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    No lado de fora da árvore de Galen, ainda no meio da noite, a gema laranja presa no tronco começa a brilhar. 

    O tronco racha em linha reta, do chão até a pedra luminosa, e um momento depois a madeira se move para os lados como uma cortina. 

    Brok e Rubi passam pela abertura na árvore, deixando a sala. 

    O orc sai com uma expressão leve e satisfeita, carregando um grande caixote apoiado no ombro direito enquanto segura uma tocha na mão esquerda. Ao seu lado, a diaba caminha com um sorriso notável e a cauda balançando de um lado para o outro, levando duas pequenas caixas empilhadas nos braços.

    “Foi muito bom negociar com vocês”, diz Galen, sentado atrás da mesa, bem no fundo da sala. “Ainda levará algum tempo até eu conseguir o restante das coisas.”

    Do lado de fora, a dupla verde e rosa para e se vira na direção do elfo dentro da sala. 

    “Também gostei dos negócios que fizemos hoje”, comenta Rubi. Quando termina de falar, olha contente para uma das caixas que carrega. “Foram bem proveitosos.”

    “Pela manhã… vou mandar alguns orcs aqui para trazer a sua parte”, diz o orc.

    “Ótimo. Ficarei no aguardo”, responde o elfo. “Enquanto sua cidade se mantiver de pé, estarei aqui para fazer negócios.” 

    “Então vai ficar aqui por um bom tempo”, diz Rubi, transparecendo uma certeza inabalável em cada palavra. 

    O elfo não consegue se conter e deixa um riso breve. “Veremos”, comenta ele, após se recompor. “Até nosso próximo encontro.”

    A madeira da entrada da árvore se fecha como véu e a rachadura some, deixando o tronco praticamente intacto, e a joia laranja para de brilhar. 

    “Ele ainda… não tem fé”, diz Brok.

    “Ele vai ver só”, comenta Rubi, animada.

    Quando o Galen ver como isso aqui vai durar, vai ter que nos dar um descontão, pensa ela.

    Ao mesmo tempo em que divaga, as asas da succubus tomam forma e saltam para fora da camisa. Em seguida, olha para o orc. “Vai precisar de uma carona?”, oferece ela.

    “Não”, responde Brok, no mesmo instante, balançando a mão que segura a tocha. “Eu fico melhor no… chão.”

    “Tudo bem, então”, diz Rubi, esticando as asas, preparando-se.

    Pelo menos vou chegar bem mais rápido em casa, ela pensa.

    Em um instante, com um bater de asas, a succubus alça voo. 

    “Até mais!”, diz ela, deixando o orc para trás. 

    Brok, no chão, fica em silêncio, vendo-a partir no céu escuro em meio às nuvens e às estrelas.

    A Lorde… parece estar com um ótimo humor, pensa ele, abrindo um sorriso sutil no meio do rosto áspero.

    No alto, Rubi voa rápido, cortando o céu rumo à Cahjia. Em poucos minutos a cidade surge no horizonte e a diaba já se direciona para o centro, onde fica sua torre.

    A succubus sobrevoa as construções de pedra, sem chamar atenção, passando completamente despercebida pelos orcs que patrulham o interior do muro circular.

    Sem dificuldades, ela alcança a torre e pousa suavemente no terraço. 

    Quando aterrissa, Rubi guarda suas asas e dá uma boa olhada nos arredores, conferindo rapidamente a cidade.

    As coisas seguem quietas, com a maior parte da tribo de Brok dormindo dentro das casas. O vento da noite faz as tochas balançarem e poucos indivíduos circulam por Cahjia.

    A diaba respira fundo, tranquila. Tudo calmo por enquanto, ela constata.

    Em seguida, Rubi desce pela escadaria até o andar intermediário da torre, onde deixa as caixas que carrega no chão.

    Bem, com certeza o Byron não voltou ainda. Será que a Yrah está dormindo?, ela se pergunta.

    A diaba também tira das costas o arco e o casaco e os coloca em um canto, encostados na parede. Ela volta para a escadaria e desce mais alguns degraus, rumo ao andar debaixo. 

    Já no salão de entrada, sem sair da escadaria, Rubi olha para a pequena árvore próxima à entrada e, logo ao lado do caule, avista a pequena raposa, dormindo enrolada em si mesma.

    É. Bem como eu pensei, ela conclui, subindo novamente até o andar intermediário. 

    Rubi leva as mãos à cintura e encara uma das caixas. Sou só eu mesma. 

    Ela se concentra por um instante. “Huginn! Muninn!”

    Uma energia densa e escura começa a aparecer em seu redor, como uma nuvem escura em miniatura. A massa mágica se parte em dois e toma a forma de dois corvos negros de olhos vermelhos. 

    Eles voam para pousar nos ombros de Rubi, mas ela gira o corpo, saindo do caminho deles, e os pássaros acabam aterrissando no chão ao seu lado. 

    Não que eu não confie no Galen, mas é sempre bom ter alguma precaução. Ainda mais quando vou usar pergaminhos de uma língua que não sei ler, pensa ela, olhando para os corvos. Pelo menos com esses dois vou estar protegida caso algo exploda. 

    Rubi pega e abre a caixa dos pergaminhos.

    Antes de tudo, ela dá uma lida na lista de instruções. Até que é bem fácil. Nada diferente do que o Galen disse, constata a diaba. Acho que vale a pena tentar aprender élfico depois. 

    Ela suspira e se concentra mais uma vez. A auréola translúcida e rosa aparece brilhando em sua nuca. 

    Primeiro, o de remover qualquer ocultação, pensa ela, na sequência pegando um dos pergaminhos mais amarronzados. 

    Rubi o leva até próximo à auréola. “Apanta!”, declara ela. 

    O papel em sua mão começa a se transformar em cinzas e sumir no ar, indo das pontas até o meio, até que, instante depois, desaparece por completo. 

    Após o pergaminho sumir, a diaba fica parada por alguns segundos e nada acontece. Bem, nada explodiu. Dá pra continuar, conclui ela. 

    Rubi pega outro pergaminho, mas dessa vez o abre. O papel velho é desenrolado, revelando escritas pretas em uma língua desconhecida, com letras élficas que não possuem significado algum aos olhos da diaba. 

    Esse é o que vai fazer a mágica acontecer, pensa ela. Tomara que dê certo. 

    A diaba vira o papel de costas e o aproxima da coroa. Ela fecha os olhos e pronuncia a próxima palavra de ativação, “Teitha!”

    As escritas no papel começam a se mover, como se fossem tinta fresca. As letras mudam de forma e tamanho, reconstruindo-se em novas palavras. 

    Em menos de um minuto, tudo para e Rubi checa o pergaminho novamente. 

    Mais uma vez, vê um papel recheado de palavras e letras sem sentido. Ainda assim, um olhar animado aparece em seu rosto. 

    Continuo não conseguindo ler. Mas com certeza está diferente. Algo deu certo, ela pensa. Agora só falta traduzir o élfico. 

    A diaba saca o último pergaminho da caixa e o abre. Ele é menor e o papel dele é bem mais novo que os anteriores. Suas letras escuras, com palavras que misturam élfico com a linguagem dos homens.

    É isso, então, conclui ela. 

    Rubi aproxima o pergaminho novo do papel em élfico e diz a última palavra de ativação, “Nevia!”.

    Assim como no segundo pergaminho, inicialmente as palavras se misturam como tinta nova antes de tomar forma, entretanto, dessa vez as novas letras são diferentes. 

    Em poucos instantes, um texto novo se completa no papel. A organização e disposição das palavras são exatamente as mesmas do pergaminho em élfico, porém a escrita é na língua dos homens, completamente compreensível aos olhos da diaba. 

    Quando tudo se estabiliza, Rubi solta o pergaminho em élfico e volta toda a atenção para o novo texto.

    Ela o lê sob a luz fraca que entra pelas janelas e o brilho que a própria auréola em sua nuca emite. 

    Os olhos arregalados, passando de palavra em palavra. A cada frase lida, sua animação cresce, refletindo-se em um sorriso aberto no rosto. 

    “Isso… é incrível!”, declara ela.


    Nota:
    Javal é uma unidade de medida usada naquele continente, principalmente em países com muito fluxo de aventureiros. Ela corresponde ao peso aproximado de um lombo grande de javali. Para conversão:

    1 Javal ≈ 1,5 quilogramas.

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