Capítulo 100 - O que resta após as cinzas
Envolto por um abraço, o choro mudo de Hiromi Miyazaki trazia de volta o dia em que seu corpo cedeu ao trauma.
O Salão de Fogo mergulhava na penumbra de duas tochas presas às paredes, destacando o que se desenrolava no centro do piso de madeira.
Aos poucos, o cair das lágrimas cedia. Aquele contato físico fazia exatamente o que ela precisava sem que soubesse: desacelerava, como se o sentimento de uma pessoa conseguisse, por aproximação, regular o da outra.
— Com quem você aprendeu a abraçar assim? — perguntou Hiromi, com a voz baixa e um pouco rouca, mas dotada do traço de leveza que era genuinamente dela, mesmo nos momentos difíceis.
— Meu avô — respondeu Akemi, nostálgico — ele sempre me abraçava quando eu me sentia perdido. Às vezes não era preciso dizer nada, só ficar assim. De alguma forma, isso desacelera tudo de dentro de mim… os pensamentos, o coração, até o medo ficava mais devagar — o garoto afastou-se do abraço e apoiou as mãos nos ombros da jovem, repassando confiança no olhar. — Eu demorei pra entender por que isso funcionava, mas acho que é porque era a prova de que alguém estava ali. Quando se está perdido, saber que não está sozinho já é metade do caminho de volta.
Hiromi não respondeu imediatamente.
Akemi mantinha-se apoiado nela, seu rosto era sério. — Você viveu tudo isso. Sentiu cada detalhe. E está aqui, de pé, me contando. Isso não é pouca coisa, Miya. A maioria das pessoas não chega na outra margem depois de uma perda assim, mas você chegou. Hoje você é uma pessoa poderosa e com intenções nobres, e a razão disso está em tudo que sua mãe plantou em você antes de partir. O legado dela não virou cinzas com ela, ele se transformou em você.
Entre o encantamento e o choque, Hiromi ouviu verdadeiras ditas de um jeito que nunca esperou. Os olhos verdes piscaram algumas vezes, atônitos.
Akemi soltou-se da garota quando percebeu o silêncio da própria fala, seu rosto virou um pimentão. — E-epa! Eu não quis soar presunçoso! Não tenho ideia do que sua mãe era de verdade, só sei o que você me contou, então não deveria ter falado assim como se soubesse…! Você certamente já sabe de tudo isso muito melhor do que eu poderia resumir… Perdão, foi-
— Tá tudo bem — interrompeu.
Akemi travou.
Hiromi emitiu um riso baixo e curto. O choro parou. — Você falou bonito. É que… — continuou, olhando para o tatame entre os dois — eu cresci sob treinamentos rigorosos. Minha mãe me ensinou a ler um campo de batalha antes de me colocar em um, me ensinou como o fogo queima antes de usá-lo. Mas… nunca tivemos tempo de chegar na segunda parte. Nenhum treinamento me mostrou o que fazer quando o pior acontece.
O breve silêncio ressaltou a honestidade sem auto-comiseração1 de Hiromi.
— A morte da minha mãe foi a primeira vez que perdi algo que realmente me importava. Ela me avisou. Muitas vezes. Disse que a realidade um dia me obrigaria a escolhas difíceis, que eu precisaria estar pronta para o que viesse. Mas entendo agora que não existe estar pronta para isso. Pode-se treinar a vida inteira, dominar cada forma, cada técnica, cada nuance do universo… nada muda quando a perda chega de verdade.
Akemi escutava sem interrupção.
— Ela me ensinou a ver o mundo, a encontrar beleza até nas coisas que causam dor. Mas existiam ensinamentos que ainda viriam, detalhes que apenas a vida adulta esclareceria com o tempo. As conversas viriam quando eu fosse mais velha… Só que a morte dela interrompeu esses encontros de uma vez.
A última frase doeu no peito.
— E o seu pai? — perguntou Akemi, cuidadoso. — Masaru é uma pessoa inteligente, e como professor, ele certamente entende o mundo de formas que a maioria das pessoas nem alcança.
— Ele é uma boa pessoa. Sempre foi… Às vezes aparecia durante meus treinos. À noite, assumia a cozinha e preparava aquelas receitas antigas que a minha mãe adorava. Ela também queria tentar, mas ele sempre tomava a frente e dizia que uma panela sacrificada já bastava à casa. — Um sorriso fraco cruzou o rosto por um segundo. — Depois que ela se foi… ele nunca mais voltou ao que era. A Família Miyazaki, embora valorize muito a mulher como força central, nunca deixou que ele esquecesse que foi ela quem o salvou naquela noite e não o contrário. Ele sentiu isso por anos, a culpa de não ter conseguido protegê-la.
Akemi baixou a cabeça e não disse nada.
— Com a recomendação dos familiares, ele me colocou no Instituto Taira. Na época, eu não via como uma decisão ruim mesmo entrando no último ano de formação… eu sabia me portar — acrescentou, sem amargura. — O Instituto tinha quem eu queria evitar, certas pessoas de certas famílias cujos nomes davam náusea… isso não me ajudava a ter coragem pra conhecer outros alunos, então, acabei tendo poucos amigos e uma certa fama por conta do meu sobrenome e desempenho em Taira. Só que aquilo tinha pouco valor para mim.
— O que seu pai fazia enquanto você ficava no Instituto?
— Ficamos cada um num extremo. Eu me isolando por não saber lidar com a perda, e ele rejeitando a própria dignidade por ter sobrevivido. Dois egoístas, não é? — satirizou, mas o tom não escondia o quanto aquilo doía.
— Posso entender a dor de vocês — disse Akemi, pesando as palavras — e pra mim, pelo que você me contou, sua mãe fez o que fez porque era exatamente o que ela escolheu. O sonho dela era radical, sim. Assustadoramente grande. Mas acho que pessoas assim não vivem com arrependimento. Elas vivem com convicção, e morrem com ela também. E quem fica carregando a culpa por não ter impedido o inevitável acaba desgastando o legado que elas deixaram.
Hiromi ficou olhando por um momento mais longo do que o habitual. Ela concordava com aquelas palavras, mas queria preservá-las. — Não diga isso ao meu pai tão cedo. É um assunto muito delicado ainda.
Akemi ergueu as mãos em um gesto conciliatório. — Prometo que não digo nada.
Ela assentiu levemente.
A quietude caiu entre os dois. Os casos mais complexos já foram esclarecidos.
Akemi aproveitou o espaço. — Posso te perguntar uma coisa sobre sua mãe?
— Pode.
— A Aura Eterna dela… era absurda. No fim da luta, quando segurou aquela explosão pra proteger todo mundo. Aquilo foi muito além do instinto. Acho que foi por isso que eu me identifiquei tanto com ela… Miya… tem uma coisa que eu queria te contar. Durante o treino da instrutora Shimizu, quando tentei usar a minha eletricidade contra a Rin… aconteceu uma coisa meio estranha. Na hora eu nem ponderei direito, mas desde aquele dia, aquilo não saiu da minha cabeça.
Hiromi inclinou a cabeça.
— Minhas faíscas não eram puxadas pela gravidade da Rin da forma que deveriam — continuou o garoto — e pela reação do meu próprio núcleo áurico somado às vezes em que enxergo o mundo em câmera lenta… suspeito que minha aura também seja especial, assim como a da sua mãe.
A expressão de Hiromi foi receptiva à hipótese. — A eternidade áurica tende a se manifestar com maior clareza à medida que o núcleo amadurece. O que você descreveu tem pistas interessantes, mas o vazio da Rin é de natureza incerta, e a resistência de certas auras a ele pode ter explicações além da eternidade — repentinamente, um detalhe veio à cabeça. — Você andou lendo os livros que recomendei?
— Sim, bastante. Eles ajudaram a construir uma ideia inicial de como usar a aura elétrica de formas que Yura nunca deu espaço. Na prática, os treinos aqui até agora pediram muito mais do físico do que poder áurico em si, e eu… — ele massageou o braço — eu ainda não tenho muita certeza de como controlar o que tenho. Porém, eu quero testar mais. Quero entender melhor o que a minha aura faz de verdade, não só nos treinos guiados. E… esperava que você me ajudasse nisso. Se quiser.
Hiromi cruzou os braços, feito uma mestra que recebeu um pedido esperado. — Primeiro de tudo, não subestime o corpo. Nunca. A aura amplifica o que o físico constrói, um núcleo poderoso num corpo fraco é força abundante num recipiente quebrável.
Ele abriu a boca.
— Porééém… — antecipou Hiromi — você não precisa se preocupar tanto. O próximo evento da ASA pedirá tudo do que os treinos áuricos têm construído até aqui, daí você terá oportunidade de sobra pra saber o que sua aura realmente é.
Akemi endireitou a postura. — Operação: Floresta Estelar.
— Sim.
O nome soou com uma relevância específica: esperançosa mas perigosa.
— Fico animado, mas também fico receoso. Tudo que ouvi sobre a Floresta foi um nível de imprevisibilidade que não sei se fomos preparados.
— A Floresta é o melhor ambiente para aprender o comportamento áurico em estado puro. Lá habitam seres áuricos que são a manifestação mais primitiva da energia áurica deste mundo, e quem entende que o aprendizado real está na observação deles evolui de uma forma que nenhuma academia reproduz…
“Então as respostas podem estar neles…” A perspectiva de Akemi finalmente vislumbrava a direção de algo que buscava. — Você… me ajudará lá dentro?
— Claro que sim! — confirmou, animada. Depois, levantou um dedo. — Mas entenda uma coisa. Seres áuricos são altamente imprevisíveis e instintivos. Eles só enxergam energia, e a energia do medo e a energia da curiosidade para um ser áurico muitas vezes são indistinguíveis. Se encontrar um no momento errado e na condição errada, sem compreender o que sua própria aura projeta no ambiente, pode ser o fim da sua jornada.
— O fim da jornada… — repetiu Akemi, analisando — e a segurança? A ASA levará isso em conta?
Hiromi já esperava aquela pergunta. Ainda assim, conservou a serenidade que jamais abandonava seu semblante até mesmo nos assuntos mais sérios. — Essa é justamente a questão que teremos pouco tempo pra descobrir…
O silêncio que tomou o salão jamais trouxe desconforto. Akemi já reconhecia o futuro cheio de mistérios, e naquele intervalo, outra lembrança ocupou seu pensamento:
“As páginas rasgadas.”
A Enciclopédia das Grandes Nobres que existia em sua casa trouxeram registros da família Miyazaki, feitos de Naomi, batalhas vencidas, cargos conquistados… então, o vazio. Bem onde estaria a história do matriarcado, surgiam folhas arrancadas, levando consigo o relato de sua ascensão e seu desaparecimento.
Naquele dia, a conclusão parecera simples. Isao aparecia como único responsável. O livro passara anos sobre uma estante alta, distante do alcance de qualquer criança, e o próprio velho confiscara o volume pouco tempo depois, sob a justificativa de que aquele tipo de leitura não servia para sua idade. Akemi aceitara aquela resposta sem resistência. Crianças costumavam transformar o silêncio dos adultos em verdade.
Mas a conversa sob a noite do dojo mudou o significado daquela lembrança.
“Ela suspeitou que alguém os levou àquele quartel.”
A ideia suposta por Naomi voltava à mente de Akemi. A névoa não foi acaso. O quartel permanecia escondido entre árvores conhecidas apenas pelos oficiais mais graduados de Asahi, ninguém possuía o mapa completo. Superiores variados guardavam partes separadas do segredo.
Mesmo assim, o Czar encontrou o caminho.
Alguém reuniu cada fragmento, entregando o destino do quartel ao inimigo.
Uma traição.
E justamente as páginas arrancadas pertenciam à história de Naomi.
“Por quê?”
A pergunta, embora ganhasse contornos inquietantes, seguiu sem resposta. Durante décadas, seu avô foi dono de uma usina hidrelétrica. À primeira vista, o cargo parecia distante das grandes famílias áuricas, dos marechais e das guerras que moldavam Asahi. O ódio pelo militarismo só acrescentava o distanciamento. Todavia, aquela usina integrava uma rede estratégica sob domínio do governo. Redes significavam informações. Informações significavam acesso. Acesso significava segredos que poucos sequer imaginavam.
Quantos deles passaram por suas mãos? E quantos mereceram desaparecer antes que olhos curiosos os encontrassem?
Akemi abandonou qualquer tentativa de encaixar todas as peças. Seu raciocínio alcançava um limite, e forçar respostas apenas produziria suposições vazias. Ainda assim, uma certeza silenciosa ocupou o espaço onde antes existia a mera curiosidade.
As páginas jamais desapareceram por descuido. Seu avô provavelmente conhecia uma verdade, e escolheu sepultá-la muito antes que um certo alguém tivesse idade suficiente para procurá-la…
A partir dali, os dias seguintes estariam lotados de dúvidas e mistérios a serem desvendados…
- sentimento de autopiedade ou pena excessiva de si mesmo[↩]

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