Capítulo 29 – A Arquitetura da Traição
A luz trêmula das velas projetava sombras irregulares nas paredes de pedra da cidade soterrada. O silêncio na base da Sem Rumo era opressivo, quebrado apenas pelo gotejar constante da umidade infiltrada no teto e pelo raspar áspero do carvão contra o pergaminho.
Sem Nome, o líder sem rosto da rebelião e ex-Arquivista de Lancrey, debruçava-se sobre uma mesa de carvalho apodrecido. Diante dele, um mapa do castelo principal tomava forma através de traços metódicos e precisos.
— Quarenta e oito horas — a voz de Sem Nome soou abafada pela máscara de linho escuro, carregada de uma urgência gélida. — O Esquadrão Gravios atravessa o Portão Norte em exatos dois dias. Quando o fizerem, não haverá banquete ou fanfarras de glória. Haverá correntes. O Rei Aldric e o Lorde Comandante Baelon já afiaram as lâminas dos carrascos. Se não tivermos o controle da infraestrutura quando a armadilha se fechar, a Lenda de Lancrey será executada em praça pública por alta traição.
Liriel encostou as costas na parede fria da cripta, cruzando os braços. A garota respirava de forma curta, os olhos fixos na planta tática sobre a mesa. Sua alcunha na arena era Sem Compaixão, mas a frieza que exibia nos combates vacilava sob o teto daquela conspiração. Rastejar nas sombras, planejar furtos, operar como assassinos… aquilo contrariava cada lição de combate frontal que seu pai a ensinara.
Mas a honra de um combate limpo não salvaria a vida dele.
— Para orquestrar a fuga deles de dentro do próprio perímetro militar, precisamos de rotas que nem a Guarda Real conhece — continuou Sem Nome, batendo a ponta do giz no desenho. — Precisamos das plantas estruturais originais do castelo e da base dos Exploradores na muralha. Os dutos esquecidos, as paredes falsas, os esgotos da fundação. A Coroa mandou queimar todas as cópias públicas há dez anos.
O ex-Arquivista ergueu o rosto mascarado, olhando na direção do canto mais escuro da sala.
— Mas a nossa inteligência confirmou que uma única cópia sobreviveu, não é?
Sentado sobre um barril vazio, Sem Rosto não disse absolutamente nada. Ele apenas parou de afiar sua faca de arremesso por um segundo, ergueu a mão enluvada na direção da luz da vela e fez um “joinha” afirmativo com o polegar. Logo em seguida, voltou a raspar metodicamente a lâmina na pedra de amolar, ignorando o resto do mundo.
— Exato — Sem Nome suspirou, já acostumado com o mutismo bizarro do especialista. — O cilindro de chumbo com os originais está trancado no cofre pessoal de Baelon. E é aí que a matemática se torna um pesadelo logístico.
O líder desenhou um longo retângulo no quadro, dividindo-o e marcando três portas.
— Os aposentos de Baelon ficam na Ala Dourada, o corredor de segurança máxima. O quarto dele é o do meio. À direita, a suíte dupla do Rei Aldric, vigiada por dois guardas da elite em tempo integral. À esquerda… os aposentos de Silas, o atual Chefe dos Arquivistas.
Liriel travou o maxilar ao ouvir o nome. A presença de Silas naquele corredor não era um acaso; os ratos burocráticos do Rei sempre ficavam perto do poder para manipular a história. O corredor inteiro era uma fortaleza dentro de uma fortaleza.
A garota descruzou os braços, os dedos tremendo levemente de pura frustração contida. Ela caminhou até a mesa, cravando as duas mãos na madeira podre e encarando o mapa.
— Eu odeio isso — Liriel sussurrou, a voz embargada, os olhos brilhando de raiva enquanto encarava o líder mascarado. — Eu odeio ser um rato no escuro. Se fôssemos um exército de verdade, marcharíamos até a Ala Dourada e arrancaríamos a cabeça do Baelon. Mas… — Ela engoliu em seco, a imagem de seu pai e de seu irmão sendo arrastados para o cadafalso invadindo sua mente. — Pelo meu irmão. E pelo meu pai. Eu faria qualquer coisa. Eu atravesso aquele inferno. Só me digam como.
Sem Nome olhou para a garota. Havia um respeito gélido na única fresta visível de sua máscara. Ele não ofereceu conforto paterno; no Fronte, o único conforto válido era a precisão.
— Força bruta é suicídio, Liriel. Um grito no corredor e o castelo inteiro entra em confinamento de aço. Isso precisa ser um fantasma entrando e saindo — explicou o líder, virando-se para o restante da equipe. — O plano baseia-se na janela da Hora da Cinza. Duas e quinze da madrugada. O único momento em que a patrulha do corredor troca de turno, e os guardas estão no seu menor nível de alerta.
Sem Caminho, o especialista em infiltração da Sem Rumo, deu um passo à frente, riscando uma linha pontilhada que subia pela lateral do desenho do castelo.
— Infiltração vertical — disse ele, a voz rouca e metodicamente monótona. — Entrar pelo corredor principal é impossível. O piso é de mármore polido de Nívea; qualquer sola produz um eco que viaja metros. Sem Voz fará a escalada pela face externa da torre sul. Cento e vinte metros de pedra exposta ao vento. Sem cordas, para não deixar silhuetas nem rastros visuais caso a patrulha dos muros aponte uma tocha.
Sem Voz apenas inclinou a cabeça levemente, confirmando que a possibilidade de despencar para a morte era um risco aceitável.
— Quando ele alcançar a varanda de Baelon — Sem Caminho continuou —, não usará gazuas. A fechadura da varanda é metálica e possui travas de tambor duplo; destrancá-la faria o som das engrenagens estalar. Ele usará uma pasta de ácido corrosivo nas dobradiças. Derrete o metal em dezoito segundos sem fazer um único ruído.
— E os guardas da porta do Rei e do Silas? — questionou Liriel, a mente dela acompanhando o ritmo alucinante do planejamento, procurando brechas. — Eles estão a menos de cinco metros de distância no corredor. Se o ácido chiar ou o Baelon tossir mais alto enquanto o cofre é aberto, eles escutam.
— É aí que a nossa distração entra — interveio Sem Nome, pegando o giz novamente. — Três minutos antes do Sem Voz encostar na varanda, Sem Rosto e eu estaremos na casa de caldeiras da cidade alta, três andares abaixo da Ala Dourada. Nós vamos sabotar a válvula de pressão principal do aquecimento hídrico.
Sem Nome apontou o giz na direção do canto escuro.
— Você revisou as válvulas ontem, certo?
Sem Rosto não levantou a cabeça. Ele apenas ergueu a mão esquerda mais uma vez, exibindo um perfeito e silencioso “joinha” para o líder.
— Excelente — Sem Nome prosseguiu, ignorando a falta de palavras do colega. — A sabotagem não vai causar uma explosão, mas vai superaquecer o sistema. Isso vai enviar uma onda de vapor massiva e condensada direto para os dutos do corredor superior. Os dutos do Rei Aldric e do Silas vão chiar alto. O vapor denso e repentino vai acionar o protocolo de segurança da Guarda Real.
— Uma cortina de fumaça — compreendeu Liriel.
— Melhor — o ex-Arquivista a corrigiu. — Os guardas terão que abrir as portas para verificar se o Rei e o Arquivista-Chefe não estão sendo asfixiados ou queimados, quebrando a linha de visão do corredor e focando na proteção dos alvos. É o caos controlado. Ninguém vai prestar atenção se algo fizer um barulho abafado dentro do quarto escuro de Baelon.
Sem Nome desenhou um pequeno círculo no centro do quarto do Lorde Comandante.
— Baelon tem o sono de um morto, ele se dopa com tinturas para a dor fantasma das antigas batalhas. Sem Voz entrará enquanto o vapor distrai os guardas. O cofre fica debaixo do tapete de urso, perto da lareira. Cofre Padrão Lancrey, modelo de seis cilindros. A combinação é baseada na matemática dos antigos arquivos, eu já deduzi o padrão e anotei neste pergaminho.
O líder bateu o dedo com força na madeira podre da mesa.
— Cronometragem absoluta. Sem Voz tem exatamente cento e oitenta segundos desde o início do vapor nas tubulações para derreter as dobradiças, girar a catraca do cofre sem errar, pegar a planta, fechar o piso e saltar da varanda de volta para o vazio. Cento e oitenta segundos. Se ele atrasar um segundo, a Guarda percebe que o vapor foi uma falha nas caldeiras e tranca o castelo inteiro.
Liriel sentiu o peso daquela operação esmagar seus pulmões. A margem de erro era inexistente. Uma gota de ácido no mármore errado. Um passo em falso. Se falhassem, sua família inteira seria enforcada.
A garota olhou para os rostos cobertos de seus aliados. Eles eram as sombras rejeitadas de Lancrey, os párias, mas eram as ferramentas mais precisas e letais que a escuridão já havia forjado.
Sem Nome pegou um pergaminho com as rotas de fuga e o entregou para Liriel.
— O tabuleiro está posto, sombras. A execução requer perfeição — declarou o líder, ajeitando a máscara no rosto. — Vamos revisar os ângulos de escalada e a contagem dos giros do cofre, segundo por segundo. Nós vamos invadir a Coroa, e quando eles perceberem, nós já seremos fumaça.

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