Índice de Capítulo

    O corpo tremia, e a respiração ficava mais intensa. Seus instintos imploravam para agir e eliminar a ameaça. Em seus pensamentos surgiam atos de matança; várias vezes visualizou a morte dela, e isso reviveu aquelas memórias de quando quase concluiu esse ato em sua terra natal.

    Seu corpo, que raramente transpirava, aos poucos ficou mais molhado. Naquele momento, Ui teve certeza de que Izumi não estava realmente bem. A intenção assassina que emanava dele era intensa. Ela o abraçou, fechou os olhos e esperou que aquilo terminasse.

    Os segundos passaram, e a intenção se tornou cada vez mais forte. O mestiço cogitou usar sua força para fugir, mas, ao lembrar que já a havia magoado daquela outra vez na floresta, sentiu-se mal por querer fazer aquilo novamente.

    — Ui, me solte… — disse. — Por favor — murmurou.

    Naquele momento, ela arregalou os olhos, bastante surpresa. Acreditava que seu amado a odiasse, mas não era isso. Em sua percepção, poderia ser qualquer coisa, menos aquilo. Sorriu de canto, enquanto um resquício de lágrima caía no chão, e respondeu: 

    — Sim.

    Ela se afastou e percebeu que o mestiço melhorava. Então, pensou que Max talvez estivesse certo: algo acontecia com ele.

    — Izumi, se estiver acontecendo alguma coisa, me diga, tá? — falou Ui, agora num tom mais calmo.

    — Não está acontecendo nada — esclareceu, e evitou encará-la.

    — Ok — murmurou, ao olhar para o chão.

    Izumi seguiu em direção ao grupo, e ela foi logo atrás. Não demorou para que fossem notados por todos. Quando a peituda lançou o olhar para a mestiça, ela respondeu com um joinha. Idalme sorriu de canto em seguida.

    Continuaram a seguir caminho até o carro, e o mestiço não pensou duas vezes antes de subir em cima dele.

    Nick, ao ver a atitude, ficou imediatamente apreensivo e alertou:

    — Ei, não pode ficar em cima!

    — Foda-se — insultou, ao manter-se imóvel, de braços cruzados, como se aquilo não fosse problema nenhum.

    Dam colocou a mão no ombro do ruivo, fitou-o enquanto balançava o rosto em negação e, em seguida, entrou no carro. Ui pensou em subir sobre o veículo, mas logo recordou que deveria manter distância de seu amado.

    Todos entraram no carro e partiram rumo a outro destino. Dez minutos depois, durante a viagem, avistaram ao longe outra grande muralha, não tão imponente quanto a primeira.

    — A cidade é dividida? — questionou Max, assim que observou o caminho à frente.

    — Sim — respondeu. — E peço que se comportem quando chegarmos lá, por favor.

    — Por quê? — perguntou.

    — Vão entender melhor assim que chegarmos.

    Passados mais cinco minutos, o carro parou diante da muralha. Havia vários soldados posicionados na entrada. Parecia que aquela muralha era mais bem defendida do que a outra, e isso deixou o líder preocupado com o que poderia haver ali dentro.

    Nick pediu para eles esperarem e foi conversar com os guardas. Max saiu do carro e questionou Izumi, que estava ao lado:

    — O que eles estão conversando?

    — Nada demais, mas estão teclando naquele aparelho estranho — respondeu, ao observar à distância.

    — Foi igual antes, não é? — perguntou Max.

    — Sim. Não querem que saibamos de algo — afirmou.

    — Sentes algo em relação ao Nick?

    — Não gostei dele. Está tramando algo… mas, no fundo, sinto que está com pena de nós.

    — Pena? Huuummm… vejo — murmurou, pensativo.

    — Um dos homens acabou de dizer: “Não ferre com o plano” — completou, sem desviar o olhar.

    Max ficou ainda mais cauteloso do que antes. Por isso, durante todo o tempo em que esteve ali, recusou qualquer refeição que lhe foi oferecida. Dam comeu por curiosidade, enquanto Izumi e Ui não precisaram. Idalme, por sua vez, não resistiu e acabou por se alimentar.

    O ruivo retornou em seguida e pediu que todos entrassem no carro. O mestiço negou e subiu sobre o veículo. Ele coçou o cabelo, em sinal de preocupação. O portão se abriu e havia mais guardas à frente. Enquanto o carro passava, os soldados observavam em silêncio, com as espadas embainhadas.

    Seguiram por uma estrada onde as casas ao redor pareciam vazias. Depois, chegaram a uma rua mais movimentada, e o grupo ficou surpreso com o que via. Ui, sorrindo, colocou a cabeça para fora e gritou para o mestiço:

    — Está vendo, Izumi? Aqui está cheio de gordos!

    Nick rapidamente pediu para ela se calar, tenso com a situação, mas Ui logo reagiu:

    — Mas são pessoas gordas, qual o problema?

    O ruivo suspirou e respondeu em voz baixa, com seriedade:

    — O problema é esse… essas pessoas não são normais. Elas pertencem a uma categoria diferente de pessoas plebeias como nós.

    — Plebeias? — repetiu, confusa.

    — Sim. Para eles, somos somente ferramentas.

    Assim que a viatura fez uma curva para outra rua, era possível ver mais pessoas obesas. Algumas caminhavam sozinhas com dificuldade, outras corriam, e a maioria estava em cadeiras de rodas sendo empurrada.

    Todos tinham algo em comum: a boca em constante movimento. As pessoas que empurravam as cadeiras eram de peso médio, e seus rostos não demonstravam felicidade. Isso se destacava ainda mais nas mulheres que estavam no colo daqueles humanos.

    — Kiakiakia! Um cara tá sendo esmagado por uma gorda — disse Ui e riu ao ver um casal sentado num banco.

    — Ei!!!! — gritou a mulher, imediatamente ofendida.

    Nick pisou fundo imediatamente, e o mestiço, que até então estava tranquilo, tornou-se mais alerta. Passaram por uma estrada com outro caminho elevado acima. Ele logo percebeu que, pela altura do veículo, seria difícil atravessar por ali.

    Rapidamente, saltou para o caminho superior, correu por ele e voltou a saltar, caindo novamente sobre o carro.

    — Aconteceu algo, Izumi? — perguntou a mestiça, ainda a olhar.

    — Não imaginei que poderia ser mais rápido — opinou Dam, empolgado, e observou a situação com curiosidade.

    — Senhorita Ui — disse o ruivo, com tom educado, mas sério. — Por favor, evite fazer esse tipo de comentário.

    Max, que estava ao lado, ficou surpreso ao perceber o quanto Nick estava assustado e como seu rosto estava molhado de suor.

    — Por quê? — indagou e inclinou a cabeça, confusa. — Mas eles são gordos, não é, Idalme?

    — Sim, são — respondeu, ao observar a cena com estranheza. — E eu não imaginei que uma pessoa podia ficar daquele jeito.

    — Idiota, é isso que acontece quando têm comida demais — comentou Dam, com naturalidade.

    A peituda lançou um olhar para ele e murmurou:

    — Idiota é você.

    Max colocou a mão no queixo e pensou, assim que observou a movimentação da cidade:

    Parecem fracos demais… é como se vivessem em paz sem saber da existência dos demônios. Mas algo com certeza está errado com esse povo.

    — No momento em que chegarmos ao castelo, por favor, evitem fazer comentários sobre tudo o que verem ou ouvirem — pediu, com um tom sério.

    — Castelo? Nick, tem algo para nos dizer sobre o que realmente é esse lugar? — perguntou o líder, desconfiado.

    — Vão entender tudo quando chegarem e conhecerem o Rei — respondeu o ruivo, sem entrar em detalhes.

    Todos ficaram em silêncio por um instante. Ui, empolgada, logo questionou:

    — O que é Rei?

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