Capítulo 29: Blaidd Vaedrin
— Você entendeu alguma coisa?
A pergunta foi feita de maneira tão honesta que Vance demorou alguns segundos para responder.
Seu olhar ainda estava preso às palavras restantes no quadro.
Elas pareciam importantes.
Muito importantes.
O problema era que ele não fazia ideia de quanto havia realmente compreendido.
— Não muito — admitiu por fim.
O garoto ao lado soltou um pequeno som que parecia uma mistura de risada e suspiro.
— Ah, ótimo.
Vance virou o rosto.
— Ótimo?
— Significa que eu não sou o único.
O rapaz se espreguiçou na cadeira, os ombros estalando enquanto finalmente se sentava direito. De perto parecia ainda mais cansado do que antes. Os cabelos claros continuavam bagunçados em todas as direções possíveis e havia uma marca vermelha atravessando parte da bochecha por ter passado a aula inteira apoiado sobre a mesa.
— Achei que todo mundo aqui já soubesse disso.
Vance observou a sala.
Ele se sentou direito pela primeira vez durante toda a aula e estendeu a mão.
— Blaidd Vaedrin.
— Vance Morren.
— Certo, Vance, versão resumida.
Blaidd apontou para o quadro.
— Tamanho é literalmente o tamanho do Fluxor e densidade é quanta energia cabe dentro dele.
Vance piscou algumas vezes.
— E sobre os caminhos você não precisa entender necessariamente a teoria, é só decorar o que os 8 fazem.
— Só isso?
— Basicamente.
Blaidd deu de ombros.
— Não adianta nada ter um Fluxor gigante se ele não for denso.
— Então o professor levou duas horas para explicar isso?
— Exatamente.
Vance ficou em silêncio. Ele pensou em como essa informação ficou escondida dele em todos os seus grandes 8 anos de vida.
Na verdade ele até achava impressionante como os alunos, a maioria na mesma faixa etária, entendiam ou pelo menos já tinham uma ideia disso.
A educação de Aster era realmente impressionante.
— E todo mundo aqui já sabia? — Ele perguntou tentando confirmar se realmente era ele quem estava atrasado.
Blaidd olhou ao redor da sala.
— Metade sim.
— A outra metade pelo menos já ouviu falar.
Aquilo arrancou uma pequena risada irônica de Vance.
— E você? Não tinha acabado de falar que não entendeu nada?
— Do jeito que o professor explicou, até eu mesmo duvidei se entendia.
— Mas você não estava dormindo?
— Aaah, chega de perguntas — Blaidd disse enquanto se deitava novamente na mesa.
Vance observou o garoto por um instante.
— Haja sono.
Blaidd então se levantou novamente.
— Mas acordei na parte importante.
— Qual?
— A da genética.
Ele apoiou o queixo na mão.
— Sempre gosto de saber exatamente quem eu sou.
Blaidd sustentou o olhar de Vance por alguns segundos antes de dar de ombros.
— É sério.
A mão dele apontou para o quadro, especificamente para a palavra genética ainda parcialmente visível entre os restos de giz que Marcus não havia apagado.
— Todo mundo gosta de fingir que esforço resolve tudo.
Ele apoiou a cabeça sobre a mão.
— Mas quando você descobre que existe um sujeito com um Fluxor três vezes maior que o seu e densidade cinco vezes melhor, fica difícil continuar acreditando nisso.
Vance permaneceu em silêncio.
Blaidd abriu um sorriso.
— É a vida.
Alguns alunos próximos começaram a deixar a sala. O som das cadeiras sendo empurradas e mochilas sendo recolhidas voltou a preencher o ambiente.
Vance observou a movimentação.
— E você sabe qual é a da sua genética?
— Não.
— Não?
— Não faço a mínima ideia.
Blaidd cruzou os braços atrás da cabeça.
— Minha família sempre escondeu isso de mim.
Aquilo arrancou uma risada involuntária de Vance.
— Muito simpáticos — ele sorriu.
— Muito…
Por um momento os dois apenas observaram os alunos saindo da sala.
A garota que estava lendo durante toda a aula já havia desaparecido.
O rapaz da primeira fileira continuava organizando seus materiais com uma disciplina quase militar.
Blaidd acompanhou o olhar de Vance.
— Aquele ali.
— O que tem ele?
— Aposto cinco Lumis que está entre os três mais fortes da turma.
— Como você sabe?
— Pessoas normais não organizam canetas por tamanho. Ele vem de uma família rígida.
Vance olhou novamente.
As canetas realmente pareciam estar organizadas por tamanho.
— Talvez ele só goste de organização.
— Pois eu duvido.
O comentário arrancou outra risada.
Pela primeira vez desde que entrara na Academia, a tensão nos ombros de Vance diminuiu um pouco.
Talvez porque finalmente estivesse conversando com alguém que parecia tão humano quanto ele.
Alguém que dormia durante a aula.
Alguém que fazia piadas.
Alguém que claramente não parecia um daqueles prodígios continentais capazes de memorizar trezentas páginas de teoria antes do café da manhã.
Ou pelo menos era o que aparentava.
— Então — disse Blaidd de repente, levantando-se da cadeira. — Qual é a próxima aula?
Vance pegou o documento estudantil e observou a sequência interminável de códigos, números e siglas.
— Eu não faço ideia.
— Não é aí que se vê as aulas — Blaidd observou enquanto segurava uma gargalhada gigante — Olha… você pelo menos sabe o que são esses números?
— Hm? — Ele olhou nitidamente confuso.
— Meu Deus….
Blaidd pegou a própria mochila e a lançou sobre um dos ombros.
— Acho que agora temos um intervalo.
Vance abriu um sorriso satisfeito.
— Já?
Blaidd já estava de pé quando Vance ainda encarava o documento como se ele fosse mudar de significado se olhado por mais tempo.
— Isso aqui devia ser proibido — murmurou Vance.
Eles saíram da sala junto com o fluxo de alunos. O corredor da Academia Central era mais barulhento do que a sala jamais tinha sido. Vozes cruzadas, passos apressados, e pequenos grupos discutindo termos que Vance ainda não conseguia sequer reconhecer sem esforço.
Blaidd caminhava sem pressa, desviando das pessoas com uma naturalidade irritante.
— Então… intervalo — ele disse, como se estivesse provando a palavra na boca. — Isso significa comida.
Vance não discutiu. Ainda estava absorvendo o fato de que ninguém parecia realmente perdido ali… exceto ele.
Ao passarem por um arco largo de pedra clara, o corredor se abriu em um grande pátio interno. Árvores baixas cresciam entre bancos de madeira, e uma estrutura circular no centro distribuía estudantes para diferentes direções.
O cheiro de pão quente e algo doce vinha de algum lugar à direita.
Blaidd seguiu andando até um dos bancos e jogou a mochila no chão como se estivesse em casa. Em seguida, inclinou a cabeça para trás, encarando o céu parcialmente visível entre as estruturas.
— Então… Vance Morren.
— Sim?
— De onde exatamente você é?

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