— Bem… eu moro em Velastra — Vance disse. 

    Blaidd acenou com a cabeça. 

    — Não, não… por onde eu digo antes de Nova Aster. 

    A resposta morreu antes mesmo de chegar à boca de Vance. 

    Por um instante, ele apenas observou o movimento do pátio ao redor. Estudantes atravessavam os caminhos de pedra em todas as direções, grupos se reuniam próximos às árvores, risadas surgiam aqui e ali, tão naturais que pareciam pertencer àquele lugar desde sempre. 

    Até agora, praticamente ninguém ali havia perguntado de onde ele vinha. Os formulários da Academia já possuíam seus registros. Os funcionários pareciam saber quem ele era antes mesmo de ele abrir a boca. Ainda assim, dizer aquilo em voz alta parecia diferente. 

    Porque a Cidade-Ilha 31 não existia mais. 

    — Eu cresci na Cidade-Ilha 31. 

    Blaidd piscou. 

    A expressão relaxada permaneceu exatamente a mesma por alguns segundos. 

    E então desapareceu. 

    — Ah. 

    A resposta saiu mais baixa. 

    Vance percebeu imediatamente. 

    Ele conhecia o nome, claro que conhecia. Todo o continente conhecia. 

    Durante semanas a destruição da cidade havia ocupado transmissões, jornais e redes de informação. 

    Blaidd desviou os olhos por um momento. 

    — Certo… então você estava lá. 

    Não foi uma pergunta.  

    O silêncio que seguiu durou alguns segundos. 

    Curiosamente, não foi um silêncio desconfortável. 

    Parecia mais alguém tentando encontrar as palavras certas. 

    — Eu vi algumas reportagens — disse Blaidd por fim. — Não muitas. Minha mãe me proibiu de assistir depois da terceira. 

    Vance soltou uma leve risada. 

    — Talvez ela esteja certa. 

    — Quem sabe… 

    O vento atravessou o pátio, movimentando as folhas das árvores espalhadas pelo campus. 

    Blaidd permaneceu observando os estudantes ao redor. 

    — Sabe, eu meio que já imaginava. 

    Vance virou o rosto. 

    — Imaginava? 

    Blaidd deu de ombros. 

    — É bem obvio — ele riu — você tem cara de assustado. 

    — Ah, então é isso — Vance desviou o olhar. 

    Blaidd enfiou as mãos nos bolsos. 

    — Foi mal, só pensei alto. 

    Era estranho. 

    Blaidd parecia o tipo de pessoa que passava o dia inteiro fazendo piadas e dormindo nas aulas. 

    Mas, de vez em quando, soltava comentários no mínimo suspeitos. 

    Os dois caminharam em silêncio por alguns metros 

    Então Blaidd parou abruptamente. 

    — Achei. 

    — Achou o quê? 

    — O objetivo da nossa jornada. 

    Vance seguiu a direção apontada. 

    Uma pequena construção ocupava parte do pátio lateral. O local estava cercado por estudantes e o aroma que saía dali era forte o suficiente para competir com o cheiro das flores espalhadas pelo campus. 

    — É uma lanchonete. 

    — É a melhor lanchonete. 

    — Você estudou aqui por quanto tempo mesmo? — Blaidd perguntou. 

    — Umas 2 horas talvez 

    — E já sabe qual é a melhor? 

    — Instinto. 

    Vance passou por um grupo de estudantes sem sequer diminuir o ritmo, como alguém guiado por alguma força sobrenatural extremamente específica. 

    — Instinto é uma palavra bonita para “sinto cheiro de comida a quilômetros de distância”. 

    — E qual o problema? 

    — Nenhum, vá em frente. 

    A fila diante da lanchonete era enorme. 

    Centenas de alunos ocupavam as mesas espalhadas pelo pátio, conversando, estudando ou simplesmente aproveitando o intervalo. O cheiro de pão recém-assado, e alguma coisa frita pairava no ar, misturando-se ao perfume das árvores e ao movimento constante da Academia. 

    Vance observou os painéis acima do balcão. 

    E imediatamente se arrependeu. 

    Os cardápios estavam cobertos por nomes que ele nunca tinha ouvido. 

    Bebidas estranhas. 

    Lanches estranhos. 

    Sobremesas estranhas. 

    Tudo parecia ter sido inventado apenas para dificultar sua vida. 

    — Eu não conheço metade dessas palavras, ou melhor, quase nada. 

    — Normal. 

    — Normal? 

    — Eu também não. 

    Vance apontou para um dos itens. 

    — Então por que você está tão tranquilo? 

    — Porque eu sempre peço a mesma coisa. 

    — E funciona? 

    — Ainda estou vivo. 

    — De fato. 

    Blaidd abriu um sorriso satisfeito. 

    Quando finalmente chegaram ao balcão, o garoto pediu seu lanche sem sequer olhar para o menu. Claramente já havia tomado aquela decisão antes mesmo de sair da sala. 

    Vance acabou apontando para exatamente a mesma coisa. 

    Alguns minutos depois os dois já estavam sentados em uma mesa próxima às árvores do pátio. 

    Em uma das mesas próximas, um grupo inteiro parecia estar comparando relatórios acadêmicos. 

    Vance observou a cena por alguns segundos. 

    — Eles realmente fazem isso durante o intervalo? 

    Blaidd seguiu seu olhar. 

    — Sim. 

    — Por vontade própria? 

    — Os assustadores são os que fazem por diversão. 

    Vance soltou uma pequena risada. 

    — Estou começando a entender por que você dorme durante as aulas. 

    Por um instante os dois apenas comeram em silêncio. 

    Então uma voz surgiu próxima. 

    — Vaedrin. 

    Os dois ergueram os olhos. 

    O rapaz da primeira fileira estava parado ao lado da mesa. 

    O mesmo que organizava canetas por tamanho. 

    De perto ele parecia ainda mais impecável. O uniforme estava perfeitamente alinhado, não havia um único fio de cabelo fora do lugar e sua postura continuava tão reta que parecia desconfortável. 

    Blaidd suspirou. 

    — Ah não. 

    — O que foi? 

    — Ele me encontrou. 

    O recém-chegado ignorou completamente o comentário. 

    Seu olhar passou rapidamente por Vance antes de voltar para Blaidd. 

    O rapaz permaneceu parado ao lado da mesa, as mãos atrás das costas e a postura tão rígida que parecia ter sido construída com réguas. 

    Seu olhar permaneceu fixo em Blaidd. 

    — Não pense que por ser um Vaedrin vai se safar. 

    Blaidd apoiou o cotovelo sobre a mesa. 

    — Você dormiu durante a aula inteira. 

    — Tecnicamente eu acordei em algumas partes. 

    O recém-chegado fechou os olhos por um segundo, como alguém reunindo forças para não cometer um crime. 

    — Marcus explicou conceitos fundamentais para o restante do semestre. 

    — E eu absorvi tudo por osmose. 

    — Isso não existe. 

    — Hmmm… quem sabe? 

    Vance olhou para Blaidd e segurou a risada. 

    — Você sempre faz isso? — perguntou Vance. 

    — Faz o quê? — respondeu Blaidd. 

    — Irrita as pessoas. 

    — Sim. 

    — Ele admite com orgulho — comentou o outro. 

    — É um talento natural. 

    O garoto soltou um suspiro longo. 

    Então finalmente voltou sua atenção para Vance. 

    Os olhos dele analisaram o garoto por alguns segundos. 

    — Você é novo. 

    — Isso foi uma pergunta? 

    — Não. 

    — Ah… 

    — Reon Corven. 

    Ele estendeu a mão. 

    Vance apertou. 

    — Vance Morren. 

    Por um instante algo pareceu mudar na expressão de Reon. 

    Muito pouco. 

    Apenas um leve movimento dos olhos. 

    — Morren… 

    Ele repetiu o sobrenome como se estivesse tentando lembrar de alguma coisa. 

    Então abandonou o pensamento. 

    — Prazer. 

    Blaidd observou os dois. 

    — Tome cuidado com ele, Vance. Apenas um aviso. — Reon disse. 

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