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    Em um último impulso, Raisel chega até a margem dos morros para entrar na cidade. Os passos apressados se iniciam assim que os pés encostam sobre o gramado e se aproximam da primeira porta.

    Observando os arredores durante a caminhada, ele não percebe ninguém do lado de fora.

    “Parece tão agitado, mas não tem nenhum guarda. As bestas que o Welter citou não vêm aqui? Deve ter algo que eu não sei… Quer dizer, existem muitas coisas que eu ainda não sei.” 一 Um suspiro de conformidade escapa dos seus lábios sorridentes.

    Ao atingir uma certa distância dos morros, o passo à frente do garoto faz com que todas as luzes se apaguem. A agitação desaparece como a chama de uma vela soprada, trazendo consigo a fumaça do absoluto silêncio.

    Com isso, ele cessa a caminhada e busca novamente algo nos arredores, mas a única coisa que encontra são os insetos luminescentes sobre a semi-noite.

    Então, a pouca luz que resta projeta uma sombra enorme acima dele. O balançar das grandes asas irradia penas marrons e brancas carregadas pelo vácuo.

    Os olhos de Raisel se abrem no escorrer de um suor sobre o seu rosto, cortando da testa até os lábios. Aquilo na sua frente é algo inimaginável…. Um falcão humanóide tão grande quanto um gigante, com a cabeça de ave coberta por um elmo e uma armadura de placas feita inteiramente de ouro. Em uma das suas mãos, uma alabarda áurea e, na outra, um grande escudo redondo brilhante como o amanhecer.

    Os lumes amarelados e afiados dessa criatura queimam os pulmões do menino tais quais sóis artificiais. 

    一 Apresente-se. Caso dê mais um passo sem revelar-se, eu o eliminarei daqui. 一 O tom da voz reverbera pelos ares como uma sequência de trovões.

    一 Meu nome é Raisel! Sou um Viajante e vim até aqui para retribuir um Favor a Umerina Thinkanin, verificando o problema da colheita! 一 uma das mãos vai ao peito como se aquilo o ajudasse a respirar.

    Com a leveza de uma pluma, a criatura cuja altura facilmente alcança os cinco metros, descansa um dos pés sobre o galho da maior árvore ali presente.

    一 Aquela mulher ainda não desistiu? Tão teimosa quanto o Rei da sua espécie… Muito bem, Raisel. Você será o vigésimo Viajante a tentar resolver esse problema. Voltarei quando obtiver sucesso… ou quando estiver morto. 一 Num único bater de asas, todo o ar de majestosidade desaparece rumo aos céus.

    As luzes das casas dentro dos morros voltam a acender uma a uma.

    “Absolutamente forte… Eu não teria chance nenhuma caso ele decidisse atacar.” 一 No fim, a mão no peito serve como um acréscimo ao seu alívio.

    O ranger da porta de madeira fisga a sua atenção. Da fresta, um coelho de patas grandes, um paletó e uma gravata elegante espreita o novo Viajante a tentar resolver o mistério da colheita. Os olhos esbugalhados e azuis do Feral se mexem junto do seu bigode grosso.

    一 Eu ouvi tudo. Você é-é um Viajante, não é-é? 一 o tom desgastado, agudo e gaguejante da voz derrama seus pequenos óculos apoiados sobre o osso do focinho.

    一 Isso. Pode me mostrar e me falar mais sobre o problema que vocês estão tendo com a colheita? 一 disse em bom tom enquanto sorri brevemente.

    一 Claro. Ve-enha comigo 一 Escancarando a porta, o coelho de bigode libera a passagem para Raisel entrar 一 Meu nome é-é Damo. Sou o recep-pcionista das Tocas. 

    Curvando um pouco para frente, o menino abaixa a cabeça para caber naquele buraco. Ao pisar no assoalho de madeira, a porta atrás de si é fechada por Damo. O lado de dentro é um pouco mais espaçoso apesar da entrada pequena.

    一 Po-or aqui. 一 Ao invés de caminhar, o coelho saltita com as duas patas para frente.

    一 O guarda águia lá fora disse que outros dezenove vieram antes de mim. É um problema que tá acontecendo faz tempo? 一 Olhando para baixo, eles começam a descer em uma espécie de rampa enquanto são envoltos por um túnel de terra.

    一 Sim. N-Nossas pla-plantações usam das águas vi-vindas da Fonte Termal Guinitta. É o mesmo l-lago que o Kral us-sa na cerimônia de coroação. Mas, qua-quando abrimos um buraco p-pra tentar ter mais acesso à água-gua, encontramos uma coisa horrível… 一 Damo para em frente à uma porta de bambu corrida e a abre 一 E-Entre e cruze os braços no pei-peito.

    Estranhando aquilo, o menino ainda assim obedece às ordens do coelho recepcionista. Ele retira a espada da bainha e a abraça à frente do peitoral enquanto as mãos seguram os ombros. Virando-se de frente para Damo, não há mais nada ali além de uma parede de circunferência oval como um túnel.

    一 E agoraaaaaaaa… 一 o chão abaixo dele se divide, levando-o para as profundezas através daquele escorregador.

    Descendo em alta velocidade, Raisel segura o mais forte que consegue em si mesmo. Gritar não muda nada, mas a voz continua a sair pela experiência inusitada de enxergar diversas lâmpadas de borboletas luminosas ficarem para trás. Após alguns segundos de descida, ele é ejetado e cai para frente rumo a bater a cara contra o chão. Em um reflexo rápido, o braço esquerdo estica para apoiá-lo e jogá-lo de novo para cima para pousar com perfeição. No instante seguinte, a postura nobre se desfaz ao colocar as mãos sobre os joelhos e soltar a espada sem pensar duas vezes.

    “A-Achei que fosse morrer! Eles fazem isso como se fosse normal?!” 一 olhando para trás enquanto completamente descabelado, Damo vem até ele como quem acaba de ter uma atividade relaxante.

    Mas ele segue em frente em seus leves saltos.

    一 A coisa horrível que você comentou, o que é? 一 retomando um pouco de fôlego, o rapaz põe novamente a espada na cintura para seguir.

    一 Pre-prefiro que você veja com os-os próprios olhos… Não e-encontro outra pa-palavra para descrever além de ho-horrível… 一 As pálpebras do coelho se fecham em lamentação e, dessa forma, eles seguem em frente.

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