Índice de Capítulo

    “Eu sempre acreditei que o meu Glanz não passava de uma ilusão barata. Um convite aos sonhos do inconsciente e do consciente, servindo como um alívio temporário da cruel realidade que tentamos fugir… Mas nunca como o tratamento adequado dela.” — Encarando a própria palma levantada em direção à luz da borboleta luminescente amarelada aprisionada no teto, Jeanice estava deitada em sua cama com um olhar distante.

    “Mas e se minha habilidade for mais do que isso? E se eu for capaz de, nem que seja um pouco, recuperar o espírito destruído das pessoas com a minha farsa…? Eu decidi brilhar como eles. Eu sei disso… Mas por que eu tenho tanto medo?” — O punho apertou-se fortemente, enquanto as unhas cravaram brevemente contra a palma pálida.

    O antebraço despencou contra o rosto, cobrindo os olhos junto da franja mal feita. Os lábios contorceram-se enquanto os joelhos ligeiramente dobrados e quase unidos subiram.

    “Não sei qual é o meu problema em pensar em tanta coisa inútil… Eu só… queria ser mais importante para eles.”

    Fora do quarto, o barulho de uma porta se abrindo ecoou pelas paredes finas da estalagem. Os passos do loiro passaram em frente à sua porta, mas seguiram rumo às escadas para o salão da recepção.

    Nesse instante, o coração da meia-elfa palpitou diferente. Não era coragem, mas um outro tipo de sentimento começou a perturbá-la ao ponto de fazê-la se levantar e caminhar, na ponta dos pés, para fora do cômodo.

    De frente para a porta, ponderou por um momento conforme a palma era paralisada por uma força maior, já diante da maçaneta. Porém, a coragem finalmente desceu pela sua garganta e o outro sentimento, até então indecifrável, revelou-se como o açucarado mel da esperança.

    Ela se esgueirou pela aresta como uma ladra e estacionou-se no topo das escadas ao visualizar Kimich junto de Tejin em uma das mesas. Mas, a entrada da estalagem se abriu para o Falcão e o Sábio Azlam chegarem.

    No fim da reunião entre eles, os olhos de Jeanice e de Kimich se encontraram. Ele sorriu com o olhar e, esse simples gesto antes de partir com o Falcão, foi como cristalizar o açúcar caramelizado que estava impregnado no seu peito.

    Por isso, a mestiça se ergueu, se dispôs à frente de Tejin e acreditou. Não que seria capaz de operar um milagre, mas, pelo menos, tinha fé na possibilidade da sua ação ajudá-lo de alguma maneira. Ela queria acreditar que o seu brilho também poderia salvar.

    “Glanz: Schwarzer Nebel!” — Exclamou mentalmente conforme os seus olhos vibrantes eram preenchidos pela luz azul-esbranquiçada assim como os de Tejin.

    Após todo clarão, o que consome o ambiente são as sombras. Na mente, esse padrão apenas se repete, pois quando a felicidade se vai, as barreiras para as tristezas deixam de existir.

    No breu imutável e pinicante entre partículas azuis, ardentes como fogo e congelantes como a falta de calor, alguém nu chorava enquanto encolhido nos próprios joelhos. O cabelo escuro, as orelhas pontudas e as curvas masculinas davam as evidências necessárias para saber quem era aquele.

    — “Tejin!” — Dentro daquele plano, Jeanice etérea gritou conforme corria para a sua direção.

    Antes de se aproximar do garoto que soluçava sem parar, o chão e o teto se inverteram. Ela despencou em direção aos céus, perfurando as nuvens e sendo envolta pela neblina daquele coração quieto.

    A vista rapidamente recuperou nitidez ao estar diante de um vilarejo. O formato das árvores e a cor da grama eram levemente escuras enquanto as casas eram feitas entre os galhos, folhas e vinhas da grande floresta.

    “Aqui é… algum lugar perto de Kanthen, ou é a própria Kanthen?” — Flutuando nos céus como um fantasma, a forma feminina azulada intuitivamente acompanhava com os olhos o movimento da vila tranquila.

    Foi quando ela notou a presença do mesmo garoto que choramingava na escuridão. Ele estava correndo alegremente com um bolsão repleto de ervas e flores, cruzando as trilhas e indo até as margens desse aglomerado de casas nas árvores.

    — Irmã! Você não vai acreditar! — subindo até a casa como um macaco, o menino sequer usou a escada para isso.

    De frente para a porta, abriu-a com o coração palpitante. Em contraste com a luz do fim da manhã, os cabelos negros com mechas brancas esvoaçavam sob a brisa invasora. Ela virou a cabeça e os dois olhos estavam divididos por uma imensa cicatriz cortando um lado ao outro do rosto.

    — Tejin, fale mais baixo… Desse jeito você vai me deixar surda. — Os dedos taparam as orelhas pontiagudas enquanto a voz saía sussurrante, mas com a mesma delicadeza de uma pétala de flor.

    — D-Desculpa. Me empolguei… — o rosto abaixou-se junto das orelhas conforme encarava a irmã com os olhos rendidos.

    Mas a mulher apenas sorriu e, com sua mão magra, afagou a bochecha do caçula. Os dedos amassaram a pele como uma pianista e passaram a se infiltrar entre os fios pretos como a noite.

    — Está tudo bem. Me diga, o que eu não vou acreditar? — ela também abaixou o rosto, mas o sorriso na sua feição podia ser visto mesmo de lado.

    Por outro lado, os lábios curvados de Tejin estabeleceram a sua confiança e o seu orgulho ao retirar uma pedra brilhante da sua bolsa.

    — Eu encontrei uma pedra brilhante transparente caída no meio do mato lá no lado oeste! Se vendermos isso, conseguimos finalmente comprar um Grün Stein pra curar seus olhos! — o tom naturalmente se elevou ao segurar a pedra preciosa com as duas mãos como um troféu.

    Mas, por mais que houvesse muita beleza nesse cristal, sua irmã sequer poderia vê-lo. O sorriso no rosto dela se desfez com um suspiro. As sobrancelhas subiram e se contraíram brevemente e os lábios forçaram algum riso. Levantando o semblante, voltou a acarinhar os cabelos do menino.

    — Isso é ótimo… Por que você não esconde a pedra aqui e vai até a cidade procurar alguém para comprá-la? — ela recolheu o braço e virou o rosto para a janela aberta do outro lado.

    — É uma ótima ideia! Mas antes, vou deixar a comida pronta pra você, tá bom? — Retirando a bolsa do ombro, Tejin deixou-a próximo à parede e foi até a cozinha no cômodo ao lado.

    Em silêncio, a moça apertou os lençois sobre as coxas e assentiu com a cabeça. Dos olhos que não são capazes de se abrir, lágrimas escorreram, mas Jeanice não pôde ver qual era a expressão dela naquele momento.

    O barulho das tigelas de madeira e talheres barro ecoaram diversas vezes. O cheiro da comida fresca se misturava com a lenha queimada do forno. Os estalos das chamas fracas uniram-se ao timbre sutil dos risos dos irmãos.

    No fim do almoço, ela beijou a testa dele na despedida e o menino partiu com o bolsão de ervas lotado, mas sem a preciosidade que permaneceu na casa.

    Com o mesmo entusiasmo da vinda, ele correu na ida. Mas, no outro dia, tudo o que ele encontrou foi uma grande quantidade de sangue escorrendo por entre as frestas do assoalho de madeira. Os arredores incendiados por um fogo descontrolado destacavam a cabeça arrancada, balançada de um lado para o outro pelas palmas verdes escuras daquelas criaturas.

    As risadas desses monstros eram como arranhar concreto com as unhas, mas os dedos de Tejin afundaram contra a grama enquanto suas pernas perderam as forças. Atrás dele, os outros mestiços que o seguiram e eram atraídos pela fumaça, chegaram para eliminar os Púcas. Nesse momento, o ódio ardente em seu coração foi estagnado, congelado como uma gigantesca montanha à espera de sua vingança.

    Jeanice foi atraída até os céus novamente enquanto a noite chegava. Dessa vez, aquele garoto nu estava mais velho, mas coberto de sangue verde e os olhos vazios daqueles que se perderam.

    De repente, naquele breu coberto de partículas brilhantes, mas intensas como uma nevasca, um fogo belo e pequeno como uma vela acesa surgiu. Essa vela tinha cabelos ruivos, gentis tal qual uma lareira e um calor acolhedor que, com o passar do tempo, derreteu o amontoado de pedras congelantes do seu interior.

    As partículas azuis se misturaram com as cinzas ardentes de Ema, mas outra vez, sua pedra preciosa foi tirada dele.

    — Eu que deveria ter morrido no lugar delas… Eu que deveria. Não sei porque você está aqui, Jeanice, mas tudo o que me mostrou apenas confirmou que eu devo morrer. — Ao lado dela, o homem encarava o horizonte com seus olhos completamente escuros.

    Sem saber o que dizer, ela ficou calada.

    — Você é uma pessoa gentil como o Raisel, como era a Ema. Eu tentei ser como vocês, mas tudo o que o destino me devolveu foi desgraça. Isso me deixou irritado quando a vi daquele jeito, mas, parando para pensar, não tem o porquê de resistir ao mundo. — Caminhando em frente, a paisagem à frente revelou-se como um penhasco à beira do abismo.

    — VOCÊ ESTÁ ERRADO! — exclamou a mulher enquanto o segurou pelo ombro — COMPLETAMENTE ERRADO…! — Os olhos dela estavam encharcados, mas o rosto consolidou-se com a indignação.

    Ele a encarou com as sobrancelhas levantadas. A expressão dela lembrou o rosto de Jinah enquanto viva e, por isso, ele começou a perder as forças nas pernas.

    — Essa gentileza, ou seja lá o que for, é algo que eu experimentei. Foi o que me deu forças pra tentar ser aceita, pra tentar seguir em frente… Você não pode desistir assim. Se você desistir, quem vai se lembrar da sua irmã… dos momentos que vocês passaram juntos. — O peito dela doía com as memórias do garoto, mas também, pelas lembranças da sua infância ao ser acolhida todas as manhãs pela senhorita Willy, a jardineira, nos subúrbios do Castelo Asdoth.

    Tejin fechou os punhos e encarou o abismo de soslaio.

    — Essas lembranças não valem de nada, Jeanice. Essas pessoas já se foram.

    Mas ela o abraçou ainda mais forte. Por ser maior do que ele, até mesmo as pernas se enrolaram para não dar chance dele continuar seguindo em frente.

    — Mas não é sobre as pessoas que se foram! É sobre… é sobre… continuar fazendo o bem mesmo sem elas! Manter… o legado! — A escuridão continuava a puxá-lo para o abismo até permanecer na beirada do penhasco.

    Em silêncio, ele ponderou as últimas palavras.

    — Manter o legado… Mas como eu vou fazer isso sendo que nem ao menos sei porque estou vivo? Eu não tenho propósito.

    — Ninguém tem! — rebateu a menina com as bochechas infladas — Por isso você precisa viver, descobrir seu propósito para depois pensar em encerrar tudo!

    Tejin encarou o abismo de frente e a escuridão lambeu os lábios, mas ele recuou um passo para trás, depois outro.

    — Entendi… O Raisel ainda pode precisar de mim. Obrigado. — ele encarou-a de soslaio com os olhos pesados, mas os lábios ligeiramente curvados.

    Após toda tempestade, vem a calmaria. Na calmaria, o sol se abre e o ofuscar revela a paisagem.

    A neblina azul-celeste desapareceu conforme revelava o salão da estalagem. De pé, Jeanice despencou de joelhos enquanto tinha o corpo repleto de rachaduras do mesmo tom luminoso.

    — Você foi bem, garota. Pode descansar… — Sentado em uma cadeira mais adiante, Azlam os observava.

    Sem forças sequer para respondê-lo, a visão da meio-elfa apagou.

    Regras dos Comentários

    • Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • Comentários ofensivos serão removidos.

    Para receber notificações, ative o sininho ao lado do botão de Publicar.

    Nota