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    No esconderijo, a Espiã estava numa sala para interrogatório, imóvel. A porta à sua esquerda se abriu, e Sora entrou. Ele caminhou calmamente até a mesa e se sentou, olhando-a bem nos olhos.

    Antes, eram companheiros; agora, uma mesa e lados opostos os separavam. Sora parecia mesmo disposto a tentar fazê-la mudar de lado.

    — Traidor… Como teve coragem de trair o Imperador depois de tudo que ele fez por você?! — Keila o encarava furiosa. — Você é um ingrato, sempre querendo mais e mais. O que eles te ofereceram? Aposto que foi muito para você estar aqui.

    Keila continuou o encarando seriamente enquanto Sora se mantinha tranquilo. Sua vontade de matar o homem do outro lado da mesa fez suas veias saltarem.

    — Se eu tivesse meus poderes, eu te mataria! Para o seu azar, você também não possui os seus, então não tem como você tentar algo contra mim.

    — O que o Imperador fez por mim? Você se refere a matar minha família e me tornar seu prisioneiro? Ser usado como uma marionete no meio dos nobres? — disse Sora, calmamente. — Se é a isso que está se referindo, eu concordo que ele fez muito por mim. Muito para odiá-lo. Por isso eu o traí muito antes dessa guerra e dessas pessoas, Keila. Eles me salvaram. Agora devo minha vida a eles e farei de tudo para derrubar o Império. Então, por favor, abandone sua visão deturpada e venha comigo.

    Sora notou a surpresa em Keila. Ainda que o Imperador tivesse feito algo por ela e ela se sentisse em dívida, isso não se aplicava aos outros. Sora se levantou.

    — Você é a melhor no que faz. Eu sei que você não é má e só está do lado do Império por retribuição, mas isso mudou. O Império nunca foi bom e nunca será. Para Impero, somos apenas ferramentas, e ferramentas se desgastam e são descartadas. Você aceita ser usada para no fim morrer sem um propósito? Sua irmã Sayumi morreu assim, e você sabe bem disso. Você sabe que não foi a Emota que a matou.

    — Não ouse falar da minha irmã! — Keila se levantou irritada e se aproximou. — Você não sabe nada sobre ela ou sobre sua morte! Sora, eu te admirava por você sempre resolver tudo com suas palavras, mas numa guerra a única coisa que prevalece e é ouvida é a violência. Minha irmã morreu para que o Imperador pudesse ser salvo de um atentado daqueles malditos terroristas a quem você se aliou!

    Nesse momento, Tenebris entrou na sala. Keila o olhava com ódio. Ele então se aproximou de Sora, o que a deixava muito mais revoltada.

    — Vejam só, um deles apareceu. — ela falava com desprezo. — Vocês são o grande problema de Eudora. Sempre causando o caos e a discórdia. Vocês odeiam tanto suas vidas que culpam o Império pelo seu próprio fracasso! O Império salvou a mim e à minha irmã, e vocês a mataram! Acham mesmo que me unirei a vocês?!

    — Está enganada. — Tenebris a fitava com tristeza, tentando se aproximar. — O Império prejudicou muitas pessoas. Eu fui um deles. Meus amigos também. Eu vi o que o Impero fez de perto. Nós não matamos sua irmã. Na noite da invasão, a encontramos no jardim e a raptamos. Mas logo percebemos que ela não era um monstro, como o Imperador. Era outra vítima, como nós. Conversamos um pouco. Foi o bastante para nos entendermos. Sayumi nos ajudou a entrar no palácio, e estava nos ajudando quando uma explosão provocada pelo Capitão Navaro nos atingiu.

    Ele percebeu que aquilo a havia fragilizado, e entendia o sentimento. Mesmo assim, quando tentou se aproximar, ela recuou. Tenebris continuou.

    — Eu queria ter salvado ela. Eu realmente queria ter ajudado, mas não pude. Eu sinto muito, de verdade. Acredite em mim. Nós precisamos da sua ajuda, Keila.

    — N-não se aproxime de mim! — exclamou Keila, colocando as mãos na cabeça e se afastando até encostar na parede. — Isso é mentira! Mentira! Vocês não sabem nada sobre a minha irmã! Vocês não me conhecem! Isso tudo é mentira!

    Ela os olhava com desespero, prestes a chorar.

    — Minha irmã nunca trairia o Império! Não somos ferramentas… Nós não somos ferramentas! Parem, parem de mentir! — a voz tremia.

    — Essa é a verdade, Keila. — disse Sora, aproximando-se dela e estendendo a mão direita. — Eu soube de tudo no dia seguinte, mas nunca te falei nada porque sabia como você reagiria. Por favor, venha comigo. Ainda há chance de mudar o rumo das coisas. Se não quer nos ajudar, ao menos vingue a sua irmã.

    Ela o olhou, ainda meio perdida e, lentamente, estendeu a mão. O aperto não foi firme, mas representava a aliança a qual Sora tanto queria firmar.

    — Obrigado, Keila. Obrigado de verdade. Você acaba de mudar o rumo dessa guerra. Vingaremos a morte da sua irmã, eu prometo. Vamos salvar Eudora e pôr um fim nessa guerra.

    — Que fique claro que não me aliei a eles. Estou única e exclusivamente ajudando você. — Keila o encarava com seriedade. — Não me importo com quem vencerá essa guerra. Eu quero limpar o nome da minha irmã, apenas isso.

    Ela se aproximou da cadeira e se sentou. Tenebris e Sora, também.

    — Minha missão era procurar e eliminar a Emota. Mas, quando encontrei a Ordem dos Cavaleiros Brancos no Extra-Mundo, percebi que as coisas poderiam mudar. Eu passava informações aos poucos, para não levantar suspeitas. Por isso que passei a mudar de hospedeiros para não levantar desconfianças. Eu não fazia ideia de que Haythan atacaria vários nobres e mataria um dos seus aliados. E, mais importante, eu não esperava ser descoberta. Isso nunca tinha acontecido. — ela suspirou, desapontada consigo mesma. — Olha, eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Eu não sabia que essa guerra iria se intensificar. E, mesmo sendo inimiga, eu não queria que a garota sofresse.

    — Nós entendemos. Guerras são cruéis, e ambos os lados perdem. Nunca há um vencedor legítimo, apenas sobreviventes. Você fez o que achou que era certo, mas agora você terá a chance de ver o outro lado da moeda. — Tenebris entregava a ela alguns documentos para que ela pudesse confirmar ou negar a veracidade das informações. — Vê alguma irregularidade? Pegamos esses papéis no acampamento do cerco. Eles sabiam exatamente como agir. Você sabe quem era o responsável?

    Keila analisava os dados para dar o seu veredito. Sua postura era diferente de antes. Sora realmente a convenceu.

    Todos os demais os ouviam na sala ao lado. Akane não gostava muito da ideia, já que Keila fora a responsável pelo ataque que matou Kamito. Ela segurou sua raiva enquanto olhava o pingente no seu pulso esquerdo.

    Enquanto isso, Ryruka e seu grupo seguiram o rastro de Andrus até uma cidade de classe média. Graças à Manifestação de Pombo, sabiam de outro detalhe: havia mais quatro Manifestadores na cidade.

    Eles caminharam cautelosamente pela cidade quando, de repente, Pombo correu até uma barraca de conveniências. Ela ficou encantada com vários produtos. Sua irmã apareceu para repreendê-la, mas também gostou do que viu. Entre várias opções, broches com um brasão em formato de diamante se destacaram aos seus olhos. Edgar comprou vários, pois queria de alguma forma representar sua nova fase.

    O rapaz então entregou um broche para cada um e colocou o seu no braço direito da sua jaqueta. Todos perceberam que ele queria mostrar que aquele seria o símbolo do grupo e o copiaram, até mesmo as irmãs gêmeas.

    Enquanto se divertiam e criavam laços, uma figura encapuzada os observava de longe. Pombo sabia de sua presença e, sem levantar suspeitas, avisou a irmã. Um possível confronto poderia começar logo no coração da cidade. Mas Pombo também se preocupava com os outros três Manifestadores que ainda estavam na cidade.

    Aliados? Inimigos? Um conflito poderia explodir a qualquer momento.

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