ela cheio de esperança.
— Só tá… muito salgado.
— É… acho que exagerei um pouco.
— Um pouco? — Nina ergueu a sombrancelha. — Tá—
Antes que terminasse, Emi tampou a boca da menina com a mão, impedindo que ela destruísse o resto da autoestima do irmão. Depois, voltou a sorrir para Louie.
— Pra primeira vez… não ficou tão ruim.
Louie a encarou, surpreso.
— Nas próximas tentativas — continuou Emi — tenho certeza de que vai ficar ainda melhor.
O garoto abriu um sorriso instantâneo.
— Tá bom!
E assim, mesmo que a receita tivesse sido um completo desastre, aquele momento acabou se tornando inesquecível para todos eles.


Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.