Capítulo 117 — Homem de Fé
O grupo de Ryruka ainda não fazia ideia de que era observado, exceto as irmãs gêmeas, que optaram por não os alertar naquele momento. Elas agiam naturalmente, esperando o momento certo chegar. Os convenceram a caminhar pela cidade para desfrutar da beleza local. Assim, não levantariam suspeitas e se manteriam em movimento e seguros. A estratégia funcionou. Nenhum dos demais suspeitou de algo.
— Essa cidade parece mais calma do que as outras. — disse Yujiro, observando os arredores. — Não sei se é pelas pessoas ou pela falsa sensação de paz. Eu tenho certeza de que estamos em território imperial, por isso que essa cidade é tão segura.
Ele odiava admitir que, mesmo estando sob a proteção do Império, aquela cidade estava a salvo. Ele poderia até se convencer disso, se não tivesse visto outros lugares e percebido como o Império era opressor com as cidades mais distantes.
— Como essa cidade se chama? — perguntou Yujiro. — Não parece ser um grande polo comercial. Ao que parece, estamos numa cidade bastante comum. Por que o Império protegeria esse lugar? Que estranho…
— Ah, essa é a cidade de Arcadia. — respondeu Edgar, caminhando distraído. — Ela é mais voltada para a religião e para trabalhos cooperativos do que para outras atividades. O Império a acolheu por ser a casa de um dos Capitães: o Bispo.
Ele então parou e os olhou sorridente. Os outros pararam e o questionaram.
— Se essa é a cidade natal do Bispo, ele pode estar aqui agora mesmo. A Pombo disse que sentiu a presença de quatro Manifestadores, e só estamos seguindo um. Um deles, sem dúvidas, é o Bispo. Eu tenho quase certeza disso.
— Agora que você falou, isso pode ser uma opção, mas o problema é saber qual dos quatro é realmente quem procuramos. Podemos dar de cara com o Andrus ou com qualquer outro Manifestador se não tivermos cautela. — disse Erika, apreensiva. — Não podemos nos expor, não antes de descobrirmos quem além do Andrus está pela cidade. Podemos ir com calma, já que eles ainda não sabem que desertamos. Podemos usar isso ao nosso favor para conseguir informações sobre ele e sobre o Andrus. Depois, precisaremos saber quem é quem.
— Já que falaram sobre isso, tem algo que eu gostaria de dizer a vocês. — interveio Harpia, sem mudar o tom da voz, para não passar a impressão de seriedade ou de aviso. — Mas ajam naturalmente e não demonstrem nenhuma reação. Desde que fomos àquela barraca e começamos a caminhar pela cidade, estamos sendo observados por alguém. A Pombo ainda não o identificou.
Ela analisava as redondezas com um olhar clínico. Escaneava rostos, locais e até mesmo os nomes das ruas. Ainda não encontrava nada suspeito.
— Fiquem atentos. Não sabemos quais são suas intenções. Preparem-se para lutar a qualquer momento. Não gosto nem um pouco do jeito que as coisas estão.
— Isso mesmo, sem mencionar os outros três Manifestadores. Podemos estar em vantagem numérica, mas, se todos forem do Império, essa cidade ficará lotada de guardas num instante. — completou Pombo, preocupada.
Ela não poderia se disfarçar, pois a pessoa que os viu já conhecia sua energia. Agora, ela também era um alvo fácil e a qualquer momento poderia ser atacada.
— Meu conselho é que nós fiquemos por ruas movimentadas. Não queremos iniciar uma luta que destrua metade da cidade. — ela concluiu.
— Com licença, jovens. — interrompeu um estranho homem de pele bronzeada.
Ele trajava roupas brancas com detalhes em vermelho e dourado. Abria os braços com naturalidade para chamar a atenção do grupo, o que funcionou.
— Teriam um momento para ouvir a palavra dos nossos Deuses? Eu insisto para que vocês escutem, pois só há salvação e paz eterna quando se está conectado com os Deuses! — ele fez uma breve pausa. — Vejo que vocês são de muito longe. Vieram a esta humilde cidade para se converter ou já são adeptos da Sagrada Religião dos Dezesseis Círculos?
— “Religião dos dezesseis círculos”? — Ryruka o encarava com descrença. — Você se refere aos antigos deuses? Eu não sei muito sobre isso, mas sei que eles se destruíram devido à própria ambição. Por que cultuar seres idênticos a nós?
Por não ter crescido no Extra-Mundo, ela aprendeu pouco sobre os deuses e sobre o passado, mas foi o suficiente para não acreditar em divindades.
— Não estou interessada em escutar sobre sua religião e milagres fajutos. — ela disse com desdém. — Dê o fora daqui. Não vê que estamos ocupados?
— Não tenha a mente tão fechada, minha jovem. — respondeu com calma. — Os dezesseis Deuses criaram tudo que consiste e existe no mundo. Somos todos parte de um grande plano que está muito acima da nossa compreensão. De fato, os Deuses lutaram entre si, mas isso foi para manter o equilíbrio e a paz de todo o universo.
Apesar da resistência de Ryruka, o homem conquistava a atenção do grupo com suas histórias. No Extra-Mundo, pouco se dizia sobre o passado e sobre os deuses, pois as Manifestações sempre foram vistas como características de um usuário e não como uma dádiva divina, conforme descrito no passado.
— Nosso mundo passou por inúmeras guerras, e graças a elas, as pessoas perderam sua fé. Apenas aqueles que se converterem poderão alcançar a verdadeira paz antes da tempestade. Esse mundo está pobre e prestes a acabar, e o Deus caído se erguerá e buscará o que é seu por direito! Quando isso acontecer, ele trará a sua paz para todos os seus escolhidos. Ele tentou uma vez e falhou, mas agora ele retornará para realizar sua vontade, e todos que não o aceitarem estarão condenados. Não existe salvação além daquela que ele impor.
— Nem a sua própria fé te salvará? — Yujiro demonstrava certo interesse no que o homem dizia. — Que devoção estranha. Aceitar que será morto por um dos deuses que você cultua… Isso é radical demais até mesmo para os fanáticos da igreja. Você não tem medo de morrer ou de sua fé ser falsa?
Yujiro parecia entender sobre o que o religioso falava, mas estava mais incomodado com o fato de ele estar disfarçando sua energia.
— Eu fui de um clã que conhecia os antigos deuses, mas não éramos tão radicais. Você está dizendo que não existe salvação e que o único destino que teremos é a morte. Quem é você? Eu sinto uma leve energia vindo de você. Essa abordagem não pode ter sido mera coincidência. — Yujiro o analisava enquanto ajeitava os óculos.
— Claro que não é, pois tudo está conectado em um emaranhado de linhas do destino nas quais nem fazemos ideia, apenas os Deuses. — ele sorriu. — Eu sou da Sagrada Catedral de Kana. Senti energias estranhas pelas ruas da cidade e resolvi ver se eram arruaceiros, peregrinos ou até mesmo novos fiéis.
Ele não parecia ser uma ameaça, apenas um fanático religioso. Se aproximou mais um pouco, o que os deixou em alerta. Mesmo sendo alguém da igreja, ele ainda era um Manifestador. Não podiam deixar que a aparência os enganasse.
— Eu sou o Frei Ângelo Terceiros, responsável pela Sagrada Catedral de Kana. Também sou conhecido como Ângelo, o Bispo. É um enorme prazer conhecê-los. Que a graça dos Deuses os abençoe eternamente.— “O Bispo”?! Então você é um dos Capitães do Império?! Você precisa nos ouvir com atenção, Capitão Ângelo. Eu sou Edgar, e esta é a Erika. — ele apresentou a si e a amiga. — Éramos os braços direito e esquerdo do Capitão Baltar. Infelizmente, ele foi assassinado brutalmente… E o responsável foi o Capitão Andrus! Nós vimos tudo. Você deve estar sabendo sobre o ataque ao Grande Salão da Justiça.
Edgar se aproximou, esperançoso. Ângelo mantinha o semblante tranquilo.
— Você precisa nos ajudar! Nós o seguimos até esta cidade após o que ele fez. Achamos que o Império enfim decidiu se tornar autoritário e controlador. Não pode ser outra coisa. O Capitão Baltar não seria vítima de um surto de um companheiro. Além disso, se ele está aqui, você também pode estar correndo perigo!
— Quando você diz “ajudar”, se refere a entregá-los por traição ou quer que eu traia o Império e os ajude a matar um Capitão? O que me disse é muito surreal, mas é bem detalhado para ser mentira. — pensativo, Ângelo levou a mão direita ao queixo. Sua feição transmitia pesar. — Baltar era meu amigo. Nós éramos o equilíbrio perfeito entre a balança da justiça e da religião. Com a ajuda do Político, sempre tentamos adiar o inevitável. Tentamos mostrar ao Impero que o caminho certo era aquele para o qual tentávamos guiá-lo. Ao que parece, ele está se livrando dos que se opõem a ele, e eu sei que serei o próximo a ser silenciado.
A apreensão cresceu. O Bispo acreditava neles, mas não demonstrava isso. Ele então os convidou para irem até a catedral para conversarem adequadamente.
Enquanto o acompanhavam, o indivíduo encapuzado continuava os observando. Essa pessoa, por sua vez, sequer notou que era observada por outras duas, também encapuzadas. A dupla estava sobre o telhado de uma casa, vigiando tanto o grupo de Ryruka quanto a figura misteriosa. Notava-se, pelo porte físico, que a pessoa de pé era uma mulher, e a que estava sentada, um homem.
Seriam novos aliados ou mais inimigos?

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