Capítulo 94 - A Chama Que Consome
Naomi tinha seus contornos distorcidos pelo calor de sua forma ígnea. Seus olhos incandescentes vigiavam Sachiko com a mesma atenção que o pai dançarino ensinara: “Antes do movimento, compreenda.”
A matriarca estava de pé. As chamas douradas que envolviam seus antebraços crepitavam como um coração. Os cinquenta anos de experiência escancaravam o que nenhum treino produziria deliberadamente: a paciência de uma predadora. Avanços não existiam, cada segundo de inércia era um convite para que a estrangeira gastasse energia primeiro.
A arena inteira aguardava…
Naomi moveu-se.
A forma da garça avançou sem antecipação, a trajetória repentina apontou uma perfuração com a mão.
Sachiko agarrou o ataque, segurando-o firmemente. As chamas rivais que tocavam suas mãos eram consumidas em instantes, sugadas para dentro da pele como um fluido. Os antebraços da mulher ganhavam uma camada mais quente, a satisfação aparecia. — Sim — disse a si — é exatamente isso!
Nas arquibancadas, murmúrios.
Katsuro permanecia imóvel nos assentos superiores. As chamas douradas crescendo nos braços da mãe eram um fenômeno que ele presenciara, mas jamais em tamanha abundância. Em vinte e cinco anos de vida ao lado daquela mulher, aquilo era uma declaração significativa de que ela sempre escondeu seu potencial.
Ao lado, a ruiva indiscreta vibrava com a batalha. — Ela está absorvendo a aura eterna! Katsuro, sua mãe está realizando algo memorável! Não sente orgulho?
O rosto sério do militar, embora estático, claramente negava…
Na parede lateral da arquibancada e com Hiromi no colo, Masaru estudava a mesma cena com uma preocupação que ia além de seu ar estratégico.
A intimidade com a mãe existia, mas era fria.
Para os filhos homens, Sachiko Miyazaki preferia a avaliação do que a criação; nunca fora mulher de gestos calorosos ou palavras de encorajamento. Os herdeiros existiam como instrumentos, e quando os instrumentos não serviam ao propósito, como dois filhos homens numa família que exigia sucessão matriarcal, eram mantidos à distância funcional, nem descartados, nem considerados.
Masaru e Katsuro cresceram no intermediário onde eram reconhecidos mas jamais vistos de verdade, tratados com competência sem afeto. Porém, ambos reagiam de maneiras opostas: Masaru construía intimidade mínima a quem oferecia conversa, já Katsuro ignorava a necessidade de qualquer contato.
“Ela vai se fortalecer indefinidamente,” pensou Masaru, analisando a força potencial da mãe. “Espero que Naomi tenha planos…”
No centro do piso rachado, Naomi percebeu no segundo ataque: quando recuou e desferiu bolas de fogo em socos no ar, viu Sachiko canalizando cada labareda com naturalidade.
A lógica da situação ficou óbvia.
“Distância não é a melhor opção”, Naomi encontrou uma conclusão, simples na teoria, perigosa na prática:
Sachiko certamente construiu décadas de domínio do espaço, ou seja, não havia diferença na luta com ou sem proximidade. Entretanto, a distância facilitava a absorção dela, descartando principalmente a necessidade de bloqueios.
Naquele momento, as chamas eternas por si só nunca resolveriam o problema.
Naomi entendeu que era preciso contato físico.
A garça deu lugar à pantera e atacou. O resultado da mudança de estratégia foi imediato. A fera flamejante cortou a distância em alta velocidade e aplicou o punho cerrado no antebraço levantado em defesa da adversária.
A força cinética ecoou um estrondo real.
Sachiko deslizou para trás e estabilizou-se, uma surpresa pequena mas legítima tomou seu rosto habitualmente impassível. — Então sua força não se resume à aura.
Ela reajustou a postura e mostrou o porquê do título que recebeu.
Socos horizontais e chutes laterais executados a partir de bases firmes demonstravam uma economia de movimento que maximizava o impacto sem desperdício de amplitude. Os golpes concentrados e velozes irrompiam chamas douradas, ofuscando a visão da oponente e dificultando os bloqueios e esquivas.
O conhecimento marcial que Sachiko exibia vinha além da arrogância de quem nunca perdeu, também trazia a memória de quem sobreviveu à derrota vezes suficientes para a total noção dos próprios limites.
O revestimento das chamas eternas roubadas permitiam o contato dos ataques, sem ele, a veterana apenas se queimaria com a proximidade.
Três golpes foram defendidos. O quarto acertou um chute veloz no ombro.
A explosão de ouro no ponto de contato foi densa, carregada das flamas canalizadas.
A dor foi verdadeira…
Nas arquibancadas, vozes:
— Viram!? A estrangeira foi ferida! — alertou um velho.
Uma mulher rebateu: — Descreio, eternos deveriam ser imunes ao próprio elemento.
— Ela converteu a chama eterna em algo próprio — interrompeu um homem culto — é a única alternativa.
O comentário circulou rapidamente pelos assentos. Alguns se viram diante de um acontecimento histórico em andamento.
Um dos anciões da família se inclinou para o vizinho: — Nunca documentamos isso. Retrair aura eterna e reutilizá-la contra a portadora original… Isso era impensável…
Atacando a rival, Sachiko relembrava do quanto foi questionada sobre seu verdadeiro poder. Como suas batalhas muitas vezes acabavam antes do começo, vários suspeitavam se sua soberania realmente estava acima das demais, ou se existia alguma mentira por trás de todos aqueles anos de mandato.
Todos os murmúrios e teorias que escutara foram ignorados com tranquilidade. Ela não precisava de plateia para que soubesse o que estava fazendo.
Com o passar dos golpes, algo internamente adormecido há anos reacendeu na matriarca:
A empolgação por combate.
Sob ataques dourados, Naomi cobria ângulos múltiplos com suas transmutações animais em transições contínuas enquanto procurava brechas.
O tigre era o mais perigoso em proximidade para contra-ataques. Garras miravam as costelas, Sachiko defendia a maioria, mas as que passavam deixavam marcas no kimono cerimonial e no orgulho que residia por baixo.
Entre trocas rápidas, Sachiko avaliava: — A forma leve e rápida como luta… de fato não vem de Asahi.
— Vem de quem me ensinou que a força não depende de brutalidade — rebateu Naomi. O soco bloqueado que acompanhou a resposta empurrou a oponente para trás.
A descontração perigosa apareceu no riso da matriarca, que confortavelmente sorria quando seus planos funcionavam. Suas chamas nos braços se propagaram no torso como uma armadura flamejante, o dourado que a caracterizava adquiriu veios rubros, como ouro fundido em sangue.
A aura eterna absorvida integrou-se ao poder próprio de Sachiko, processo visível para os que acompanhavam atenciosamente os ataques. Os movimentos marciais aceleraram, os golpes se fortaleceram, e as rajadas de fogo intensificaram nos choques.
Naomi perdeu espaço de contra-ataque. Cada bloqueio ocasionava explosões menores que rachavam o piso de mármore e a parede escura ao redor, acumulando danos na arena.
Sachiko uniu poder o bastante para que superasse a eternidade da meiliana, desequilibrando-a de pouco em pouco.
A pantera usada para breve fuga foi interceptada com eficácia. A matriarca havia observado as transmutações animais desde o início dos treinamentos, meses atrás. O que Naomi apresentava em combate real não era fundamentalmente diferente do que demonstrava nos dojos familiares.
— Ensinaste bem sobre você — agradeceu Sachiko, o prazer na voz era genuíno e irônico ao mesmo tempo. — Cada forma sua tem uma assinatura única. A garça sempre testa antes de comprometer, o tigre nunca recua no meio de um ataque, a pantera muda de direção uma vez por sequência, e a serpente prefere a precisão ao invés da força. Previsível, para quem assistiu o suficiente. Porém, ainda falta uma forma… Mostre-me-a! — A força do chute reto quebrou a guarda da jovem, derrubando-a metros pelo chão de mármore rachado.
Caída, a chama original crepitava com instabilidade.
Sachiko notou a fraqueza, e sem avisos, bateu o pé no chão com imponência. As chamas que residiam nos braços explodiram para fora em todas as direções, não como ataque dirigido a Naomi, mas como onda expansiva que retornou a incandescência ao piso.
Naomi mantinha-se deitada, seu rosto ígneo escondia as dores causadas pelos golpes constantes. Ao menos, o chão de brasas não a machucava, pois no sentido das auras eternas, fogo não queimava fogo.
Entre a vibrância das chamas, Sachiko declarava enquanto se aproximava de punhos prontos e passos leves que liberavam ondas expansivas de calor: — Uma guerreira usa o campo de batalha como extensão do próprio corpo, e pelo visto, construir vantagem não és teu forte dado que não reconheces-te minha soberania. Está lutando em minha casa, bem onde controlo cada centímetro.
A aura eterna de Naomi, absorvida ao longo de todo o duelo, reagia ao calor extremo do piso da mesma forma que sempre reagia a estímulos externos — ela era eterna, o fogo em pessoa, não se apagaria ou sequer perderia sua verdadeira essência, e dentro do corpo de Sachiko, respondia de maneiras imprevistas.
As chamas douradas ganharam um tremor pequeno e breve. Sachiko parou e percebeu, mas no lugar do medo, alegrou-se novamente. O sorriso de caçadora satisfeita com a presa caída estava fora de questão, aquele sentimento remetia a animação de um magnata dobrando a aposta justamente quando o risco ficasse evidente.
A insanidade mascarava a perda de autocontrole.
— Excelente! — exclamou, com a excitação contradizendo o tremor do próprio poder. — Você tem vida própria dentro de mim? Que coisa magnífica! — Suas chamas explodiram do corpo. O dourado e o escarlate se fundiram e produziam uma cor sem referência a nomes, lembrando vislumbres de incêndio no pôr do sol. Pelos braços, tronco e rosto da matriarca, a chama estranha que os envolvia vibrava de maneira incontrolável.
Do piso incandescente rachado em padrões que lembravam fissuras vulcânicas sob o fogaréu, Naomi lentamente levantou-se em guarda, focada na oponente semi-transformada. “Ela absorveu energia demais, e ainda não chegou no limite”, seus olhos calorosos mostravam lucidez perante o grave problema, “as coisas podem piorar se ela continuar se fortalecendo…”
As duas formas de fogo se encaravam através do calor que distorcia o ar entre elas.
Vagarosamente, Sachiko avançava.
A luta recomeçou.
As séries de golpes que a matriarca desferia empurravam a estrangeira, as absorções que executava alimentava o próprio corpo.
Com o tempo, Sachiko se tornava fogo, enfraquecendo Naomi e superando-a em experiência de combate.
A garça tentou um contra-ataque rasteiro, leve, mas lento. Sachiko a antecipou com um bloqueio baixo que converteu o impulso do ataque em alavanca. A meiliana foi bruscamente jogada contra as pedras escuras da parede.
— Acabou — disse um homem de meia-idade, sem prazer na declaração.
— Durou mais do que imaginei — respondeu uma mulher ao lado — nenhuma outra desafiante chegou neste ponto, porém, nunca vi a Matriarca tão poderosa.
Katsuro mal percebeu-se inclinado milímetros à frente. Sua atenção não estava nos golpes, estava no semblante ígneo de Naomi.
A ruiva ao lado percebeu. — Para alguém que está perdendo assim, ela parece concentrada até demais.
“Ela está pensando,” compreendeu Katsuro, uma percepção que o incomodava.
Com Hiromi no colo, Masaru analisava o combate.
“Está observando algo.”
A certeza era reconhecimento. Dois anos morando juntos ensinaram padrões.
Masaru sabia quando Naomi estava concentrada, estudando e aprendendo, procurando a peça que faltava em um problema que a mantinha acordada horas antes; já o rosto que via ali, mesmo envolto por chamas e golpes, insinuava que estava três passos à frente de onde chegaria.
“O que você viu, querida?”

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