Capítulo 124 - Tochas
Em queda livre, Raisel saca o sabre negro e o empunha de maneira reversa usando as duas mãos. Ao erguer os cotovelos para cima, o corpo toma impulso no movimento para frente e a lâmina negra crava em atrito contra a pedreira oculta. A qualidade do equipamento e a sua afiação são um empecilho para frear de uma só vez e a antiguidade desse lugar o torna ainda mais frágil.
“Paaara looogo!” 一 Concentrando uma pequena quantidade de energia nos pés, ele os utiliza junto da espada para ir se pressionando contra a parede antes de chegar ao chão.
No breu do subsolo após alguns instantes, ele finalmente para. O peito infla e murcha repetidas vezes ao som da sua respiração.
“Nunca mais vou usar força bruta aqui… Que terreno mais traiçoeiro.” 一 o rapaz tira o foco da parede e olha para baixo.
As sobrancelhas sobem ao notar a incandescência de uma chama sobre o piso de mármore repleto de musgo e poroso. Usando um impulso das pernas, ele retira a arma da parede e despenca para aterrissar lá embaixo.
As sapatilhas negras batem contra o chão sextavado e ele se depara com uma ramificação de quatro corredores: direita, esquerda, frente e atrás, com cada caminho possuindo uma sequência de tochas para iluminá-lo.
“Esse fogo não é natural. Julgando pela aparência desse lugar, a pessoa que acendeu as tochas tinha um controle tão absurdo sobre Hitze que a chama do seu Gewissen continuava a queimar mesmo sem ter um combustível para sustentá-la…” 一 indo em direção a uma dessas pequenas pilastras que servem de base para o fogo, Raisel estica a palma para perto 一 “E não emite calor. Apenas luz… Onde eu vim parar?”
Um suor desliza pela bochecha ao reparar nas pegadas de ferradura cravadas sobre o chão do caminho da frente. Os lábios entreabertos emitem um suspiro e, sem hesitar, ele segue a mesma direção dessas marcas enquanto mantém a espada na bainha, mas sempre pronta para ser sacada.
…
Algum tempo se passa, o corredor não muda e o caminho continua sempre indo em frente. Mas algo está diferente, pois as marcas no chão desaparecem adiante.
“Uma armadilha? Não, se fosse ainda teria as pegadas nos locais certos para onde pisar. Ele fez algo aqui, mas o que?” 一 Observando os flancos, há apenas uma tocha do lado direito. Contudo, com o cintilar da brasa, ele percebe uma coisa singular. 一 “Tem algo atrás do fogo dessa vez.”
Em poucos passos para se aproximar do suporte do fogo, o que Raisel notou se revela com uma marca de lâmina, um risco retilíneo e com a mesma profundidade do início ao fim sem nenhuma oscilação.
“A pessoa que estava montada no cavalo sacou sua arma aqui. Não sei que tipo de lâmina era só pelo golpe, mas o controle e o refino eu consigo perceber. Definitivamente era um mestre.” 一 recuando alguns passos para trás, o garoto inclina o corpo para frente e põe a palma direita sobre o cabo.
O rápido sacar do sabre acompanha um golpe horizontal veloz usando apenas um dos braços, arrastando-o de um lado para o outro. Ao mirar exatamente no local marcado na parede, a chama que ilumina essa parte se apaga com o vácuo do movimento e o breu se instaura por um único segundo.
No instante seguinte, ela se acende novamente.
Os ombros de Raisel arrepiam perante a surpresa, onde a espada em prontidão rapidamente se estabelece próxima do corpo em uma postura de luta ao mantê-la verticalizada à frente do peitoral.
Deslizando os olhos repetidas vezes para os lados de forma rápida, não havia dúvidas.
“Estou em outro lugar… Como? Não senti nenhuma energia interagindo comigo, ou muito menos um barulho indicando algum sistema…” 一 um mau pressentimento corre pelo seu corpo.
O lugar, repleto de samambaias e arbustos, parece um bosque com poucas árvores enquanto tem uma estátua mais adiante. Diante do monumento, há uma fonte cujas águas correntes não param de jorrar.
Olhando melhor a estátua, é de uma criatura com pernas de cavalo e torso de homem que empunha uma lança. Com as patas de frente alavancadas para o céu, ele está gritando fervorosamente enquanto mantém a arma para o alto.
“Que tipo de monstro é esse? Todo esse templo é de um culto?” 一 apesar de desconfiado, ele guarda a espada de volta na bainha.
A nuca arrepia ao sentir um olhar sobre si.
Virando lentamente o rosto ao som dos passos ecoantes, uma entrada enorme iluminada pela luz do dia está bloqueada por um cervo bípede com uma cesta de flores nas mãos que possuem três dedos.

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