O couro pesado da capa escura envolveu os ombros de Liriel. A garota não carregou a espada de Gravios consigo; andar pelas ruas da cidade alta ostentando aço militar apenas atrairia o olhar da coroa. Em vez disso, escondeu uma adaga curta na bota e acompanhou os passos silenciosos do invasor escada abaixo.

    O saguão principal da mansão Bronwich repousava num silêncio absoluto, iluminado apenas pelo brilho opaco de dois lampiões a óleo. Liriel destrancou a pesada porta de carvalho. O vento frio de Lancrey invadiu o corredor, mas a rota de saída não estava livre.

    As duas sentinelas de elite, mercenários veteranos pagos pelo bolso do próprio General Gravios, cruzaram as alabardas imediatamente à frente do pórtico.

    — Senhorita Liriel? — o guarda da direita franziu a testa, a voz grossa ecoando na calçada de pedra. — É tarde da noite para caminhadas.

    Os olhos do sentinela desviaram da herdeira e pousaram na silhueta rústica que a acompanhava. O treinamento de fronteira falou mais alto que a etiqueta. Em um milésimo de segundo, as alabardas foram recuadas e as espadas curtas zuniram saindo das bainhas. O som do aço afiado fez Liriel prender a respiração.

    — Quem diabos é você? Mãos para o alto! — esbravejou o guarda da esquerda, apontando a lâmina tremeluzente diretamente para a garganta de Sem Nome.

    O rapaz não se encolheu. Apenas enfiou as mãos nos bolsos do casaco de couro surrado, ostentando o mesmo sorriso envergonhado e inofensivo de antes.

    — Abaixem as armas. Imediatamente — ordenou Liriel, o timbre endurecido, emulando perfeitamente a frieza cortante de seu pai de criação. Ela deu um passo à frente, cobrindo o invasor. — Ele é o meu convidado. Nós daremos uma caminhada rápida para tratar de documentos em sigilo e voltaremos em breve. Abram passagem.

    Os guardas se entreolharam, a confusão estampada nos rostos marcados por cicatrizes. Hesitantes, obedeceram à ordem da dona da casa, embainhando as espadas com um estalo metálico. Liriel desceu os degraus de pedra e começou a caminhar pela rua afundada em névoa, acompanhada lado a lado pelo rebelde.

    Antes que virassem a esquina, no entanto, o eco da voz de um dos sentinelas viajou pelo vento:

    — Como que eu não vi esse infeliz entrando? Os portões de trás estão trancados por dentro…

    Sem Nome soltou uma risadinha abafada.

    — Os cães do seu pai são ferozes, mas olham demais para as portas e de menos para os telhados — comentou ele, enquanto dobravam a esquina, mergulhando na escuridão úmida dos becos da Cidade Alta.

    A neblina noturna de Lancrey era densa, cheirando a carvão queimado e fuligem úmida. O toque de recolher mantinha as ruas de paralelepípedos completamente desertas. Os dois caminharam a passos rápidos, descendo rumo aos anéis inferiores da fortaleza, onde o luxo de pedra cedia lugar à madeira apodrecida e à miséria.

    — Eu não vou te chamar de Liriel lá embaixo — quebrou ele o silêncio, a voz perdendo qualquer traço de humor. O tom agora era estritamente pragmático. — Ninguém na nossa facção usa o nome de batismo. Nomes trazem laços familiares, e laços familiares são as primeiras coisas que a inquisição do Rei Aldric usa para torturar desertores. Você precisa escolher um codinome até chegarmos ao esconderijo.

    A garota ajustou o capuz sobre os cabelos. A umidade da noite gélida arrepiava a sua nuca.

    — Um codinome?

    — Exato. Uma nomenclatura vazia. Um título negado. Nós todos somos os “Sem Rumo”. Então, escolha do que você foi destituída. — Ele olhou de soslaio para ela. — Mas antes disso… você não parou de me analisar desde que saímos da mansão. Pode perguntar.

    Liriel apertou o passo, mantendo-se lado a lado com a silhueta esguia do rapaz.

    — Você sabe da minha família. Sabe da coroa. Sabe do abismo. E invadiu o meu quarto com a sutileza de um fantasma. Mas não falou o essencial — ela virou o rosto na direção dele, os olhos escuros brilhando sob a parca luz da lua nublada. — Quem é você, de verdade? E por que o Lorde Baelon teria tanto medo da sua guilda de ratos de beco?

    Sem Nome suspirou. Uma lufada de ar quente condensou-se na noite fria. Os ombros do rapaz cederam levemente, não pelo cansaço físico, mas pelo peso de uma memória terrível.

    — Eu fui um arquivista no passado. Assim como você — confessou o jovem, a voz carregada de uma melancolia profunda. — Eu servia sob as ordens diretas de Silas. Trabalhava nas alas inferiores, transcrevendo relatos antigos de colheitas que nunca existiram. Mas a curiosidade é o maior pecado de Lancrey. Um dia, movido por pura sede de conhecimento e insatisfação com a censura, eu invadi os aposentos privados do Mestre Silas.

    Liriel prendeu a respiração. Os aposentos do Arquivista-Chefe eram protegidos por fechaduras alquímicas e leis de traição capital.

    — No fundo de um baú falso, sob o assoalho de carvalho negro dele, eu achei um documento — continuou Sem Nome, os passos diminuindo o ritmo conforme a lembrança o dominava. — Era um pergaminho negro. O couro fedia a morte, e estava lacrado com cera vermelho-carmesim, marcada com um selo que não pertencia a nenhum Rei que já sentou no trono desta cidade.

    — Você abriu — Liriel afirmou, sem espaço para dúvidas. O fascínio erudito espelhou-se na mente dela. Ela teria feito o mesmo.

    — Eu abri — ele concordou, esboçando um sorriso triste. — E quando meus olhos correram por aquelas runas, eu descobri a verdade por trás da origem das Terras Exímias. Aquele pergaminho detalha exatamente de onde o Alfa veio e por que o abismo devora humanos. É um segredo aterrador, Liriel… mas é um segredo que salvaria todos os Exploradores caídos. Um conhecimento tático que limparia as trincheiras e protegeria os esquadrões futuros da carnificina.

    O olhar do rapaz perdeu-se no vazio do nevoeiro.

    — Mas eu não fui rápido o suficiente. Antes que eu conseguisse enrolar o documento e fugir, Silas voltou. Ele não chamou a guarda imediatamente. O velho olhou nos meus olhos e soube que a minha alma estava manchada pela verdade. Eu recebi uma pena não oficial de quinze anos nas masmorras esquecidas abaixo do castelo. Onde a água bate na canela e os ratos comem as nossas unhas enquanto dormimos.

    — Mas você escapou — observou a garota, observando as mãos nuas e cheias de calos de escalada do rebelde.

    — Levei dois anos escavando a argamassa com uma colher de prata roubada, mas sim. Escapei para as sombras, juntei outros fantasmas e formei os Sem Rumo. — Ele a olhou com intensidade. — O Rei quer prender Gravios porque teme que o seu pai descubra, na marra, as fatias dessa mesma verdade.

    Liriel parou no meio da rua enlameada. O coração dela batia como um tambor de guerra.

    — O que estava escrito naquele pergaminho carmesim? — exigiu ela, a voz tremendo com o desespero de quem via o próprio irmão caminhando no Fronte sem conhecer a extensão do inferno.

    Sem Nome também parou. O rebelde sustentou o olhar desesperado da pesquisadora, mas balançou a cabeça de forma resoluta e sombria.

    — Ainda não é a hora de ninguém saber, Liriel. Eu não vou jogar essa maldição sobre a sua sanidade antes que você tenha um exército nas costas para suportar a resposta.

    O rapaz virou as costas e voltou a caminhar, adentrando um beco estreito que fedia a urina e vinho estragado. Liriel praguejou mentalmente, mas o seguiu.

    As construções ao redor tornaram-se destroços. Chegaram a uma praça sem saída na Cidade Baixa. No centro da decadência, uma casa desabada e consumida por incêndios passados erguia-se como um túmulo esquecido. O teto havia ruído, as janelas eram buracos cegos e as tábuas do chão estavam apodrecidas.

    — Chegamos. Minha velha casa — anunciou Sem Nome, pisando cuidadosamente sobre os escombros e desviando de vigas caídas.

    Ele caminhou até uma parede isolada onde uma antiga estante de madeira resistia milagrosamente de pé, coberta de fuligem. O rebelde não empurrou o móvel. Ele deslizou os dedos sujos até a última prateleira inferior, agarrou o lombo de um livro grosso cujas páginas haviam virado poeira, e puxou-o para trás num ângulo específico.

    Um estalo mecânico surdo ressoou sob as botas de Liriel.

    O piso à frente da estante cedeu perfeitamente, revelando uma escotilha quadrada e negra. Uma corrente de ar antiga, úmida e com forte cheiro de musgo subiu pelas pernas da garota.

    — Damas primeiro — Sem Nome fez um gesto teatral com a mão, indicando o buraco escuro.

    Liriel engoliu em seco, puxou a barra do vestido para não tropeçar e pisou no primeiro degrau de pedra da escadaria em espiral. A descida parecia não ter fim. As paredes claustrofóbicas cheiravam a minério antigo, e a temperatura despencava a cada volta. Desceram por tempo suficiente para que a garota tivesse certeza absoluta de que haviam cruzado a fundação do próprio castelo do Rei e adentrado as raízes da montanha.

    Quando a escuridão finalmente cedeu lugar a uma fraca iluminação alaranjada, os passos de Liriel vacilaram. O arrepio que percorreu seu corpo não foi de frio, foi de assombro puro.

    O corredor estreito desembocou numa vastidão subterrânea monumental.

    Não era uma caverna ou uma masmorra. Eram ruínas completas. Catedrais cujas abóbadas desapareciam na escuridão acima, estátuas imensas de anjos desfigurados, praças de mármore rachado tomadas por limo luminoso e rios subterrâneos de água negra cruzando os destroços. A arquitetura era assustadoramente similar aos relatos dos pergaminhos sobre a Cratera de Ashfall.

    — Pelos deuses esquecidos… o que é isso? — sussurrou Liriel, os olhos arregalados correndo pela enormidade da catacumba civilizada.

    — Lancrey nunca foi a primeira fortaleza humana, pesquisadora — revelou Sem Nome, encostando a mão na pedra úmida da entrada. — Nós somos a quarta cidade. Esta aqui é a segunda encarnação de Lancrey, engolida pelo próprio abismo há eras e cimentada pelas fundações das muralhas de Baelon. Parte de uma cidade enterrada para esconder os erros dos reis do passado. Vem. O acampamento é logo à frente.

    Eles caminharam pelas antigas calçadas, o som de goteiras preenchendo a vastidão.

    Chegaram a uma praça subterrânea iluminada por grandes fogueiras alimentadas por carvão e destroços de madeira. Dezenas de pessoas movimentavam-se pelo local. Desertores limpando armas, mercenários contando moedas, eruditos exilados estudando mapas esfarrapados à luz de lampiões.

    Sem Nome conduziu Liriel até a base de uma grande estátua decapitada, onde um grupo seleto estava reunido ao redor de uma mesa improvisada com caixotes.

    — Deixe-me apresentar a espinha dorsal dessa operação — sorriu o ex-arquivista, parando diante do grupo. Os olhos dos rebeldes cravaram-se na garota de alta casta imediatamente.

    O líder apontou para uma mulher sentada sobre um barril, afiando duas lâminas longas com uma pedra de amolar. Ela possuía cabelos brancos prematuros, embora fosse jovem, e seus olhos eram duas pedras de gelo.

    — Esta é a Sem Voz — introduziu Sem Nome. A mulher parou a mão, revelando uma cicatriz grosseira e denteada que rasgava toda a extensão de sua garganta. Ela assentiu com a cabeça num movimento seco, sem emitir um único som.

    Ele virou a mão para um velho encurvado que misturava líquidos voláteis numa bancada suja, a expressão trêmula e atormentada.

    — Ali é o Sem Sonhos. Um alquimista desertor da guarda de elite. Ele bebeu o próprio veneno químico para não ter que dormir nunca mais e reviver o que viu nas muralhas.

    O dedo de Sem Nome moveu-se para a direita, apontando para uma montanha de armadura e músculos que estava encostada pacificamente em uma coluna caída. O homem possuía quase a mesma estatura colossal de Vorn. O corpo inteiro estava coberto por couro grosso e ferro oxidado, mas o que roubava a atenção era o gigantesco capacete cilíndrico de metal que cobria toda a sua cabeça. O visor era uma fenda escurecida, tornando impossível ver qualquer traço humano por baixo do ferro.

    — O gigante amável ali é o Sem Rosto. A força de ataque do nosso pelotão. — O colosso corpulento inclinou levemente o capacete gigante para baixo, um gesto quase dócil, e estendeu a mão enorme, fazendo um longo e silencioso sinal de “joinha” para Liriel.

    Ela piscou, forçando um meio-sorriso nervoso para a montanha de metal.

    — Perto da fogueira está a Sem Caminho — continuou o guia. Liriel olhou para a garota de cabelos raspados que amarrava as tiras de uma perna mecânica forjada de aço rústico e molas. A batedora coxa acenou com dois dedos. — E discutindo táticas no canto, os dois últimos cabeças. O Sem Glória e o Sem Pesadelos.

    O Sem Glória exibia um orgulho quebrado. Vestia o peitoral prateado e imponente de um antigo paladino real, mas o brasão do Rei havia sido violentamente derretido a ácido, e seus olhos exalavam apenas ressentimento militar. Ao seu lado, o Sem Pesadelos formava um contraste bizarro: um adolescente incrivelmente magro, de feições pálidas e um sorriso contínuo, sereno e perturbador no rosto, como se o desespero e o medo fossem emoções biologicamente removidas de seu cérebro.

    Liriel processou a galeria de renegados. Exilados, amputados, mudos, deformados e traumatizados. O exército oculto não ostentava as belas armaduras douradas da coroa, mas exalava uma letalidade muito mais palpável.

    Sem Nome deixou Liriel no chão e subiu agilmente os degraus de pedra que levavam ao topo do altar da estátua decapitada.

    O ex-arquivista bateu palmas duas vezes. O som ecoou pela abóbada de pedra da cidade morta. As conversas ao redor das fogueiras cessaram. Dezenas de rostos maltrapilhos viraram-se para o líder no altar. O silêncio da rebelião desceu sobre a praça.

    — Irmãos e irmãs do subsolo — a voz de Sem Nome projetou-se, límpida, firme e desprovida do sorriso vadio de antes. Ele era um comandante nato. — Nós vasculhamos os lixos das elites, comemos as sobras da mentira do Rei Aldric e aguardamos nas sombras por um milagre capaz de nivelar este tabuleiro de guerra.

    Ele abriu os braços, indicando a imensidão das catacumbas iluminadas.

    — Hoje, eu vos apresento não apenas uma arma, mas a faísca excepcional que precisávamos. Vos apresento uma mente brilhante, uma pessoa excepcionalmente incrível para este grupo de maltrapilhos iletrados!

    Sem Nome fez uma reverência teatral, dobrando o tronco para a frente com graciosidade irônica, e estendeu a mão direita aberta na direção de Liriel Bronwich. As dezenas de olhares desceram do altar para a garota encolhida no capuz.

    — Senhorita… — Sem Nome deixou a frase suspensa no ar úmido, os olhos brilhando em desafio. Era a cobrança do pedágio. A cobrança do nome.

    Liriel sentiu o coração acelerar. Ela lembrou-se do rosto cansado de Caelan descendo pela muralha. Lembrou-se da mentira forçada de Gravios para proteger o esquadrão do pânico. O Rei não salvaria a sua família; o Rei os atiraria aos leões para manter o próprio poder. Para desarmar a corte cega, ela não poderia ser a garota afável e acadêmica da Torre. Precisava se tornar o bisturi nas costas do Lorde Comandante.

    Ela afastou o tecido do capuz, revelando os traços finos e as olheiras profundas e exaustas sob seus olhos. Liriel manteve a postura reta e virou o rosto para o flanco. Seus olhos encontraram a fenda escura do capacete metálico do gigante musculoso que lhe havia feito o sinal de positivo.

    Os lábios rachados da filha de Gravios se curvaram. A pesquisadora de Lancrey abriu um sorriso gélido, cruel e implacável.

    — Sem Compaixão.

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