Capítulo 125 - Primeiro Contato
Nesse fim de manhã, o focinho negro segue a trilha por entre as árvores finas como agulhas, mas possuindo diversas flores em suas vinhas esbranquiçadas. Ao aproximar-se dessa árvore, cuidadosamente o cervo bípede apanha algumas para colocá-las em seu cesto trançado.
“Obrigado por me dar suas flores hoje, Melly. Vou usá-las para decorar o Santuário de novo…” 一 A voz mansa e jovial combina com o pequeno sorriso em seu crânio alongado.
Após coletar as flores, ele ajeita a sacola no ombro e volta a caminhar rumo a construção no topo do monte límpido adiante. As patas cascudas sobem com uma facilidade tremenda conforme as roupas curtas balançam ao ritmo da breve corrida.
“Depois daqui é melhor eu ir ver o senhor Ozef… A Árvore-Matrona dele estava mostrando alguns sinais estranhos.” 一 Já na porta do santuário, o Feral arrasta a porta de madeira para o lado e caminha pelo túnel em direção ao centro.
O aroma das águas dessa fonte em específico faz as orelhas do cervo balançarem de relaxamento antes de caírem num instante. O breu parcial dessa passagem fica para trás e, adiante, alguém de orelhas pontudas e… cabelos escuros o observa com olhos dourados.
A pupila castanha do animal quase desaparece. Noutro instante, ele se vira enquanto solta o cesto e as pernas se movem no ritmo desenfreado do seu coração.
一 E-Espera! Eu sou um Viajante! Olha a minha Licença da Casa Thinkanin! 一 Indo em direção ao Feral, Raisel tenta acalmá-lo e se explicar.
一 N-Não se aproxime! 一 ao tentar olhar para trás, ele se perde nos passos e tropeça no meio do túnel.
Rastejando para trás enquanto mantém os olhos no mestiço, algumas lágrimas escorrem dos seus olhos e os pulmões, descontrolados, mal conseguem captar o ar.
“Eu vou morrer! Eu vou morrer! Como essa coisa conseguiu chegar aqui!?” 一 os olhos trêmulos não se fixam em nada.
Mas, assim que a insígnia dourada resplandece sobre a semi-escuridão do ambiente, aquela luz hipnotiza a vista do cervo. O fitar se acalma e o brilho puro do dourado penetra a sua alma como o mel mais valioso em seus lábios após a amargura do café.
一 Se acalmou? 一 O tom manso seguido pelo gesto de estender a mão para ajudá-lo a se levantar, o faz paralisar pela sequência inesperada de acontecimentos.
一 Até que… sim. Obrigado 一 mas a criatura não aceita a ajuda e se levanta sozinha dando dois passos para trás 一 Mas quem é você? E por que um Viajante está sozinho no Santuário de Quíron?
一 É que… eu caí num labirinto e acabei parando aqui… 一 coçando a nuca com a palma esquerda, em momento algum ele tira os olhos do Feral à frente.
Contudo, ao escutar aquilo, um riso prende na garganta do cervo que leva a mão à cintura.
一 Que piada sem graça. Era mais fácil mentir falando que se perdeu, ou veio roubar algum tesouro 一 um suspiro percorre à frente dos lábios dele enquanto a cabeça balança em negação.
Os olhos deles eventualmente se encontram outra vez e, diferente do tom escuro da criatura, a única coisa isenta de brilho na íris do garoto é a sua pupila profunda. O semblante de Raisel não se altera em nada e isso causa um arrepio na nuca repleta de pelos.
一 Você está falando sério? 一 a testa do homem-fera ergue para cima.
一 Por que eu mentiria? Eu realmente não sei como acabei aqui… Eu apaguei uma tocha e simplesmente apareci 一 os ombros gesticulam enquanto as palmas balançam por um momento.
“O Labirinto de Telmanir, conhecido por ser a última provação para alguém se tornar um herói, foi facilmente achado e confundido com uma masmorra qualquer? Mas… como ele entrou lá? Seria necessário ter feitos grandiosos ou ser predestinado…” 一 caminhando até a cesta de flores no chão, ele a segura novamente 一 “É melhor pensar nisso depois. Tenho que concluir minhas tarefas.”
一 Para onde você estava querendo ir antes de cair no Labirinto?
一 As Tocas, onde os Coelhos vivem.
“Ele veio de bem longe…” 一 Siga para a direita em diagonal até depois de um córrego. Você veio parar na ala sudeste e a casa Thinkanin cobre parte do norte-central, mas se estende até o nordeste que é onde vivem os Coelhos também 一 diz depositando flores com as palmas que possuem apenas três dedos com delicadeza.
一 Entendi… Valeu pelas instruções. 一 Ajeitando a espada na cintura, Raisel aperta as luvas um pouco mais.
Entretanto, alguns segundos depois do silêncio se instaurar, o cervo percebe algo.
一 Aquela energia na sua insígnia era sua? 一 diz enquanto se vira para trás.
Porém, o mestiço já havia deixado o local.
“Ele não fez nenhum barulho… Que assustador.” 一 gesticula com os ombros e volta ao seus afazeres 一 “Vou reportar isso para o senhor Ozef também.”
…
Em alta velocidade pelo lado de fora, Raisel salta calculadamente em arcos fechados por cima das árvores. Essas não são tão grossas quanto as da outra região e, por isso, é necessário tomar mais cuidado em certos pontos ao aterrissar.
“Então aquilo era um Feral. Era muito parecido com um cervo… Eu vim parar na ala sudeste então? Não faço ideia de qual Casa governa essa área. É melhor eu acelerar o ritmo…” 一 ao invés de pousar nos galhos, ele usa alguns Rascunhos quadrados abaixo das solas como plataforma para pisar no céu.
Durante as impulsões, a geografia de uma cidade aparece de longe. Um palácio com enormes e grossos pilares de pedra, mas com telhados de ouro arredondados na base e pontiagudos no topo. Dessa vez não há flores, mas diversas árvores dos mais variados tipos, desde as pequenas até as enormes ocupando o seu devido espaço.
“Legal… Por estar numa área mais alta, consigo ver bem.” 一 Desacelerando um pouco, os olhos deles percebem alguém numa das janelas, mas muito longe.
Por isso, ele instantaneamente volta à velocidade anterior ao desaparecer como vulto.
Da janela do palácio, o elmo com malha ao redor da cabeça e do pescoço como um cachecol, deixa apenas as orelhas encorpadas e grandes para fora conforme a cabeleira rosada escorre por baixo da proteção. As vestimentas esfarrapadas no que, um dia, foi um vestido nobre, são agarradas pelos punhos.
“Tinha… alguém ali?” 一 No alto da torre, a garota permanece a visualizar o horizonte.

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