Índice de Capítulo

    O jardim ainda exalava o perfume das flores quando o apito de Letônio cortou a noite.

    O som durou um único segundo — agudo, desesperado —, então cessou. Teseu ergueu os olhos para a escuridão da mata ao norte. O silêncio que se seguiu pesava soava mais preocupante que o agudo anterior.  Ficou imóvel por um instante com a veste entre os dedos.

    Correu para dentro da ala de cura, largou a veste no leito e foi até o baú.

    Theo havia deixado uma couraça nova dobrada sobre a tampa — bronze escuro, mais pesada que a anterior, com as duas ombreiras intactas. Ao lado, a xiphos nova, lâmina polida, cabo de madeira densa. Teseu pegou a couraça e a examinou por um instante. As costelas ainda protestavam quando ele forçava o lado esquerdo. 

    Pesou as consequências, começou a vestir assim mesmo, com movimentos lentos e deliberados que pouparam as costelas ao custo do tempo.

    No corredor, os primeiros passos apressados de outros acordados pelo apito chegaram pelo vão da porta aberta. Uma voz gritou uma pergunta. Ninguém respondeu com clareza.

    Teseu prendeu os últimos fechos e saiu.


    O apito alcançou Calixto a caminho da muralha norte.

    Ela já estava em campo. Havia percorrido as rondas noturnas desde o anoitecer e sentia no ar uma tensão que não se explicava  — algo no silêncio da floresta, no sentimento pacífico antes de uma operação. Passarinhos que não cantavam. Grilos que não faziam barulho. O farfalhar do vento entre as folhas que soava seco e vazio de movimento. Quando o apito de Letônio chegou, a tensão se solidificou.

    — Theo! — Calixto gritou na direção da praça de armas.

    O comandante surgiu da tenda com o peitoral na mão, os fechos ainda abertos e os olhos alertas. Prendeu o equipamento com um movimento único enquanto cobria a distância até ela.

    — Ouvi. — A voz estava firme. — Os batedores a oeste?

    — Letônio estava em patrulha noturna sozinho. Foi o apito dele.

    Os dois aceleraram o passo. Ao longo das ruas, os guardas de turno reagiram ao apito com a disciplina que os meses de treinamento de Theo haviam construído; posições fixas, armas erguidas, sem aglomeração. As tochas espalhavam sombras que se moviam e confundiam os olhos.

    Na portaria norte, Silvo já estava de pé sobre a plataforma de madeira com a mão erguida em posição de espera. Os batedores formavam uma linha silenciosa atrás dele.

    — O que Letônio viu? — Calixto subiu os degraus dois de cada vez.

    — Nenhum sinal. — Silvo não desviou os olhos da linha de árvores. — O apito soou e cessou. A mata está em silêncio absoluto desde então.

    O rapaz apertou o punho contra a lança que segurava. Seus olhos se apertaram na direção da mata e o maxilar marcou.

    Theo alcançou o nível da plataforma e examinou o horizonte. Nenhuma tocha, nenhum grito, nenhum som de cavalaria ou de passadas de exército. A fauna da noite havia desaparecido por completo — sem grilos, sem corujas, sem o farfalhar das folhas sob vento real.

    — Formem uma linha de escudos. — o comandante ordenou com firmeza. — Ninguém abre o portão até nova ordem.

    Os soldados obedeceram. O tilintar das armas e o baque dos escudos de madeira contra o piso de terra preencheram o pátio da muralha. Trinta homens se puseram diante do portão fechado, escudos sobrepostos, lanças em posição de recepção.

    Calixto desceu da plataforma e caminhou ao lado de Theo, com a espada curta fora da bainha e a lâmina paralela ao corpo.

    — Se for um exército, não aguentamos mais que uma hora. — baixou o tom o suficiente para que apenas ele ouvisse.

    — Eu sei. — Theo olhou para os rostos tensos na linha. — Mas esse povo lutou contra guardas armados com as mãos nuas. Uma hora é mais do que eu esperaria de qualquer outro grupo nas mesmas condições. Render-se não é uma opção.

    Calixto assentiu.

    Eles esperaram. A mata continuou em silêncio.


    Plutarco havia voltado à sua tenda e passava o olho pelos pergaminhos do dia quando o apito chegou pela lona.

    Ficou de pé de imediato.

    Lycomedes abriu a entrada da tenda poucos segundos depois com a mão de seis dedos espalmada contra a lona.

    — Eu preciso de você. — Sem preâmbulo. — Venha.

    Plutarco deixou os pergaminhos sobre o baú e seguiu o homem para fora. As ruas de Nova Arcádia já exibiam a agitação que precede o pânico — pessoas na porta das tendas, crianças acordadas e vozes em sobressalto buscavam respostas que ninguém tinha.

    Lycomedes caminhou com a determinação de alguém acostumado ao caos.

    — Os abrigos ficam sob as fundações do antigo mercado. — avançou pela rua central sem pausar. — Quatro câmaras de pedra que os batedores reforçaram no mês passado. Eu guio os primeiros grupos. Você fica na rua e conduz os que ficarem para trás.

    — Eu não sou soldado. — Plutarco disse.

    — Ninguém está pedindo que você lute. — Lycomedes se virou por um instante. — Estou pedindo que fique aqui e use a voz. A palavra. O seu dom.

    Plutarco olhou para a rua à frente. Uma mulher com dois filhos pequenos tentava fechar um embrulho de pertences enquanto um terceiro filho chorava no colo. Dois homens mais velhos discutiam a direção do abrigo sem nenhum dos dois saber a resposta correta. Um rapaz jovem empurrava contra o fluxo, na direção errada.

    — Tudo bem. — Plutarco disse. — Farei o que puder.

    Lycomedes já havia partido sem esperar por resposta.

    “Aquele velho convencido.”

    Plutarco virou-se para a mulher com os três filhos e apontou para a rua principal com  autoridade que dizia a todos que ele sabia o caminho.

    — Por aqui. Siga os outros. Rápido, mas sem correr. Crianças, segurem-se junto às suas mães e pais.

    A mulher obedeceu. Os dois homens mais velhos pararam de discutir ao ouvir a voz e se encaixaram no grupo. O rapaz jovem corrigiu a direção. As crianças se organizaram, incrivelmente ordenadas.

    Plutarco empurrou o fluxo de pessoas com a voz e os braços durante vinte minutos. Depois, quando a rua ficou vazia e o último grupo desapareceu na entrada das câmaras de pedra, ele ficou parado no meio do caminho e olhou para o alto da encosta.

    A muralha do palacete em ruínas era invisível na escuridão. Mas ele sabia onde ficava, e, conhecendo seus companheiros, sabia que Teseu subiria para lá.


    Teseu cruzou a praça de armas na direção da muralha norte e encontrou Licaão no meio do caminho.

    O rei estava de pé entre duas tochas, com os braços cruzados e a expressão de quem esperava há mais tempo do que tinha paciência para fazê-lo. A espada de empréstimo pendurava na bainha com o ar de coisa esquecida. Licaão só a seguraria quando precisasse e nunca gostava de precisar de nada que não fosse seu.

    — Você ouviu o apito. — Ele tinha o olhar duro.

    — Ouvi.

    Teseu passou pelo rei sem parar e foi até a muralha norte. Calixto e Theo estavam na plataforma. Ele subiu ao nível deles e olhou para o campo — a mesma floresta quieta de um jeito que floresta alguma deveria estar.

    — Qual é a leitura? — Teseu perguntou a Calixto.

    — Não sabemos o que vem. — A guerreira manteve os olhos à frente. — Sem som de exército, sem cavalaria. A mata está em silêncio absoluto desde o apito.

    Licaão chegou ao nível da plataforma sem convite. Examinou o campo com a visão aguçada que a maldição havia preservado por séculos.

    — Exércitos gostam de fazer espetáculo. Impor medo antes de atacar para desmembrar a defesa. Cavalaria faria o chão tremer. — O rei pausou. — Isso é outra coisa.

    Theo olhou para Teseu.

    — Independente do que for, eu preciso de todos os meus homens na linha. — A voz não deixava espaço para interpretação. — Mas você está machucado. Nem invente.

    O garoto bufou, fez gesto de contestar, mas o olhar dos dois foi suficiente para freá-lo.

    — Se você puder fazer algo útil fora da linha de frente… — Theo voltou-se para seu grupo de homens de cima da muralha. — Agora seria uma boa hora.

    Teseu assentiu e desceu da plataforma. Licaão o seguiu.

    — A espada. — O rei falou em voz baixa, longe dos outros. — Você sabe o que ela pode fazer. Deus, exército, monstro ou feitiçaria, ela atravessa. Nas ruínas, no cofre. E enquanto a gente fica aqui, o que vier de lá usa esse tempo para se aproximar.

    Teseu olhou para a linha de soldados. Para Calixto, de costas para eles, imóvel. Para Theo, que ajustava a posição dos escudos com a paciência de um mestre de pedraria.

    — Eles aguentam sem nós? — Teseu disse.

    — Eles aguentaram sem nós a vida inteira. — Licaão respondeu. — A pergunta certa é: nós aguentamos o que está por vir sem a espada?

    Teseu não respondeu. Virou as costas para a muralha e caminhou na direção da encosta.

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