Reon se afastou sem esperar resposta. 

    Em poucos segundos sua figura já havia desaparecido entre os estudantes que cruzavam o pátio em todas as direções, deixando apenas Blaidd observando suas costas com uma expressão cansada. 

    — Vocês parecem se conhecer faz anos. 

    Blaidd girou o copo entre os dedos. 

    — Essa é a parte engraçada. Não conheço. 

    Vance ergueu uma sobrancelha. 

    O garoto deu de ombros. 

    — Nossas famílias sabem quem o outro é. Ele sabe quem eu sou. Eu sei quem ele é. Crescemos ouvindo os mesmos nomes em reuniões chatas e eventos ainda mais chatos. E agora estamos na mesma sala. É basicamente isso. 

    Vance observou o local onde Reon havia desaparecido. 

    Aquilo explicava alguma coisa. 

    Ao redor deles o intervalo seguia seu curso normal. Grupos atravessavam o pátio carregando bandejas, alguns discutiam resultados de exames, outros pareciam muito mais interessados em qualquer coisa que não fosse estudar. O cheiro de comida continuava pairando no ar enquanto o som constante de centenas de conversas formava um ruído distante e quase agradável. 

    Foi então que Vance pegou o copo escuro deixado ao lado de sua bandeja. 

    O líquido era negro e quente. 

    Ele o observou por alguns segundos antes de falar. 

    — O que é Lumis? 

    Blaidd virou o rosto. 

    — Hm? 

    — Você falou isso antes. Na sala. 

    — Ah. 

    Por um momento ele apenas encarou Vance. 

    Depois apoiou lentamente o copo sobre a mesa. 

    — Espera. 

    — O quê? 

    — Você não sabe o que é Lumis? 

    Vance balançou a cabeça. 

    A expressão de Blaidd mudou imediatamente. 

    Não para surpresa. 

    Para realização. 

    A mesma expressão de alguém que acabara de descobrir algo extremamente importante. 

    — Você realmente veio de longe. 

    Vance observou enquanto ele passava a mão pelos cabelos. 

    — Lumis é dinheiro. 

    — Só isso? 

    — É o sobrenome da família que fundou. 

    Vance ficou alguns segundos em silêncio. 

    Blaidd ainda observava o copo escuro em sua mão. 

    — Agora eu preciso saber. 

    — Saber o quê? 

    — Você pelo menos sabe o que está bebendo? 

    Vance ergueu o recipiente. 

    — Não. 

    A resposta saiu tão naturalmente que Blaidd fechou os olhos. 

    — Incrível. 

    — O quê? 

    — Você conseguiu sobreviver até hoje sem saber o que é dinheiro e sem saber o que é café. 

    Vance olhou novamente para o líquido. 

    — Isso é café? 

    — Isso é literalmente café. 

    O garoto permaneceu alguns segundos encarando a bebida. 

    O nome parecia familiar. 

    Familiar demais. 

    Então algo finalmente se conectou dentro da sua cabeça. 

    — Espera. 

    Blaidd já estava sorrindo. 

    — Ah não. 

    — Café… 

    — Sim. 

    — Café da manhã? 

    O sorriso de Blaidd aumentou. 

    — Sim. 

    Vance ficou olhando para o copo. 

    Depois para o pátio. 

    Depois novamente para o copo. 

    Durante anos ouvira aquela expressão praticamente todos os dias. 

    Café da manhã. 

    Era uma daquelas coisas tão comuns que ninguém nunca explicava. 

    — Então o nome existe por causa disso? 

    — Porque as pessoas tomavam café pela manhã, sim. 

    Vance soltou uma risada incrédula. 

    — Eu nunca vi ninguém tomar isso antes. Na verdade, o que eu via era chá. 

    — Existe também.  

    Finalmente ele levou o copo aos lábios. 

    O gosto amargo atingiu sua língua no mesmo instante. 

    A reação veio antes mesmo que pudesse controlar. 

    Seu rosto se contraiu e seus olhos se fecharam. 

    E por um segundo ele cogitou seriamente que alguém estivesse pregando uma peça coletiva em todo o continente. 

    Blaidd quase caiu da cadeira de tanto rir. 

    — Isso é horrível. 

    Blaidd apontou para os prédios da Academia que se erguiam acima das árvores do pátio, para os estudantes carregando pilhas de livros, para os grupos discutindo relatórios durante o próprio intervalo e para a multidão inteira que parecia viver em um estado permanente de exaustão. 

    — Olhe ao redor. 

    Vance olhou. 

    Vance acompanhou a direção apontada por Blaidd. Agora que estava prestando atenção, começou a perceber um padrão. 

    Professores carregavam copos. 

    Funcionários carregavam copos. 

    Estudantes dos anos mais avançados carregavam copos. 

    Alguns caminhavam pelos corredores segurando canecas metálicas. Outros mantinham recipientes térmicos presos às mochilas. Havia até um grupo próximo a uma fonte discutindo alguma coisa enquanto cada um segurava uma versão diferente da mesma bebida escura. Em compensação, entre os alunos mais jovens aquilo era muito menos comum. Os novatos carregavam refrigerantes, sucos, água ou qualquer outra coisa que parecesse remotamente agradável. 

    — E porque você toma? — Vance perguntou

    — Simplesmente gosto do sabor.

    Vance balançou a cabeça e empurrou o copo alguns centímetros para longe. 

    Aquilo definitivamente não era para ele. 

    Pelo menos ainda não. 

    O restante do intervalo passou sem muita pressa. 

    Os dois continuaram observando o movimento do campus enquanto a multidão lentamente mudava de comportamento. As conversas começaram a encurtar. Algumas mesas foram esvaziando. Estudantes passaram a recolher livros e mochilas. Pequenos grupos se levantavam ao mesmo tempo e desapareciam pelos corredores que conectavam os diferentes setores da Academia. 

    A mudança aconteceu tão gradualmente que Vance só percebeu quando um som grave ecoou pelo campus. 

    Não era exatamente um sino. 

    Parecia mais uma nota longa produzida por algum mecanismo escondido entre os prédios. 

    Ao redor deles, dezenas de alunos começaram a se mover imediatamente. 

    — Esse é o sinal? — perguntou Vance. 

    — Infelizmente. 

    Blaidd terminou o restante da bebida de uma vez e se levantou com a expressão de alguém condenado a retornar ao trabalho. 

    — Eu estava começando a gostar do intervalo. 

    — Ah. 

    — O quê? 

    — Eu estava errado. 

    — Sobre o quê? 

    — Não era um intervalo normal. 

    Vance sentiu um leve aperto no estômago. 

    — Blaidd. 

    — Sim? 

    — O que isso significa? 

    — Significa que nossa próxima aula fica do outro lado da Academia. 

    O silêncio durou exatamente um segundo. 

    Então os dois começaram a andar. 

    Depois aceleraram. 

    E depois aceleraram mais ainda. 

    E de repente estavam correndo o mais rápido que podiam. 

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