A marcha através da Floresta Sussurrante assemelhava-se a caminhar pelo estômago de um deus morto. As horas se arrastavam, mas a paisagem nunca mudava. Eram apenas os mesmos troncos colossais de pedra negra, as mesmas raízes retorcidas como veias expostas e a mesma neblina rasteira que tentava congelar o sangue nas veias dos Exploradores.

    E os sussurros. Sempre os sussurros cortando a mente.

    Caelan pisou sobre uma raiz grossa, a bota escorregando levemente na fuligem úmida, mas recuperou o equilíbrio antes de quebrar o ritmo da formação. O recruta olhou para a vastidão asfixiante ao redor. A bússola de navegação que Trok carregava girava de forma enlouquecida e errática, completamente inútil diante do magnetismo corrompido do lugar.

    — Esse lugar não obedece a nenhuma lei do Fronte — comentou Caelan, a voz mantida num tom baixo, quase engolida pelo farfalhar das folhas de pedra. O suor frio escorria pelo seu pescoço. — A Cratera de Ashfall era um abismo de destruição, mas era tangível. A gente via as paredes de rocha. Aqui… sinto que estamos andando em círculos. Esta floresta foi desenhada para nos exaurir até a loucura.

    Trok, caminhando logo atrás dele, cuspiu os restos da raiz amarga no chão coberto de cinzas. O atirador mantinha a besta mecânica erguida, os olhos varrendo os pontos cegos entre os troncos milenares.

    — Labirintos não são feitos para matar. São feitos para que a presa desista de viver por conta própria — respondeu o veterano, o tom carregado do cinismo habitual, mas com uma ponta de tensão que raramente demonstrava. — A aberração de Ashfall não escolheu essa mata como rota de fuga por acaso. O desgraçado sabe que o terreno joga a favor dele. O monstro é o senhor da casa, e nós somos os ratos cegos correndo pelos rodapés.

    Na vanguarda da formação, os passos pesados de Vorn cessaram. O gigante de obsidiana fincou o escudo no solo, virando parcialmente o pescoço grosso.

    — Se continuarmos marchando às cegas, a exaustão vai quebrar os tornozelos da garota e os seus antes mesmo do Alfa mostrar as garras — rosnou Vorn, o olhar duro focado em Gravios.

    O General já havia parado. A Lenda de Lancrey não transpirava hesitação. O veterano girou os pulsos, as Manoplas do Crepúsculo Inerte emitindo um zumbido grave e um brilho roxo e pulsante que empurrou as sombras para trás por alguns metros. Gravios encarou a abóbada densa da floresta acima deles.

    — O garoto e Trok estão certos. Caminhar em silêncio neste terreno é entregar a iniciativa estratégica ao inimigo — cravou Gravios, a cicatriz em seu rosto tensionando-se. A mente tática do líder já havia dissecado o tabuleiro. — O Alfa não vai nos atacar enquanto tivermos força total. Ele tem o intelecto roubado de nossos mortos. Ele está esperando um erro. Uma brecha na nossa sanidade.

    Mirel aproximou-se, a Malha de Prata Lunar reluzindo palidamente na penumbra.

    — Então como forçamos a aberração a sair da toca? — perguntou a batedora, os dedos ágeis girando as Adagas de Rubro Lunar num movimento de pura ansiedade contida.

    O General sorriu. Um sorriso desprovido de qualquer calor humano; a expressão de um açougueiro olhando para a própria faca.

    — Nós fazemos exatamente aquilo que aconteceu na Cratera de Ashfall para atrair o desgraçado. Nós acendemos um farol no quintal dele. — Gravios virou o rosto para o atirador. — Trok. O sinalizador de fósforo branco.

    O atirador sênior arregalou os olhos por uma fração de segundo, antes de um sorriso maníaco e eufórico rasgar o seu rosto.

    — General, se eu disparar um sinalizador de fósforo no meio dessa sopa de neblina, cada abominação num raio de três quilômetros vai saber as coordenadas exatas das nossas cabeças — alertou Trok, já enfiando a mão num compartimento lacrado de couro e chumbo em sua bandoleira.

    — Essa é a intenção — decretou Gravios, batendo os dois punhos metálicos um contra o outro. O estrondo do impacto soou como um sino de guerra. — O Alfa é territorial. Se iluminarmos o covil dele como se fosse dia, o orgulho de predador supremo vai forçá-lo a descer das sombras para esmagar os invasores. Esquadrão! Formação em círculo! Costas com costas, armas em riste! O inferno vai descer!

    Eles não questionaram. A coreografia forjada no sangue e no pó da arena de Lancrey assumiu o controle.

    Vorn cravou o imenso Escudo de Obsidiana na direção do corredor mais largo entre as árvores, formando a âncora intransponível do grupo. Caelan sacou a Espada Longa de Ruptura, virando as costas para o gigante, a lâmina negra pronta para guilhotinar qualquer coisa que se movesse no flanco oposto. Gravios assumiu a lateral, os punhos roxos iluminando a terra morta. Mirel agachou-se no centro do círculo, as lâminas vermelhas prontas para cobrir qualquer ponto cego e interceptar ataques aéreos.

    Trok posicionou-se protegido pelo escudo de Vorn. Ele sacou um virote diferente dos demais. Era espesso, prateado e possuía uma ponta de vidro leitoso recheada de um composto alquímico volátil que o próprio Regiz considerava perigoso demais para carregar.

    O atirador engatilhou a besta, apontou a arma quase perpendicularmente para cima, mirando numa fresta entre os galhos de pedra, e apertou o gatilho.

    FWHUMP.

    O virote rasgou a neblina num arco perfeito, sumindo na escuridão da copa das árvores.

    Durante três segundos agonizantes, nada aconteceu. O silêncio reinou absoluto, exceto pelo eterno sussurro cortante das folhas.

    Então, a noite virou dia.

    Uma explosão de luz branca e ofuscante detonou no alto do dossel. O clarão foi tão violento que apagou as sombras, revelando a monstruosidade arquitetônica e retorcida da Floresta Sussurrante. O fósforo alquímico queimou com uma fúria incandescente, projetando o brilho através da névoa e transformando a área num teatro pálido e aterrorizante. Detritos incendiados começaram a chover lentamente como estrelas cadentes, queimando a poeira e o limo das pedras ao tocarem o solo.

    Os guerreiros apertaram os olhos contra a luz crua, os músculos tensionados, o oxigênio preso nos pulmões. Esperavam o tremor do chão. Esperavam o impacto de um monstro de toneladas quebrando as árvores e rugindo com a força de um furacão.

    Dez segundos se passaram. O clarão do sinalizador começou a diminuir, piscando de forma moribunda lá no alto.

    Apenas o estalar das fagulhas quebrando o silêncio. Nenhum estrondo. Nenhum Alfa.

    Caelan piscou, os braços começando a formigar sob o peso da pesada espada. A tensão estava cobrando o seu preço.

    — Funcionou? — sussurrou o garoto, a voz embargada, os olhos varrendo os troncos banhados na luz mortiça do fósforo. — Cadê a fera?

    A resposta não veio com um urro colossal, mas com um som rastejante.

    O estalo do sinalizador não atraíra o dono da casa; atraíra a matilha que vivia nas paredes.

    Começou com um som gutural. Um ronronar rasgado que ecoava dos troncos retorcidos. Em seguida, o som de garras ósseas arranhando a casca de granito multiplicou-se. Não vinha de uma única direção. Vinha de todas as direções simultaneamente. Do chão. Dos galhos médios. De trás das raízes petrificadas.

    O clarão branco do sinalizador apagou-se definitivamente, devolvendo o acampamento à penumbra arroxeada das manoplas de Gravios.

    Na neblina escura que cercava o círculo de aço do esquadrão, pontos luminosos começaram a se acender. Primeiro dez. Depois trinta. Logo, quase uma centena de olhos brilhantes em tons febris de vermelho-sangue e amarelo-enxofre formaram um anel claustrofóbico ao redor deles.

    Rosnados de fome primitiva, acompanhados pelo som asqueroso de saliva ácida pingando na poeira de ossos, preencheram o ar. Não era um exército liderado por intelecto. Era uma maré de Xemios Menores, Crymios venenosos e outras bestas rastejantes e cadavéricas que outrora habitavam o alto da copa. O clarão havia cegado as criaturas temporariamente e despertado o instinto de matança coletiva.

    Vorn ergueu o escudo, a expressão endurecendo como rocha vulcânica. Trok engoliu em seco, encaixando rapidamente um virote explosivo comum na calha da besta, o sorriso maníaco de antes sumindo do rosto.

    A constatação de que haviam chutado um ninho de vespas no lugar de atrair o urso bateu com violência.

    Mirel girou o pescoço, observando a parede de olhos vermelhos babando na neblina, a horda pronta para triturá-los pelo puro peso numérico.

    — Merda… — murmurou Caelan, erguendo a ponta da Espada de Ruptura, o terror dando lugar ao desespero tático. Ele encostou as costas firmemente nas costas de Vorn.

    — Definitivamente… não foi isso que a gente quis chamar.

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