Índice de Capítulo

    O muco borbulha incessantemente enquanto a atenção de Raisel se fixa nos arredores como um todo. No espaço limitado e cercado por um perigo desconhecido, ele restringe o Gewissen a sua volta em um formato de bolha. No breu, o único ponto de luz vem da sua energia dourada.

    Efervescentemente, um aglomerado de gosma começa a se levantar e se dobra tal qual um grande tentáculo para apagar o brilho irritante.  Mas, o pequeno vaga-lume se projeta para longe e pisa consecutivas vezes em suas plataformas improvisadas com Rascunhos energéticos.

    “Merda! O Beisen no ar tá tentando engolir minha energia… Preciso consumir muito mais do que o normal!” 一 conforme os passos ecoam semelhante a pedaços de vidro sendo pisoteados, o menino se estabelece acima do altar no epicentro desse subsolo.

    As diversas raízes carnais estendem-se para o alto e dançam sob a sinfonia do extermínio. Os ataques flexíveis se embaralham por toda a frontal assim como uma avalanche, mas Raisel dá um passo à frente e mantém a espada abaixada para trás. O domo mantido a sua volta estoura, liberando uma parede frontal de ventos ondulantes.

    “Bludný Vitr!” 一 O caminho entre os tentáculos e a direção de cada um é mapeado meticulosamente.

    Tal qual uma máquina, a lâmina balança incontáveis vezes em um piscar de olhos; reduzindo os ataques a meros pedaços de gosma que já não possuem nem mesmo forma e o líquido remanescente é dissolvido pela potência do vácuo após os movimentos com a espada.

    一 Fuu… 一 Entre os lábios, o vapor escapa para que a mudança de sua postura aconteça.

    Diante dele mais uma vez, o enorme tentáculo projeta a sua sombra contra o brilho. Mas, ao invés de decair para esmagá-lo, aquilo se parte ao meio com a interferência da ponta de uma arma vindo de dentro do aglomerado de muco.

    A gosma espessa e viscosa, ainda borbulhante, se espalha como uma chuva. O domo ao redor de Raisel atua como uma camada de vidro; isento de qualquer problema a não ser a presença da criatura lá dentro.

    “Orelhas pontudas, uma armadura de ouro e um elmo com plumagens…” 一 A espada se mantém alinhada ao peitoral na vertical.

    A criatura salta até o telhado do altar para ficar de frente contra o seu oponente. Na mão direita, uma lança completamente enferrujada e distorcida pela carne pútrida se mantém para trás. O lado esquerdo do corpo toma a dianteira para que, pela primeira e última vez, os olhos deles se fixem um contra o outro. Contudo, a surpresa chega até Raisel ao notar que não há olhos no crânio.

    Da haste da lança, três círculos mágicos escuros com contornos rosados se empilham como uma mola. Deslizando até a região da lâmina tal qual anéis, apesar de terem tons semelhantes, os desenhos no centro são completamente diferentes.

    “Três Kern?!” 一 O borrão pouco brilhante é emanado até a sua direção ao mínimo mover da lança.

    O assoalho se divide com o rastro do golpe sem preparação, mas o garoto está seguro por ter saltado para o lado. Logo, ao invés de partir para cima, Raisel projeta Rascunhos quadrangulares ao abrir a palma esquerda atuando como uma barragem de escudos, mas a criatura permanece parada. Com o mero estender da ponta da lança até a parede, esses Quadrados Mágicos se fragmentam em partículas douradas.

    “Stodem para perfurar, Eigen pra cortar… Qual é o terceiro?” 一 umedecendo os lábios, o rapaz ainda permanece a mão para frente.

    Ao girar o pulso e manusear a palma para baixo, as partículas de luz se reúnem abaixo do inimigo para a formação de um grande círculo mágico de compressão. No fechar do punho, o rapaz o puxa em direção ao chão como uma força gravitacional. Entretanto, o Beisen do monstro começa a vazar em grandes quantidades no potencial de enfraquecer o brilho rapidamente.

    Afrouxando-se das amarras do Wunch, o lanceiro carniceiro bate a arma contra o solo resultando na quebra da armadilha de restrição.

    “Por estar morto, não é tão móvel. Ainda bem… Esse cara quando estava vivo devia ser muito forte. A corrupção dele é diferente da que Khinayen sofreu por Viana… O espírito dele ainda resistia com alguma luz, mas aqui… é só o cadáver sendo guiado. Quantos dele existem aqui? Será que todos os Viajantes anteriores serviram de combustível para ele? Droga… Tantas perguntas.” 一 Sob o estalar de algo de porcelana se trincando, uma rachadura áurea separa o rosto dele parcialmente a partir da bochecha.

    Sustentando a haste da lança na altura do peitoral, o monstro inclina-se para frente enquanto a mão esquerda oferece uma mira. Na horizontal, a arma é empurrada para frente projetando as três Fórmulas de Kern de modo semelhante a uma lupa. Nesse instante, o Gewissen dele emite um estampido e as sombras engolem a luz completamente…

    O outro segundo reverbera a pancada estremecendo o subsolo. Por trás da criatura zumbificada, a lâmina negra passa através do peito e a claridade dourada volta a iluminar o local.

    一 Enganei você. A corrupção por Beisen não funciona mais comigo. 一 A espada brilha como ouro perante a intensa vibração de sucção.

    A compressão age internamente, implodindo o oponente sem deixar qualquer rastro de sua existência. Novamente, o domo se expande para protegê-lo do miasma que incomoda as narinas.

    Ao suspirar, a rachadura na bochecha vem a diminuir continuamente.

    “Se não fosse pelo Schaltung Artificial, as Trevas teriam chegado no meu núcleo.” 一 olhando envolta, o mar de muco já não borbulha como antes, mas emite o seu constante vapor corruptivo.

    一 Agora preciso fazer uma faxina. Só tapar o buraco não vai ser o suficiente, até porque esse muco não deve sumir sozinho… Será que consigo fazer uma técnica de Wunch? 一 a energia dele se expande em forma de espinhos buscando a parede rompida com ligação à Fonte Guinitta 一 “Achei…”

    Guardando a espada na bainha, Raisel eleva as duas palmas na altura do peito e passa a canalizar seu Gewissen no espaço entre elas. Uma pequena esfera luminosa pulsa ondulações semelhantes a lufadas de redemoinho.

    “O vento é a vida sem forma, mas a luz responde à minha consciência. Enquanto o vento está presente em tudo que respira, a luz ilumina até a escuridão da morte. Quando ambos se encontram, surge a esperança de uma nova vida. A água e a terra só podem ser sentidos e vistos na junção deles. Por isso, juntos eles formam um fragmento de eternidade…” 一 Conforme a reflexão prossegue, as ondulações ficam mais e mais estreitas até rodarem como torções. A espiral luminosa entre as mãos dele não emite vento e não irradia a sua luz. Tudo está concentrado para a formação do equilíbrio, unificando a ordem cíclica que compõe o mundo.

    一 Então seu nome será… Einsam Erinnern.

    A esfera giratória desliza da mão como uma lágrima. Silenciosamente ela cai até o lago de muco que a engole, respingando para os arredores. No instante seguinte, o líquido retorce freneticamente ao ter uma espécie de “ralo” ilimitado sugando-o incessantemente.

    Em algumas dezenas de segundos, não resta mais um traço sequer da corrupção aquosa. Exceto pelo escorrer de mais gosma através do buraco aberto pelos Coelhos.

    Por meio de um salto, Raisel pisa próximo da cavidade. Elevando as duas mãos até os destroços, seu Gewissen dourado envolve as toneladas de rocha das ruínas e passa a levitá-las com o poder da sua consciência.

    Os pés do menino afundam a terra perante as veias que saltam sem parar por todo o seu corpo.

    Espremendo-as até se tornarem uma rolha, ele encaixa na cavidade para tapar o vazamento.

    一 Haaah! Haaah! 一 as mãos vão até os joelhos enquanto tenta acalmar o ritmo dos pulmões 一 “Pra uma primeira vez, não foi tão ruim… né?”

    A atenção dele é fisgada no tremor vindo de cima. Lá, a cratera causada pelo último golpe do lanceiro passa a tornar-se mais e mais expansiva. Respirando profundamente, mais uma esfera rodopiante minúscula é lançada até o restante da poça corrompida.

    Os primeiros blocos de terra começam a despencar e o rapaz corre para a direção do túnel de entrada sem pensar duas vezes.

    一 DAMO! SOU EU! ABRE O PORTÃO! 一 berrando, o eco da voz estremece as paredes perante o desabamento.

    Ele chega de frente para a entrada lacrada. Batendo a lateral do punho fortemente várias vezes, ainda não há nenhuma resposta do outro lado. A onda de terra passa a subir quanto mais os instantes vão indo.

    一 DAMO!!! 一 com o canto dos olhos, ele vê a avalanche prestes a consumi-lo.

    As pálpebras se fecham e seu braço é puxado no instante seguinte.

    Caindo de costas e rolando pelo chão, Raisel permanece deitado enquanto as costas se expandem e diminuem.

    “Achei que fosse morrer… de novo!” 一 olhando para cima, as sobrancelhas levantam-se subitamente.

    一 Você é louco por acaso, Raisel?! Entrando no portão da morte! 一 a voz de Welter soa como arranhões em seus tímpanos.

    一 O-O que você tá fazendo aqui? 一 apoiando-se com as duas mãos, o rapaz se ergue.

    一 O que eu tô fazendo aqui?! Já passou as vinte quatro horas que combinamos e eu vim atrás de ti! Foi quando o Damo me disse que você entrou pela porta do Lacrador! Esse lugar é proibido, tá me entendendo?! 一 o dedo indicador repreende o mais novo sem parar.

    一 Tá, tá… O Damo me falou tudo e eu não vim aqui atoa, a Umerina me mandou 一 com uma das mãos no pescoço, ele desvia o olhar.

    一 Haaah… Aquela mulher tem o apelido de “Assassina de Novatos”. Você entrou na filiação Armada e nem sabe quem nós Viajantes precisamos evitar? 一 a cabeça balança para os lados e a palma esquerda repousa na face.

    一 O importante é que… eu resolvi o problema. Deve ficar tudo tranquilo com a plantação e a colheita dos Coelhos agora 一 batendo as mãos na roupa, a poeira sacudida deixa o tecido.

    Erguendo uma das sobrancelhas, Welter observa a porta com o canto dos olhos.

    “Damo tinha dito que a Maldição estava tão forte que o ar era rarefeito e fedia, mas não senti nada disso ao abrir a porta…” 一 No fim, ele volta a encarar o menino enquanto um suor escorre na lateral de sua feição.

    Mas, antes que a boca pudesse projetar uma fala, o meio-elfo avista algo atrás de Raisel.

    一 Isso que você falou é verdade? Você acabou com a Maldição da Colheita? 一 uma voz feminina e gentil como uma pluma fazendo cócegas nos ouvidos aparece.

    Virando o rosto devagar, Raisel a encara com os olhos arregalados.

    “Shishika…?”

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