Índice de Capítulo

    Sem pressa, a entidade adentrou o quarto com toques espaçados de patas leves e uma postura que não correspondia à anatomia humana. Provavelmente um ser quadrúpede existia naquele véu. Quando parou diante da parede do quarto onde Naomi pendurou quadros, broches e medalhas, o invasor pareceu admirado.

    Um braço fino e longo surgiu da névoa, mantendo sua forma gasosa. Os dedos fumaçados passaram pela pintura do trio da família em um toque leve e estudioso.

    — Que linda união — uma voz masculina e velha filtrava-se pelo sotaque arranhado de consoantes arrastadas. — Sinto uma energia ígnea abundante neste lugar, certamente algo que nunca senti antes… Creio que de fato me guiaram ao lugar certo.

    Naomi impôs-se à frente de Hiromi. — O que faz aqui?

    A figura devolveu o olhar com dois pontos de luz fria e esbranquiçada fixados onde estaria o rosto. — Está tudo bem, Marechala — enalteceu o título — não vim com intenções violentas. Vim pelo colar.

    De espasmo, Naomi levou a mão ao pescoço; o segredo de uma parte de si escondia-se ali. Tomada a decisão, a guarda marcial foi preparada. 

    — Ora, ora… — a cordialidade ofensiva da entidade desafiava ao mesmo tempo que alertava com descontração. — Vamos evitar decisões precipitadas. Se valoriza a vida daqueles que a cercam, mantenha-se sem manifestar suas chamas. Uma única brasa bastaria para transformar esta noite em uma lembrança terrível. Mas entenda, não é por causa de minha vontade. Certas reações escapam da minha realidade, e seria lamentável ver a grande Marechala Miyazaki descobrir isso da pior maneira possível… Estou aqui apenas para negociar.

    Embora afoita, Hiromi procurou abrigo atrás da mãe. A proposta que escutou a incomodou. Apesar dos treinos de calma diante do perigo, aquela era a primeira vez que sentia algo próximo do medo. O corpo da mãe deixava nítida a gravidade da situação; os músculos estavam firmes, alertas ao menor sinal.

    Sustentando o foco na entidade, Naomi envolveu a filha com um braço e transmitiu no gesto uma ordem: “fique quieta, aguarde”.

    A entidade iniciou uma aproximação vagarosa. Naomi e Hiromi seguramente mantinham distância com passos laterais.

    — Devo confessar que Medved está caindo — declarava friamente o invasor — dois grupos discutem entre si enquanto o país se fragmenta, cada um com versões futuristas que ignoram a realidade mais simples… Os triviais não possuem força para decidirem como o mundo deve ser, e nunca terão. O poder pertence a quem nasce com ele ou o conquista de forma inegável.

    Naomi notou uma forte respiração por trás, e discretamente cobriu o nariz e a boca da filha com a palma da mão. Hiromi assustou-se, mas entendeu: a névoa que envolvia a entidade não era apenas visual, era respirável, e algo respirável vindo daquela fonte certamente não seria saudável.

    — Hmm… — A figura viu a precaução da mãe e deu as costas para que retornasse à luz da varanda. — Os verdadeiros poderosos de Medved estão divididos entre servir a uma revolução que os usa como ferramentas e morrer tentando restaurar uma coroa que também os usava. Nenhuma das duas opções honra o que somos, áuricos de elite. Imagino que você mesma compreende isso, Marechala. Quantas vezes o governo ao qual dedica sua força utilizou sua força para objetivos que não eram teus?

    Naomi não respondia, e a figura parecia acostumada com a omissão. Quando a névoa parou de volta à entrada da varanda, voltou os olhos luminosos para a líder. 

    — Os áuricos são os únicos seres que comprovadamente possuem capacidade de transformar o mundo. Um áurico que domina seu poder pode defender uma cidade que mil soldados comuns não conseguiriam. A questão não é se os áuricos deveriam governar, a questão é reconhecer que eles já governam em todo lugar onde existem. A única diferença entre o que proponho e o que existe agora é a honestidade sobre quem toma as decisões reais.

    — De quê isso ao colar importa?

    Uma inclinação em gesto de interesse surgiu onde seria o rosto da névoa. — Poder máximo requer instrumentos máximos. O que tens não é apenas um artefato, é poder condensado em sua forma mais pura — o braço gasoso estendeu-se. — Entregue-o e deixo seu quartel intacto. É simples na prática.

    Os segundos de silêncio foram densos.

    — Não.

    Na memória de quem testemunhou, o que aconteceu após a negação teve as camadas desordenadas pelo tempo.

    A porta se abriu.

    Masaru entrou com um lampião na mão, a luz amarela e familiar da chama comum dentro do vidro logo mostrou-se completamente perigosa naquele contexto. A boca que formulava perguntas parou bem quando os olhos visualizaram o que o quarto ocultava.

    A reação da entidade foi anterior a qualquer reflexo.

    Do interior da névoa, uma afiada estaca de gelo cerúleo do comprimento de um homem adulto foi lançada numa velocidade distante da dos presentes. A trajetória era baixa e direta, sem curva. Masaru estava a sete metros, e o gelo cruzou metade do caminho antes que qualquer músculo de seu corpo desse respostas. O torso do homem estava em perigo.

    Contudo, Naomi acompanhava a travessia nítidamente, dom verdadeiro que sua aura permitia. Ela jogou Hiromi sobre a cama em uma queda sem perigos, e com as duas mãos unidas em punhos, disparou uma torrente de fogo no ponto futuro da estaca em movimento.

    O fogaréu encontrou o gelo… mas não o cedeu.

    Chamas envolviam a imagem difusa e escura da estaca sob a luz ígnea. A massa calorosa retardava o avanço, mas jamais o interromperia. A trajetória permanecia intacta, reduzida apenas por frações que não alterariam o desfecho. A velocidade era absurda, e aquele gelo de cores fortes se demonstrava incompatível às técnicas comuns.

    Tudo parecia fruto de uma aura eterna desconhecida por Naomi, uma força que, independente do volume das chamas, exigiria um detalhe extra para que fosse superada:

    Tempo, justamente o recurso mais ausente naquele espaço estreito entre estaca e carne.

    Masaru cruzou o braço livre diante do peito por instinto.

    Não seria o suficiente.

    Naomi transformou-se.

    O fogo explodiu do corpo em um ciclo completo, a forma humana cedeu à ígnea, cruzou o metro e meio de distância restante em fração de segundo, e materializou-se diante de Masaru no instante em que a ponta da estaca chegou.

    O impacto atravessou entre o peito e o estômago da forma de fogo, a pressão física foi além das expectativas. A inércia da estaca foi absorvida pelas chamas dobradas pela penetração.

    Os familiares ficaram em choque.

    De pé, Naomi tremeu com a violência do impacto, suas labaredas ao redor do ponto de entrada se dispersavam e reagrupavam num ciclo rápido que denunciava esforço.

    O lampião caiu da mão de Masaru e estilhaçou vidro no piso. A luz comum que residia na vela apagou-se junto às chamas de Naomi, que enfraquecida e ensanguentada, ajoelhou-se.

    — Mãe! — O desespero agudo de Hiromi veio da cama. Ela estava de joelhos, com uma mão apoiada no colchão e outro braço estendido em vão. Os olhos marejados arregalaram-se sobre a cena que o quarto apresentava.

    A névoa viu no ocorrido uma consequência lógica e previsível, não tragédia, e na mesma paciência de sempre, caminhou adiante. Os dedos nebulosos alcançaram o pescoço da mulher e encontraram o colar debaixo da farda, o topázio que existia desde Meilí e sobrevivera a tudo foi arrancado com um puxão.

    A entidade manipulava o artefato entre as falanges. O topázio refletia a luz lunar distante, como se reconhecesse um distanciamento e não deveria resistir, e depois, foi guardada pelo véu nebuloso.

    — Obrigado, Marechala. Servirá bem ao propósito — o agradecimento foi uma combinação perfeita do respeito ao artefato e desprezo a perda. 

    O corpo ferido caiu para o lado. Masaru segurou-o nos braços antes da queda.

    Os óculos ocultaram as reações dos olhos, mas o cenho curvado e a boca trêmula denunciaram um sentimento raramente exposto naquele homem. — Naomi… querida… — A súplica foi entonada de maneira que a esposa jamais ouvira, a voz compreendia o que acontecia e, ao mesmo tempo, rejeitava a realidade. — Naomi, olha pra mim.

    Hiromi na cama tinha o rosto partido entre o choro e o choque que a segurava.

    — Acalme-se, pequena — disse a voz velha e arranhada. À primeira vista, parecia friamente endereçada à garota, mas no fundo, parecia falar consigo mesma. — Vingança exige paciência, e quem perde a cabeça na hora errada perde também a oportunidade que o futuro reservará.

    — Acalme-se, pequena — disse a voz velha e arranhada. As palavras alcançaram a jovem Miyazaki, mas o direcionamento soou estranho. Havia um peso íntimo naquele conselho, como se a entidade conversasse com algo dentro de si própria. — Vingança exige paciência, e quem perde a cabeça na hora errada perde também a oportunidade que o futuro reservará.

    Independente do verdadeiro destinatário, a raiva que tomou Hiromi foi única, uma ira nascida no instante em que o abstrato tornou-se concreto. A distância entre imaginar a crueldade do mundo e senti-la atravessando a própria carne caiu pra zero de uma vez só. As mãos subiram à cabeça, os dedos agarraram os cabelos, tudo na garota gritava para que se levantasse e perseguisse aquela forma nebulosa. A vontade era queimá-la, destruí-la, fazer o que o ódio dizia necessário… mas nada a movia.

    — Hi… Hiromi… — o chamado arrancado às últimas reservas de fôlego surgiu do piso. — Não reaja, querida… — clamou Naomi, doendo-se além dos próprios ferimentos; seu pedido revelava o quão perto a filha estava do descontrole. — Por favor… fique… fique aqui…

    Hiromi certamente obedeceria e desceria da cama, mas embora sua mente escutasse, seu corpo trêmulo seguia tomado pelo trauma.

    Os dois pontos brilhantes acompanhavam o desespero da jovem com um interesse mórbido, era visível que eles reconheciam aqueles sentimentos negativos e, mais do que ninguém, sabiam exatamente qual destino os aguardava. — Quando estiver pronta, saberá onde nos encontrar…

    A névoa saiu flutuando rapidamente pela varanda.

    Os militares do perímetro, com a visão parcialmente recuperada, viram o rastro nebuloso cruzando o céu escuro em direção ao norte, veloz e silencioso.

    A entidade fundiu-se à névoa maior do lado de fora, e desapareceu dentro dela com as palavras finais saindo de longe, parcialmente dissolvidas pelo ar: — Vamos, irmãos! Belovodia nos espera!

    A grande névoa da floresta dissipou-se inteira, deixando o quartel no silêncio do fim de coisas que não deveriam ter terminado.


    No quarto, Masaru amparava Naomi, repetindo o nome dela com a entonação abatida.

    Hiromi seguia de joelhos na cama. Lágrimas caíam silenciosas e profundas. O grito preso no peito apertava a garganta e franzia o rosto.

    Naomi, com um semblante de esperança, não tirava os olhos da filha. — Hiromi… cuide da sua família…

    A jovem olhou de volta, o trauma ainda abalava seu rosto.

    — Seja forte… e proteja o que te importa… não o que te mandam proteger.

    — Mãe — a palavra saiu partida.

    Naomi deu um sorriso, o mesmo que Hiromi viu mil vezes no jardim da mansão após os treinos da manhã, quando a mãe avaliava um movimento bem executado e aprovava sem declarações, uma alegria contida que valia genuinamente. — Sei que sabe — disse, apagando a voz — tudo que te ensinei… você já sabe. Tenho muito orgulho da mulher que será… — Então, seus olhos se fecharam…

    A visão de Hiromi perante a mãe nos braços do pai passou a se dissolver lentamente em escuridão, as bordas de suas retinas se queimaram como papel. O escuro que tomou sua visão não era o escuro do quarto, era o escuro de um dojo, com duas tochas nas paredes laterais, cheiro de madeira aquecida e o piso de madeira polida frio sob os joelhos.

    Alguém a envolvia com os braços.

    Hiromi Miyazaki, com dezoito anos, no centro do Salão de Fogo da Academia Shihai de Asahi, via-se dentro de um abraço. Seu corpo silenciosamente chorava pelo retorno ao presente e pelo passado que nunca deixou.

    Akemi Aburaya não dizia nada, apenas mantinha os braços firmes e envoltos na garota. Com toda a história contada até o ponto final, ele sabia exatamente o que Hiromi precisava naquele momento de tanta dor e confusão:

    Uma companhia que não a permitisse ser corrompida pelas cicatrizes de um passado desilusório, e que também, lembrasse-a dia após dia da pessoa que Naomi desejava que fosse…

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