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    Entre as árvores da floresta, Byron, Yrah e Rubi caminham por uma região tranquila. 

    A raposa vai à frente com as orelhas baixas e a cauda arrastando no chão, seguida pelos demônios a alguns passos de distância. 

    “Mal posso acreditar que faz apenas alguns dias desde que passamos aqui”, comenta Byron, nostálgico. 

    “É verdade. Parece que faz tanto tempo”, pontua Rubi.  

    “Já poderíamos ter voltado se fôssemos voando”, diz o demônio.

    “Provavelmente, mas a floresta está mais calma agora. Podemos ir tranquilos. E não é como se tivéssemos coisas importantes para fazer por agora”, retruca a succubus. 

    “Se prefere ver as coisas assim, não há objeções da minha parte”, diz Byron.

    E, de qualquer forma, é bom dar um tempinho pro Brok e a tribo dele se organizarem sem preocupações, pensa Rubi. 

    “Yrah, já estamos quase saindo da terra das garras-brancas, não é?”

    “É… quase lá…”, responde a raposa, com a voz arrastada e sem ânimo algum.  

    A diaba repara no semblante cabisbaixo que a pequena criatura passa. Será que está sendo uma viagem bem cansativa para Yrah?, ela se pergunta.

    Mais adiante, a raposa suspira baixo, encarando o chão. Sua pelagem branca e macia não a protege da sensação fria causada pela magia sombria dos demônios que a seguem. 

    Vou morrer… , pensa ela, resignada, como se caminhasse rumo a um destino inevitável. Eu já fiquei ruim só com um acordo. Depois do vínculo, quando eu começar a usar a mana dela, o que vai acontecer comigo? Yrah suspira mais uma vez. Mas é melhor isso do que esperar ser devorada por aqui.  

    Alguns passos depois, ela percebe algo mudando no ambiente. A cauda e as orelhas se eriçam e Yrah para de andar. O próprio ar fica sutilmente mais leve, com a mesma sensação de sair de um local tomado por neblina para um campo aberto. 

    Não demora e os demônios veem a pausa da raposa.

    “Tudo bem aí?”, Rubi pergunta. 

    “Aconteceu algo?”, Byron indaga. 

    Antes de responder, Yrah engole seco. “Nós saímos da região das garras-brancas…”, declara ela. “Não estamos mais na zona de magia densa delas.”

    Os diabos sorriem. 

    “Ah. É só isso? Achei que fosse algo sério”, diz Rubi, aliviada.

    “Finalmente!”, comenta Byron. “Estamos a meio caminho da nossa torre.”

    A succubus caminha em direção à raposa. “É a partir daqui que você vai precisar de mana externa, não é?”, ela questiona.

    Yrah respira fundo e se volta para Rubi. Apesar da aparência fofa, as patas, a cauda e as orelhas, diferentemente de antes, agora estão firmes como uma rocha e os olhos dela carregam determinação. “É sim!”, confirma ela, obstinada.

    A súbita mudança de postura faz Rubi hesitar por um segundo. Caramba. Pelo visto, isso é bem importante para Yrah, pensa ela.

    A succubus se abaixa diante da raposa. “O que eu preciso fazer?”, ela pergunta gentilmente.

    “Bem… tem essa marquinha na minha testa. Eu vou fazer ela brilhar e você encosta nela.”

    O olhar de Rubi se abre. “Só? Fácil assim?”, ela questiona, surpresa.

    “É só isso. Depois… vai estar pronto”, confirma Yrah, mais uma vez engolindo seco ao final. “Você vai compartilhar um pouco da sua magia comigo de vez em quando. Você vai abastecer a mana, que eu não conseguir produzir sozinha. A sua magia parece forte… então não deve ter nenhum problema com isso.”

    Ela tem razão. Provavelmente, só seria um problema se ela consumisse muita mana ou se minha regeneração não fosse o suficiente, avalia a diaba, confiante. Mas se eu consigo sustentar até o Byron invocado, a Yrah não é problema.

    “Quando você estiver pronta, é só falar”, diz Rubi.

    “Tudo bem… vou começar”, avisa a raposa.

    Yrah fecha os olhos e sopra todo o ar dentro de si para fora do corpo. Ela também esvazia a mente e se concentra no ponto vermelho no centro de sua cabeça.

    A marca começa a brilhar com uma luz vermelha, fraca, tal qual uma brasa longe da fogueira.

    Rubi leva o indicador até a marca e Yrah, mesmo de olhos fechados, sabe disso. Ela sente a magia sombria se aproximando, um centímetro de cada vez, mas dessa vez é diferente. O arrepio é mais intenso, como se a marca brilhante fosse um reflexo de seu interior, exposto ao ar impregnado pela magia sombria. 

    Naqueles instantes, que para Yrah parecem durar uma eternidade, o incômodo cresce cada vez mais. Seus instintos imploram para recuar, mas a raposa se mantém imóvel. 

    O toque acontece. O brilho na testa da raposa se apaga. O vínculo é feito. E tudo para. 

    Yrah sente algo estranho e inesperado. Para ela, o clima da floresta soa mais agradável. Ela sente com mais clareza a luz do sol que toca seu corpo e a brisa leve que move a pelagem. 

    Subitamente, a maior parte do sentimento frio causado pela magia sombria desaparece. Não há mais nenhuma pressão mágica abafando seus sentidos. 

    Ein?, ela se pergunta, perplexa.

    A raposa abre os olhos e vê a diaba a encarando. 

    “Acabou?”, Rubi pergunta.

    “Parece que sim…”, responde a raposa, soando vaga.

    Logo Yrah percebe que a sensação gelada que Rubi vinha emanando durante todo esse tempo já não está mais lá. 

    Atrás da succubus, ao fundo, ela vê Byron aguardando a conclusão do vínculo.

    Eu… acho que o restante da vibração esquisita que estou sentindo é só da magia que vem dele…, ela analisa, depois volta a olhar diretamente para Rubi. Ainda sinto a presença mágica dela.  

    Focada, ela também percebe a influência mágica da diaba, se destoando do restante da magia natural da floresta. Com certeza ainda é a mesma magia sombria, mas definitivamente não é ruim como antes, ela conclui, abismada. 

    Enquanto a raposa reflete, fica completamente calada e com os olhos arregalados. 

    A testa da diaba franze. “Tem certeza de que você está bem?”, ela pergunta, com uma pontada de preocupação. “Deu tudo certo?”

    “To…”, responde Yrah, boquiaberta. “Só fiquei um pouco… tonta. Não esperei que pudesse dar tão certo.”

    “Já podemos ir então?”, Byron questiona do fundo. 

    “Uhum”, diz a raposa. 

    Apesar da resposta, Yrah fica parada, encarando Rubi fixamente. 

    Ela não parece tão bem assim, pensa a diaba, desconcertada.

    “Quer… que eu te… carregue?”, Rubi oferece. 

    “Uhum”, diz a raposa. 

     A succubus pega a raposa com as duas mãos e a abraça contra o peito como uma pelúcia. 

    Prontos e preparados, os três voltam à sua travessia pela floresta. 

    Yrah, ainda incrédula com o resultado, sente pela primeira vez o calor dos braços de Rubi. 

    Pensei que teria que me separar deles na primeira oportunidade que tivesse, mas, talvez, não precise ser assim, divaga ela. Já que eles ainda vão ficar nessa floresta por um tempo, não vejo nenhum motivo para sair do lado deles.

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