Capítulo 127 - Agraciados
“Aquele cara é um Viajante como eu, mas não tem nenhum laço de filiação… É um novato? Como um novato emana tanta intenção assassina?” 一 Esgueirando-se por cima de um dos galhos, o mestiço com pedaço do abdômen dilacerado está concentrando toda sua energia para estancar o sangramento.
Logo à frente dele, o monstro gradualmente desce para o solo ao ficar na mesma altura de Raisel. O garoto, por outro lado, mantém uma postura com o sabre pronto para ser sacado a qualquer momento. Seus olhos afiados pesam sobre o ambiente, trazendo consigo a atenção máxima do Tatzel.
“Não vai ser fácil lutar enquanto me preocupo em deixar ele inteiro… Monstros com tanta consciência são capazes de manifestar Gewissen. Ele tem certa inteligência. Não é irracional como qualquer besta…” 一 Um passo à frente causa um rugido por parte da criatura que tenta intimidá-lo.
“Mais ou menos uns trinta metros. Ele tem cauda, garras e uma cabeça boa pra mordidas. Preciso de mais informações sobre como ele luta…” 一 conforme ele retira a lâmina da bainha, o som estridente como uma risada ecoa lentamente para os arredores.
A fera rasteja pelo chão avançando diretamente até ele. Sua velocidade e ocultação por entre o gramado alto da planície fazem Raisel perdê-la de vista por um instante. Os olhos dourados deslizam para a esquerda, notando o brilho carmesim vindo em sua direção.
Rapidamente a lâmina traceja sobre o ar duas vezes, repelindo para os lados as projeções cortantes emanadas. Nas garras do Tatzel, o rastro de sua energia logo envolve as suas patas enquanto ele volta a circular a sua presa.
Impulsionando-se para ganhar distância do monstro, novas emissões são jogadas rumo ao rapaz. Uma, duas, três, quatro vezes a lâmina deflete os ataques à longa distância e o espaço entre eles se encurta novamente.
As sobrancelhas de Raisel se erguem e a espada passa a ser empunhada com apenas uma das mãos. O Tatzel ascende aos céus ao se apoiar com a sua cauda e desce com ambas as garras em decadência para esquartejá-lo.
As presas da fera batem contra o solo repartindo a imagem do rapaz enquanto um vácuo causado pela potência estremece os arredores. Mas, ao invés de escorrer sangue daquele corpo, ele apenas se desfaz como uma neblina dourada. Nesse instante, ela sente a friagem implacável do aço negro repartindo as suas escamas. O sangue verde jorra pela cauda repartida conforme o torso do Tatzel tropeça para frente.
一 CUIDADO! 一 O grito do mestiço sobre os galhos arregalaram os olhos de Raisel.
A espada levanta para cima e se prepara para decapitá-lo de uma só vez, porém, a cauda decepada se torce inteiramente, ejetando as suas incontáveis escamas para os arredores como flechas.
Usando as patas, ela se afasta em saltos contínuos para se recuperar. Acima de sua cabeça, a Constelação de Lacerta surge e a região decepada volta a crescer.
No meio do nevoeiro de gramas e terra do lugar onde estava, o brilho dourado do mestiço simplesmente dissipa quaisquer dúvidas sobre a sua derrota, incluindo a cortina. Com arranhões pelo corpo, ele estala o pescoço uma vez e volta a observar a criatura mantendo uma postura relaxada.
“Uma Constelação Guardiã em uma besta. Isso explica o porquê dela conseguir usar tanto Gewissen… Devo esperar algum Glanz? Não, eu já vi o Glanz dela… É aquele feixe que cortou o céu mais cedo. Nesse caso, ela não deve ter muita energia sobrando…” 一 Apesar das suas roupas estarem danificadas e um fio de sangue escorrer por cada arranhão, o garoto põe a espada para trás e arma uma postura baixa; mantendo o ombro esquerdo à frente.
A cerca de vinte metros de distância, a fera tenta disfarçar a sua ofegância. A sua cauda comprida está crescendo sobre o brilho carmesim de sua energia, mas ainda longe de alcançar o tamanho máximo. Ela aperta o olhar sobre o menino, mas ao fazê-lo, acaba o perdendo de vista.
Em um passo mais firme sobre o solo, o Tatzel se vira enquanto ataca com ambas as garras se cruzando. O humano ágil toca a palma no chão enquanto agachado e um enorme Formel se abre sob os seus pés.
Nesse instante, o fulgor dourado atua como uma atração natural para o corpo do monstro ser fixado no lugar. Sem conseguir se mexer, os olhos deles se encontram tão próximos. A mandíbula da criatura reluz enquanto a sua boca se abre, mas em um salto direto, Raisel atravessa o crânio dela de baixo para cima. Os punhos sobre o cabo são torcidos e a lâmina é puxada para trás, repartindo a cabeça da besta ao meio.
O vácuo do corte dissipa o sangue esverdeado para os arredores em gotículas e o cadáver desaba ao chão.
Flexionando os joelhos na queda, o espadachim relaxa o braço destro em posse do sabre conforme um suspiro sai dos seus lábios.
“Essa foi por pouco. Ainda bem que ela ficou impaciente e atacou no reflexo…” 一 observando a carcaça, o restante do Gewissen do Tatzel é expulso de seu corpo como fumaça em direção aos céus.
Segurando a espada com os dois punhos, Raisel separa o restante do corpo da criatura e a arrasta no ombro até a outra cauda já descamada.
“Carne não vai faltar! Dois rabos de cobra no almoço de hoje! Ainda bem que o vovô me ensinou a caçar desde cedo. Limpar essa outra parte vai ser molezinha…” 一 A ponta da língua para fora no canto do lábio estabelece a sua feição.
Usando o fio da lâmina, ele começa o processo de limpar aquela carne ao agachar-se.
一 É… com licença? 一 Encarando Raisel com uma das sobrancelhas no alto da testa, o meio-elfo de cabelos negros está logo atrás dele.
Com a voz, os ombros do humano disfarçado saltam e sua alma quase sai do corpo… Virando o rosto para trás em busca de vê-lo de soslaio, ele solta uma risadinha sem graça.
一 E-Eu te dou um pouco se quiser…
一 Obrigado, mas não é isso… Quem é você? 一 A mão na costela está mais frouxa, mostrando que a maior parte da dilaceração já foi restaurada.
Voltando o rosto para frente, o queixo dele se abaixa e o ar é puxado fortemente pelas narinas.
一 Eu… sou um Viajante. Meu nome é Raisel… e você? 一 diz enquanto a espada trabalha no ingrediente recém-adquirido.
一 Welter da filiação Encantada. Viajante também… Você é ótimo com a espada… é um membro da filiação Armada sem laço no braço, ou… novato? 一 Sobre o bíceps direito, uma bandana azul com bordas de cobre, um símbolo de varinha e cajado à frente de um livro aberto indica a sua organização.
Somente o barulho do atrito do fio da lâmina sobre as escamas ecoa pelo ambiente. A brisa do início da tarde bagunça o cabelo dos dois.
“Deve ser mais fácil assim…” 一 Sou da filiação Armada sim, mas perdi meu laço depois de cair num buraco. Meu nome é Raisel… Você teve sorte de eu estar passando por perto, Welter 一 observando-o de soslaio, ele se levanta.
一 Isso é verdade… Devo minha vida à você, Raisel. Por isso, quero te compensar… Prefere usar os Favores ou dinheiro? 一 as sobrancelhas pesam, mas um sorriso de lábios acompanham um suspiro nasalado.
一 Tem outra coisa que eu preciso mais 一 ainda olhando para baixo, ele se vira.
O meio-elfo engole suas hesitações 一 O que?
一 Alguma coisa pra levar esse tanto de comida comigo 一 o olhar dele tem tanta determinação que acaba virando uma espécie de intenção assassina.
Mas, ao ouvi-lo, Welter congela.
“Ele é um daqueles idiotas, mas bons de brigas? Típico dos Armeiros…” 一 a palma sobre o ferimento se afasta, indo em direção à sua testa 一 Eu te empresto o meu Armazenador.
“Armazenador?” 一 a cabeça pende para a esquerda brevemente, mas acaba com as mãos na cintura e um sorriso de lábios 一 Beleza. Onde ele tá?
一 Eu o deixei na Toca dos Coelhos, Labbit. Tive que fugir desse monstro nas pressas, ou ele iria destruir a cidadezinha 一 o polegar aponta para trás de si usando o punho.
“Coelhos… Ótimo, vou conseguir dois coelhos numa cajadada só” 一 Entendi. Vamos comer um pouco, daí você fica aqui protegendo a minha carne e eu vou lá buscar o Armazenador 一 a cabeça acena positivamente.
一 Combinado! 一 um sorriso de bochecha à bochecha se abre na feição de Welter.

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