Capítulo 132 - Próximo Passo
Ainda era fim da tarde quando Raisel e Azlam subiram para a ilha do Terceiro Campanário após o conflito desastroso nas cercanias de Svartalfar. Enquanto eles seguiam sob a jurisdição dos elfos puros, os desafortunados ficaram para trás esmagando a grama fria com seus corpos e amargurando a derrota.
一 Merda! 一 o loiro bateu a palma contra o próprio rosto contorcido 一 Eu devia ter feito alguma coisa!
A brisa soou diferente como a lamentação do orvalho que pingava sobre os ombros. Espremendo os lábios, Jeanice apertou as mãos trêmulas contra o peito para reunir mais forças.
一 E ter matado todos nós?! Você precisa se acalmar primeiro! Você não é irracional assim! 一 virou-se subitamente enquanto segurava os ombros do homem completamente rendido e sem metade dos membros, mas seguia observando o alquimista.
一 Tsc…! O Raisel foi levado, porra! A gente precisa fazer alguma coisa…! 一 Por mais que forçasse a cabeça para pensar numa solução, faltavam peças no qual eles poderiam contar.
O olhar da meia-elfa vacilou para o lado e passou a reconfortar o mentor desamparado. Diferente dela, a cor azul de seus olhos parece afundados em um tom opaco, sem brilho.
一 Eu… não sei, mas conhecendo o Raisel, ele iria decidir… descansar primeiro pra pôr a cabeça no lugar. 一 Com cuidado, Jeanice apontou a varinha para apoiar o homem em estado de choque sobre uma plataforma mágica.
一 Que se dane. É culpa daqueles malditos mascarados… se tivessem mobilizado uma força que preste pra ajudar a gente, nada disso teria acontecido 一 As veias saltaram pela testa de Kimich, mas ao notar alguém nas proximidades, acabou se virando subitamente.
As sobrancelhas ergueram-se enquanto os lábios deixaram escapar um suspiro.
一 Falando no diabo… o que você quer dessa vez? Vai fugir com o rabinho entre as pernas de novo? 一 Sob a palma direita coberta pela luva, o Gewissen transparente começou a se concentrar.
Adiante, as sombras do ambiente se reviraram na presença de algo que emergia. Sobre a coloração púrpura dos seus olhos energizados, a máscara preta de felino ergueu-se na figura de um homem cuja cintura estava com um par de foices penduradas.
一 Não estrague ainda mais as coisas, seu tolo. Eu fui mobilizado a ajudá-los nessas situações, mas seu ataque repentino me forçou a recuar. Tudo isso poderia ser evitado caso não tivesse arrumado confu–
一 Vai à merda! Esse papo furado não vai colar comigo…! Pensando melhor, vou pegar um braço e uma perna sua como preço pelo Tejin ter perdido eles…! 一 A letra “K” surgiu de maneira estilizada acima da palma e, consecutivamente, foi esmagada.
Entretanto, uma nova presença saiu por trás do Pantera. Os braços tatuados, as roupas sofisticadas, mas camufladas por plumas e diversos equipamentos de suporte presos entre os tecidos. Não restava dúvidas que essa pessoa era alguém versado na arte de caçar.
一 Acalme os nervos, por favor, Kimi. 一 A voz imponente, mas calma como a brisa de um campo florido, desdobrou–se à esquerda junto de seus passos silenciosos.
Com a feição tapada por uma máscara de ave, a coloração castanha reluzente de seus olhos trouxeram consigo uma sensação de familiaridade no ambiente. Por isso, quando o loiro o viu, toda intenção hostil desapareceu como um dente-de-leão soprado.
一 Falcão… 一 As íris trêmulas intercalaram freneticamente a imagem do falecido Yurgen anos mais novo com a do antigo conhecido, mas, agora, presente e mais velho.
一 Já faz um tempo, mas deixe a conversa para depois. Agora, é melhor vocês descansarem. Depois, vou te levar até a Base em Kravendel… 一 as laterais raspadas deixavam o restante da cabeleira branca e o coque ainda mais evidentes.
一 Descansar? O Raisel foi capturado. Quem sabe o que esses malditos vão fazer com ele lá em cima 一 o cenho franzido acompanhou o balanço da cabeça para o lados.
一 O garoto tem Gluhen Puro como você sabe. A pureza da energia é o que mais importa para os malditos orelhudos. Já sobre o Beisen, o tempo que ele passou com o Sábio elimina as chances de um descontrole… Ou seja, não há motivos para preocupações.
Os punhos de Kimich apertaram fortemente, mas os ombros relaxaram pouco depois conforme encarava o chão. Um suspiro decretou a paz de espírito momentâneo e a cabeça mais fria depois das fortes emoções.
一 Vou acreditar em você… Foi mal, aconteceu tanta coisa que eu… 一 uma das mãos esfregava a nuca, tendo os olhos trêmulos na direção do seu amigo de cabelos escuros paralisado e ferido.
一 Sem problema. Eu também quero acabar com os vermes de Balmund… até por isso eu sou um Selvagem há tantos anos. De qualquer forma, amanhã discutiremos os próximos passos antes do Sábio retornar. 一 Aproximando-se do outro mascarado, o Falcão desaparece nas sombras.
O pôr do sol desapareceu ao curvar-se perante a última árvore. Naquela noite repleta de estrelas inalcançáveis, o céu estava mais escuro do que o de costume. A cidade habitualmente inquieta, pela primeira vez, mostrou-se silenciosa enquanto os boatos do que aconteceu nas cercanias de Svartalfar consumiam a madrugada.
Sentada sobre os telhados enquanto abraçava as próprias pernas, Jeanice apoiou o queixo nos joelhos.
“Como os Cavaleiros conseguiram passar por Yothergran e chegar aqui? Ou melhor, eles passaram pela magia do Senhor Azlam… Não consigo dormir por me sentir insegura depois disso. Imagino que todos nós Impuros estamos assim… Um lugar que era pra ser nosso refúgio foi invadido…” 一 a cabeça deitou por completo na almofada improvisada.
Entre as árvores gigantes abrigando dezenas de casas ao redor de seus troncos, por cima de seus galhos altos, a garota encarou a ilha flutuante ao fundo que deslizava seguindo o fluxo da sua órbita.
“Ele… está lá agora. Quando será que vamos nos ver de novo? Espero que o Senhor Azlam volte logo… Se eu fosse um pouco mais forte. Um pouco mais rápida… A Ema ainda estaria viva e o Tejin…” 一 As unhas afiadas cravaram sobre as frestas das ataduras nos braços, mas não as moveu se autoflagelando como de costume…
“Eu tinha esquecido como as noites são quando estamos sozinhos…”
Levantando-se, Jeanice bateu as palmas sobre o traseiro e desceu cuidadosamente até a janela do seu quarto. O hábito de escalar árvores deixava essa tarefa bastante simples e, em poucos segundos, ela já estava lá dentro.
A janela fechou e as estrelas no céu continuaram a encarar o que restou abaixo delas. As luzes das casas pareciam tentar espelhar o espaço da sua própria maneira. Porém, a lua jamais poderá ser mimetizada. O seu brilho ressoava de forma pura e elegante, presente e distante, aconchegante, mas com um calor que não era seu.
Sob os olhos azuis de Tejin vidrados na mãe-da-noite, ele era a lua que acompanhava o seu próprio sol. Mas, o que restaria dela se o pai-do-dia deixasse de existir? Nesse cenário, a mimese era mais do que certeira. Não havia pensamento correndo em sua mente, apenas a lembrança viva de encontrar Ema pendurada naquelas condições. Ele via isso segundo após segundo, minuto após minuto, mas, ao mesmo tempo, não via nada.
O dia chegou, mas o sol não voltou para ele.
一 E-Ema… 一 sussurrava o nome da sua amada, não na esperança de vê-la de novo, mas com as únicas forças que restaram em suas memórias dolorosas.
No canto do quarto, já de pé, Kimich cerrou os olhos e abriu a porta. Fazendo o amigo flutuar com seu controle de energia, passou a carregá-lo até o salão.
一 Força, cara… Você vai sair dessa. Sei que vai… 一 Era difícil encará-lo por algum motivo, mas deixá-lo para trás nunca seria uma opção.
Descendo as escadas, chegou na área da recepção vazia. Já não havia a ruiva para atendê-los, oferecer comida ou conforto. Por isso, a franja do loiro tapou a sua testa cobrindo as dores palpitantes no seu coração.
Com cuidado, ele largou Tejin sentado ao redor da mesa. A porta do estabelecimento abriu e lá estava o mascarado com rosto de ave. Contudo, logo atrás dele havia uma figura menor, de orelhas grandes e espessas.
Ao entrarem, a porta foi lacrada por um círculo mágico esverdeado assim que o velho elfo girou o pulso.
一 E então, que tal vocês começarem me contando o que raios aconteceu em Balmund que fez vocês virem para cá? 一 A voz soou com o peso de uma ordem enquanto se aconchegou em uma das cadeiras.
Nas escadarias, Jeanice ouvia tudo como um fantasma.
一 Acho que seria mais prudente–
一 Calado. Não tenho o mínimo interesse em quem traz problemas para a terra dos outros. 一 Somente com o olhar, Azlam fez os ombros do Falcão vacilarem e os seus pulmões falharem.
一 Urf… Sinto muito, mas era a única escolha… para fugir do Demônio Encarnado 一 passando a mão pela garganta após começar a aliviar o sufocar, o homem apoiou-se com a outra palma na mesa.
一 Um Demônio Encarnado? Balmund conseguiu trazer um Demônio para a realidade?! 一 uma das mãos deslizou sobre a barbicha alongada sobre o queixo 一 Eu identifiquei o Beisen de um Demônio em um Cavaleiro que estava se escondendo no Entre Mundos, mas faz muito mais sentido ser uma passagem concedida por um verme diretamente.
一 Sim. É a Vigésima Oitava Estrela Negra, Berith, o Falso-Deus… 一 batucando com os dedos sobre a superfície da mesa, Kimich complementou.
一 Sobre isso, nós estamos montando um plano para enfraquecer e até mesmo matá-lo… 一 o mascarado retira três fragmentos de vidro rosa do bolso e distribui para Azlam, Kimich e Jeanice.
一 Nós? Quem caralhos são vocês? 一 levantando apenas uma das sobrancelhas, Azlam sequer tocou no caco.
一 É uma longa história, mas para resumir, nós não somos inimigos… Queremos dar um fim ao reinado de Liekkien, da Calamidade da Guerra que governa Balmund e, assim que conseguirmos, vamos tentar criar uma Wynward sem Calamidades… 一 suspirou enquanto voltava a observar o senhor com o canto dos olhos.
Mas, para a surpresa do Falcão, o velho não riu ou duvidou. Pelo contrário, ele permaneceu em silêncio. Por baixo da máscara, um pequeno sorriso de lábios se formou na feição do rapaz que continuou:
一 De acordo com as memórias de Kromslaing, o corpo de Berith é uma amálgama de carne enraizada por Beisen acumulado por uma década inteira. Seu corpo é tão denso energicamente em Trevas e Pecados, que seria impossível causar um arranhão nele sequer num combate direto, a menos que…
一 Tenha Gluhen Puro como o pirralho lá em cima. 一 O velho e o Alquimista falaram juntos, proferindo palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
一 Correto, mas não existe alguém com Gluhen Puro como Raisel à nossa disposição. Mas, nós encontramos um item recentemente em uma Ruína de Fornax, uma espada chamada Durandal. Ela é a nossa esperança.

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