Capítulo 159 | Um Jardineiro na Guerra
Sophia cruzou o limiar da ala de cura com passos leves. Entre as mãos, ela protegia um ramo de luz-da-terra, uma erva rara cujas pétalas emitiam um brilho azulado e constante. A claridade fria da planta projetava sombras longas contra as paredes de calcário e revelava o vazio no canto do celeiro.
A enxerga de palha onde Teseu deveria repousar estava deserta.
Sophia parou no centro do recinto. O frio atingiu sua nuca.
As palavras de Calixto ecoaram em sua mente como um mantra:
“Cuide e garanta que ele se recupere bem. Nossa sobrevivência depende dele.”
Teseu tinha costelas partidas e feridas que exigiam imobilidade por pelo menos mais uns dois dias. O pânico subiu pela garganta da garota. Em sua mente imaginou o rapaz caído em algum corredor escuro, com os pulmões perfurados pelo próprio esforço.
Um ruído abafado veio do jardim anexo, nos fundos da construção, e a acordou de seus pesadelos.
Sophia caminhou até a abertura lateral. Afastou uma trepadeira de jasmim e parou. O jardim, um refúgio de ervas medicinais e flores silvestres, banhava-se sob a prata da lua cheia.
Teseu ocupava o centro de um pequeno círculo de grama, deitado sob a copa de uma oliveira antiga. Ele mantinha os braços atrás da cabeça e os olhos fixos no firmamento estrelado.
O corpo do rapaz exibia as bandagens brancas que Sophia aplicara com tanto zelo, agora levemente sujas de terra.
A brisa noturna sacudiu os galhos acima e desprendeu pequenas flores brancas da oliveira. As pétalas flutuaram no ar e enfeitam o peito do herói. Uma delas pousou exatamente sobre a ponta de seu nariz
Ele franziu o rosto e, após puxar e soltar o ar algumas vezes, o rapaz soltou um espirro ruidoso que quebrou a paz do jardim. O solavanco, impulsionou o corpo para cima e fê-lo sentar-se na grama. Neste momento, seus olhos encontraram a figura de Sophia sob o arco de jasmim.
A garota deu um passo atrás. O impulso de fugir dominou seus músculos, mas a imagem da irritação de Calixto a manteve no lugar. Soltou um suspiro longo, ajustou o aperto na erva brilhante e avançou pela grama até parar diante dele.
— Este lugar é imensamente belo — Ele ignorou a expressão severa da curandeira e apontou para os canteiros ao redor. — Você cuida muito bem daqui. As plantas parecem felizes sob seu zelo.
— Você não deveria estar aqui — Sophia cortou a fala dele com uma risteza seca. — Seus ossos estão em pedaços e suas feridas abertas. Volte para o leito. Agora.
Teseu sorriu. Então, levantou-se numa agilidade que a assustou.
— Eu já estou bom, Sophia. — O rapaz levou as mãos à barra lateral de seu quiton e o ergueu até a altura do peito.
A luz azul da erva revelou o abdômen esculpido e firme. Os hematomas roxos e costelas desalinhadas, agora davam lugar apenas à pele lisa e músculos íntegros. Teseu apontou para o flanco.
— Veja. Toque você mesma se não acredita em mim. Meus ossos voltaram ao lugar.
Sophia encarou o torso exposto. O rosto dela se contorceu em um gesto de asco profundo. Ela recuou dois passos, com os olhos fixos no chão, como se a proximidade física do rapaz fosse uma afronta.
Teseu percebeu o erro no mesmo instante. O calor subiu por seu pescoço e ele baixou a veste com rapidez.
— Eu não quis dizer… — balbuciou. — Eu apenas queria mostrar que já estou…
A garota virou as costas sem responder e caminhou em direção à entrada da ala médica com passos apressados.
— Espere! — ele pediu, mas ela não atendeu.
Teseu sentiu o desespero de perdê-la mais uma vez para o silêncio.
O rapaz estendeu as mãos para os lados. De forma súbita, o jardim inteiro despertou. Botões de flores fechados abriram-se em um espetáculo mudo de cores sob o luar. As videiras cresceram centímetros em segundos e a própria erva que Sophia carregava triplicou seu brilho, florescendo em uma cascata de pétalas azuis que iluminou o rosto da garota.
Sophia estancou o movimento. Olhou para a planta em suas mãos e depois para os canteiros que explodiam em vida ao seu redor. Ela girou o corpo e viu Teseu.
O rapaz caiu de joelhos na grama. A respiração estava pesada e curta. O suor brilhava em sua testa.
— Eu precisava que você me ouvisse de alguma forma — ele disse entre as arfadas.
Sophia correu até ele. Ela ajoelhou-se e sustentou os ombros de Teseu para evitar que ele tombasse.
— O que foi isso? — sussurrou, com os olhos arregalados de espanto. — Isso é magia?
— Ma- o quê? — Teseu respondeu e buscou o equilíbrio. — É só uma coisinha que consigo fazer às vezes.
Ela tentou erguê-lo para conduzi-lo de volta ao celeiro, mas Teseu segurou seu pulso com suavidade.
— Por favor. Vamos ficar aqui um pouco mais. A lua me ajuda a recuperar o fôlego. Eu me sinto melhor sob o céu.
Sophia hesitou. Olhou para o herói e depois para o jardim transformado. Ela cedeu à pressão leve da mão dele e sentou-se na grama.
A brisa agitou as pétalas azuis da luz-da-terra e o silêncio voltou a pesar no jardim.
Teseu mantinha os olhos voltados para o céu, enquanto Sophia permanecia sentada a uma distância prudente. Ela observava as flores que o rapaz despertara com uma mistura de fascínio e receio.

— Você sempre viveu aqui? — Teseu olhava as estrelas. — Digo, antes da chegada do grupo de Calixto e os outros.
Sophia demorou a responder. Ela apertou as dobras de sua túnica roxa.
— Não. — A voz dela saiu quase como um sussurro. — Não havia ninguém aqui quando chegamos. Nós viemos de lugares diferentes, mas eles me encontraram antes daqui.
Teseu virou a cabeça para o lado e a encarou.
— E de onde você veio?
A garota baixou o rosto. Ela traçou um círculo invisível na grama com a ponta do dedo.
— Do norte. Das minas de sal no litoral. — Parou e respirou fundo, como se as palavras exigissem um esforço imenso.
— Suas mãos não parecem acostumadas a mexer com ferramentas de mineração.
Ela assentiu.
— Eu cuidava dos enfermos lá também.
— Entendi. — O olhar dele voltou ao céu. — Obrigado por ter cuidado de mim ontem.
Sophia olhou para as próprias mãos e as escondeu sob o linho da veste.
— Eu apenas cumpri meu dever. — Ela hesitou por um instante e depois lançou uma pergunta rápida, quase sem fôlego. — Como… Como você fez isso?
Teseu sorriu e juntou os joelhos à frente do corpo. Seus olhos desceram para o jardim encantado e suas mãos subiram em direção às flores.
— Recebi da floresta uma responsabilidade, e com ela vieram também algumas habilidades. Habilidades que me ajudam a proteger aqueles que não consigo alcançar apenas com força.
Sophia abriu a boca para falar, mas o som de passos pesados contra o solo seco interrompeu o momento. Uma sombra imensa projetou-se sobre a grama iluminada.
Licaão emergiu da escuridão lateral do celeiro. Seu rosto estava torcido em fúria.
A poucos metros do casal, ele bufou.
— Então este é o motivo da sua “lenta recuperação”, Teseu? — Licaão cuspiu as palavras com desprezo. — Você finge agonia e cansaço para ficar de namorico sob o luar enquanto eu espero como um idiota?
Teseu levantou-se num sobressalto e se colocou entre o companheiro e a garota.
— Eu não fingi nada, Licaão. Eu gastei cada gota de minha força na luta contra o Leão. Só recuperei o domínio sobre meus poderes há poucas horas.
— Mentira! — Licaão deu um passo à frente, seu cabelo caiu sobre a testa e emoldurou com frieza os olhos com um brilho perigoso. — Nós partiremos imediatamente para a colina. Chega de brincar de camponês com seus ex-escravos!
Teseu cruzou os braços sobre o peito nu.
— Não há necessidade disso. Nós faremos isso pela manhã, com a luz do sol.
O rei soltou um rugido de raiva.
Ele girou o corpo e desferiu um soco violento contra um muro de pedra quebrado ao lado da entrada. O impacto foi devastador. A pedra calcária despedaçou-se em fragmentos que voaram pelo jardim.
— Pare de tentar me enganar, garoto! — Licaão berrou. Ele apontou o dedo para o rosto de Teseu. — Nós iremos agora mesmo. Ou eu mesmo farei este lugar desabar sobre sua cabeça!
Teseu cerrou os punhos. Estava pronto para desafiá-lo e revidar a ameaça, mas um movimento atrás de si o fez parar. Ele sentiu o tremor de Sophia.
A garota estava encolhida, escondida atrás das costas dele. Ela apertava o próprio peito e mantinha a cabeça baixa, tomada por um pavor visível.
Teseu soltou o ar com força. Ele abaixou a guarda e relaxou a postura.
— Está bem — Assentiu, resignado. — Eu farei como você quer. Buscarei meus equipamentos e partiremos para a colina agora.
Licaão bufou mais uma vez, visivelmente consternado, mas satisfeito com a submissão do rapaz. Ele deu as costas e caminhou para fora do jardim sem dizer mais nada.
Tão logo o selvagem desapareceu, Sophia caiu de joelhos na grama. Tremia violentamente. Teseu virou-se e estendeu a mão para confortá-la, mas a garota reagiu com um tapa em sua mão e se afastou com um movimento brusco.
Sophia levantou-se com dificuldade, lançou um olhar de puro terror para Teseu e correu em direção à ala médica.
— Sophia!
A garota desapareceu nas sombras do celeiro, e o deixou sozinho no jardim, cercado pelas flores que despertara e que agora começavam a perder o brilho.
A noite dominava o espaço sob as copas grossas. Ele mantinha a mão direita sobre o cabo da adaga e os olhos fixos nas marcas profundas na terra. O silêncio absoluto ao redor intensificou o frio em sua nuca.
“Eu vou provar para o Silvo que estava certo sobre os perigos”.
Um instante a mais de reflexão trouxe um gosto amargo ao seu juramento.
“Espero que não…”
O cavalo relinchou e parou. Haviam alcançado o topo da encosta. Letônio desceu da sela e caminhou até o limite das árvores. Seus olhos se iluminaram.
O terreno ali oferecia uma visão limpa e direta para as fogueiras de Nova Arcádia, na base da montanha. Os pontos de luz brilhavam na escuridão do vale como brasas em um braseiro.
Um sorriso admirado surgiu em seu rosto.
“Logo seremos a maior das Pólis!” Juramentou, orgulhoso.
“Um lugar onde até mesmo um escravo de jardim como eu pode se tornar…”
Uma brisa fria soprou forte a ponto de silenciar seu pensamento. Sentiu um arrepio.
O batedor sentiu que algo estava errado no ar. Ele desviou o olhar das luzes da cidade e encarou a grama amassada sob seus pés. Arregalou os olhos.
O corpo de um cervo jazia a poucos passos de distância.
Letônio aproximou-se com cautela.
O pescoço havia sido esmagado com tanta força que a marca ficara gravada no chão abaixo. Com o pé, ele afastou o bixo da posição. Sentiu o terror gelar seu sangue.
A natureza daquilo que havia levado-o à morte estava claro na marcação.
“Pisoteado por um casco.”
Seu olhar mais uma vez encarou o assentamento. Uma brisa fria esvoaçou seus cabelos presos e enviou um arrepio pela sua espinha.
O batedor correu de volta para a montaria, puxou as rédeas e forçou a descida. O cavalo disparou pela encosta. Os cascos batiam com força contra a terra e as pedras soltas da trilha.
Letônio se movia em desespero. Ele precisava avisar Calixto, Silvo e os outros. Alguém os observava.
— Rápido! — Ralhou ao agitar as rédeas com a força de um chicote.
O cavalo gemia e apertava o passo a cada segundo.
Um zumbido grave cruzou a floresta.
Uma lança de madeira escura, grossa como o braço de um homem, surgiu do meio das árvores e atingiu a barriga do cavalo com violência precisão. A ponta de ferro rasgou a carne do animal, atravessou o corpo e o cravou na rocha do chão.
O impacto repentino arremessou Letônio da sela. O rapaz voou para frente e colidiu contra o tronco de um carvalho. O estalo do osso de seu braço direito ecoou na mata. Ele caiu no solo de terra batida.
A dor se espalhava por seus músculos no instante que se seguiu ao choque.
— Gghah-
Letônio rolou o corpo com esforço e encostou as costas na árvore. Sangue escorreu de sua testa e cobriu seu olho esquerdo.
Ergueu a cabeça.
“Deuses…”
Sombras colossais abrigavam-se na escuridão ao redor da trilha. Formas gigantes bloqueavam a pouca luz da lua. Os olhos do rapaz se estreitaram para a visão que desafiava a lógica de sua mente.
Quatro patas de cavalo sustentavam torsos de homens largos e rudes. Letônio prendeu a respiração.
“O que diabos são essas…”
Uma das criaturas rompeu a camada de sombras e revelou um pouco mais de sua figura para o jovem. Era o maior entre eles, acima de qualquer cavalo de guerra ou bisão que ele já houvesse visto.
Cabelos negros e longos caíam sobre os ombros largos e humanos. Olhos vermelhos brilharam rompiam a negritude noturna como feixes demoníacos.
Nesso parou ao lado do cavalo preso que ainda gemia em sofrimento. Segurou a haste da lança, torceu a madeira com brutalidade e arrancou a arma da barriga do animal. O cavalo trouxe ao mundo um último gemido e amoleceu em seguida.
Nesso virou-se para as sombras da noite mas lançou um olhar sobre o ombro para o batedor ferido.
Letônio encarou a própria morte. O terror imobilizou suas pernas e revirou seu estômago.
Uma voz soou na escuridão. Calma e feminina. Pareceu familiar aos ouvidos do rapaz.
— A hora chegou.
Letônio ignorou o braço quebrado. Levou a mão esquerda ao cinto de couro. Seus dedos trêmulos e quebrados agarraram o pequeno apito da ordem dos batedores. O rapaz ergueu o instrumento até os lábios sujos de sangue e soprou com toda a força que restava em seus pulmões.

O som agudo e sofrido rompeu a noite e tirou os pássaros das copas das árvores.
Então, a sombra de Nesso caiu sobre Leto, e o som do apito cessou de forma abrupta.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.