O pavor congelou as engrenagens da mente de Gravios. A Lenda de Lancrey, o homem que esmagava Xemios Menores com as mãos nuas e liderava marchas suicidas sorrindo, encontrava-se preso na própria respiração. A visão do pequeno Crymio dissecado com precisão cirúrgica destruiu o alicerce tático da expedição.

    O Alfa violeta não era o predador alfa do abismo. Era apenas mais um rato fugindo do verdadeiro dono da casa. E o dono da casa usava bisturis.

    Um baque pesado e surdo estalou contra a ombreira do General.

    — General. Respire. — A voz de Vorn soou como o raspar de duas pedras de moinho. O gigante encostou a lateral do colossal Escudo de Obsidiana no braço do comandante, um empurrão físico e ancorado na realidade. — A loucura afoga quem encara o abismo por muito tempo. Volte para nós.

    Gravios piscou violentamente. O suor frio escorria pela cicatriz diagonal. O aperto ao redor das Manoplas do Crepúsculo Inerte retornou, latejando com o brilho arroxeado, mas a segurança arrogante de outrora havia se fragmentado. Ele assentiu com um aceno curto e duro, engolindo a seco.

    Atrás deles, a dupla de recrutas sussurrava, os olhos cravados na mesa de dissecação de pedra.

    — Se a aberração de Ashfall cavou aquele túnel infernal para fugir do que quer que tenha feito isso… — a voz de Mirel tremia levemente. A batedora segurava as Adagas de Rubro Lunar com tanta força que os antebraços doíam. — O que estamos caçando, Caelan? Ou melhor… de quem nós somos a caça agora?

    Caelan não desviou o olhar das entranhas expostas e milimetricamente alinhadas da criatura. O estômago do garoto revirava. A Armadura de Escamas de Zecreo de repente pareceu fina demais.

    — O velho Silas sempre disse que os pergaminhos estavam incompletos — murmurou Caelan, o terror infantil rasgando a casca do soldado. — Liriel descobriu que o Alfa rouba memórias. Mas e se ele não for o único? E se houver coisas aqui embaixo que… que fazem experimentos conosco?

    Um silêncio mórbido ameaçou esmagar a moral do esquadrão Gravios antes mesmo da primeira lâmina ser cruzada.

    O vento mudou. O cheiro de enxofre e sangue velho foi cortado por um odor azedo e pungente.

    O instinto de sobrevivência de Vorn, afiado por décadas de carnificina, gritou antes mesmo do som alcançar seus ouvidos. O colosso não pensou; ele simplesmente agiu. Vorn deu um passo brutal à frente, enfiando-se no espaço exato entre o abismo escuro da floresta morta e os quatro membros de sua equipe.

    O gigante cravou as botas no chão e fincou a base do imenso Escudo de Obsidiana na rocha.

    Thwack-thwack-thwack-thwack!

    O ar foi rasgado por assovios ensurdecedores. Uma chuva de morte chocou-se contra a formação.

    Não eram flechas de madeira. Eram espinhos maciços de queratina enegrecida, grossos como lanças de cavalaria e disparados a uma velocidade capaz de atravessar o tronco de um carvalho. Os projéteis atingiram o centro perfeito do escudo de Vorn com a fúria de uma balista de cerco.

    O impacto empurrou o gigante milímetros para trás, as solas de ferro rasgando a poeira, mas a postura da lenda não cedeu. A obsidiana bruta e primordial, temperada pelo aço e pela magia rústica de Regiz, sequer arranhou. Os espinhos de queratina estilhaçaram-se em dezenas de pedaços afiados, chovendo inofensivamente sobre o couro e as couraças do esquadrão abrigado atrás da montanha humana.

    Caelan abaixou os braços, surdo pelo barulho do impacto. Ninguém havia sofrido um único arranhão. O terror existencial sumiu, substituído imediatamente pelo choque de adrenalina de um combate letal.

    No limite da clareira, camuflada entre os troncos cinzentos e petrificados, a ameaça revelou-se.

    Não possuía ferramentas de dissecação. Possuía instinto puro.

    O Aramìo avançou para a luz opaca da cratera. A besta quadrúpede media o tamanho de um cavalo de tração, mas a anatomia beirava o grotesco. A carapaça que lhe cobria as costas era facetada, exibindo tons de cinza-cadáver e amarelo-doentio, mesclando-se como um camaleão à poeira do Fronte. A cabeça era estreita, desprovida de olhos visíveis, guiando-se por fendas térmicas pulsantes nas laterais do crânio. A mandíbula inferior era dividida em três partes, salivando um fluido corrosivo.

    Contudo, a verdadeira anomalia encontrava-se nas patas dianteiras. Grotescamente mais musculosas que as traseiras, elas ostentavam fileiras de poros dilatados e pulsantes. Glândulas de pressão biológica inflavam sob as escamas, forçando espinhos de queratina a crescerem e engatilharem-se nos poros em questão de segundos, prontos para a próxima saraivada.

    O mesmo monstro que Trok usara como metáfora nos muros da caserna agora rosnava na frente deles.

    O silêncio reinou por uma fração de segundo após a investida frustrada. A besta inclinou a cabeça cega, confusa. Suas lanças naturais costumavam empalar a presa instantaneamente. Em vez disso, haviam virado pó contra a muralha negra.

    Um estalo metálico seco ecoou atrás de Vorn.

    Trok contornou o escudo do gigante, os passos lentos, quase preguiçosos. O atirador retirou a raiz amarga da boca e cuspiu na terra. Um sorriso largo, distorcido e perigosamente eufórico abriu-se no rosto do batedor. Ele ergueu a besta de repetição mecânica.

    — Ah, eu estava ficando com nojo de olhar para ratos abertos — riu Trok, o som ecoando com uma insanidade contagiante. O batedor encaixou um virote robusto de ponta metálica alargada na calha da arma. — Olhem para isso, recrutas! O próprio diabo que ensaiamos! Um Aramìo inteirinho, pronto para o abate!

    O atirador virou o rosto para o restante do esquadrão, os olhos brilhando com uma ferocidade que empurrou o medo da dissecação para as sombras mais fundas da mente.

    — Regiz não derreteu as costas naquela forja infernal para morrermos de medo de um açougueiro fantasma! — berrou Trok, a voz inflamando a moral da equipe como pólvora pura. O atirador estapeou a lateral da própria Armadura de Metal Rubro. — O inferno quis testar o nosso aço! Vamos mostrar para essas aberrações o que os batedores de Lancrey vieram fazer!

    A hesitação de Mirel sumiu. A batedora girou as Adagas de Rubro Lunar nas mãos, as lâminas vermelhas cortando o ar com um zumbido letal. A Malha de Prata Lunar moldou-se aos músculos tensionados da garota.

    Caelan soltou um rugido curto, sacando a monstruosa Espada Longa de Ruptura das costas. O peso da arma, que antes esmagava seus ombros na subida, agora parecia a âncora perfeita. O garoto não sentiu as pernas tremerem; sentiu o poder de obliterar a fera.

    Gravios assistiu à mudança atmosférica do esquadrão. O General sorriu. A Lenda estava de volta ao lar. O brilho arroxeado de suas manoplas intensificou-se até iluminar o chão morto da cratera.

    — Vorn! Abra a gaiola! — urrou Gravios.

    O gigante obedeceu. Vorn girou o pulso, cravando a aresta lateral do escudo na rocha e impulsionando o corpo inteiro para a direita, liberando a linha de visão completa do esquadrão.

    O Aramìo reagiu à movimentação. As glândulas nas patas dianteiras inflaram com um som de sucção úmido, preparando uma nova barragem de espinhos.

    Não houve tempo.

    Trok apertou o gatilho. O zumbido rasgou a clareira. O virote de impacto explosivo disparou cruzando o espaço em um milésimo de segundo. A seta grossa não mirou a carapaça blindada das costas; atingiu com precisão cirúrgica o joelho esquerdo da besta quadrúpede, exatamente onde a articulação encontrava-se exposta para o disparo.

    O impacto não perfurou. Ele detonou. A ponta de chumbo maciço amassou contra o osso do monstro, liberando uma força cinética absurda. O joelho do Aramìo estourou em uma nuvem de cartilagem e sangue negro. A besta urrou, o disparo dos espinhos falhando e voando erraticamente para o alto enquanto o monstro desabava sobre a pata inutilizada.

    — Agora! — gritou Caelan.

    Mirel já não estava mais lá. A batedora explorou a invisibilidade tática de sua armadura prateada, deslizando pela lateral da clareira numa explosão de velocidade alucinante. O Aramìo tentou girar o pescoço cego para rastrear o calor dela, mas a prata rejeitava a emissão térmica. A garota aproximou-se pelo flanco direito, saltou usando o tronco de uma árvore caída como impulso e desceu girando.

    As Adagas Lunares não bateram na blindagem superior. Mirel deslizou as lâminas rubras diretamente por baixo das placas de queratina do pescoço da criatura, rasgando os tendões que sustentavam as mandíbulas inferiores. O sangue negro espirrou, mas escorregou pela malha da recruta sem sequer manchá-la.

    A besta guinchou, virando o tronco maciço e erguendo a única pata dianteira inteira para esmagar a batedora.

    Mirel não recuou. Ela não precisava. O treinamento a ensinara que ela era a isca, e a mandíbula era o martelo.

    Caelan surgiu do lado oposto. O garoto correu com a Espada de Ruptura abaixada, arrastando a ponta negra da lâmina pelo solo e levantando um rastro de faíscas. Ignorando completamente o instinto de defesa, Caelan utilizou a inércia do movimento de ataque da fera.

    Quando o Aramìo expôs o flanco ao erguer a pata, Caelan girou os quadris, usando toda a força das pernas e do abdômen para alavancar a espada colossal. A lâmina de dorso escuro, equipada com as brânquias de resfriamento, encontrou o peito blindado da besta.

    O choque foi titânico. O gume não tentou fatiar. O formato de cutelo e a massa bruta da forja de Regiz operaram pelo esmagamento. A espada afundou na carapaça, triturando as costelas do monstro e afundando nos pulmões corrompidos. O impacto parou o ataque do Aramìo no ar, arremessando as duas toneladas da criatura de lado, tombando-a pesadamente contra a terra.

    Caelan arfou, segurando a empunhadura da espada presa ao monstro, os braços formigando pela onda de choque dissipada pela lâmina magistral. A arma aguentara. Nenhuma rachadura. Nenhum osso quebrado no recruta.

    A fera caída debelou-se histericamente. As fendas térmicas no crânio brilharam com fúria. A mandíbula destroçada tentou fechar-se, e a cauda pesada girou como um chicote rumo à cabeça de Caelan para um golpe final desesperado.

    Uma mão metálica e arroxeada interceptou a cauda em pleno voo.

    Gravios segurou o apêndice mortal do monstro com uma única mão. A Manopla do Crepúsculo Inerte chiou, absorvendo o impacto estúpido como se segurasse um galho seco. A expressão do General exalava uma autoridade demoníaca.

    — Durma — rosnou Gravios.

    O líder dos Exploradores puxou a cauda, arrastando a besta para perto, e desceu o punho direito diretamente contra a têmpora exposta do Aramìo.

    O soco não quebrou o ar; quebrou o mundo. A energia inerte pulsou, liberando uma onda de choque focalizada que esmagou o crânio da criatura para dentro. O som do impacto assemelhou-se a um canhão disparando dentro de uma caverna. A aberração convulsionou uma única vez antes de despencar, estatelada e definitivamente morta, aos pés do esquadrão.

    O silêncio desceu novamente sobre a clareira ensanguentada, quebrado apenas pela respiração pesada dos guerreiros.

    Trok andou até o corpo inerte da besta. O atirador pisou na carapaça estilhaçada, arrancou o virote usado do joelho destruído e olhou para os companheiros, o sorriso maníaco e triunfante ainda estampado no rosto.

    — Vocês viram isso? — Trok riu, chutando a carcaça. — A prata. O cutelo. Os punhos! Regiz transformou vocês em aberrações maiores do que as coisas que rastejam aqui embaixo!

    Caelan puxou a espada do peito do monstro, limpando a lâmina com um balanço rápido. O coração do garoto batia forte, não de pavor, mas de euforia. O equipamento não era apenas proteção; era absolvição.

    Gravios estalou o pescoço, o brilho das manoplas diminuindo até retornar a um violeta suave. O olhar do General pousou sobre a dupla de recrutas ilesos, e depois cravou-se no horizonte enevoado. O susto causado pelo cirurgião fantasma havia sumido.

    — Afiem as lâminas e recarregue as besta — ordenou Gravios, a confiança letal reerguida pelas forjas de Lancrey. — Se as bestas desta cratera se escondem das sombras, nós seremos os caçadores da escuridão. Marchamos em frente.

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