Índice de Capítulo

    Afundou o rosto no ombro do homem, incapaz de falar, com a mão apertando o peito numa tentativa desesperada de reduzir o peso sobre o coração.

    Solavancos repentinos, causados pela correria do tio, a impediam de cair no sono.

    Depois de alguns minutos, talvez por estar demasiado ferido, Dokin não tinha percorrido uma distância favorável, continuando ainda no campo de visão dos soldados e daqueles que flutuavam acima de todos.

    Quando ergueu o rosto, Vaiola tremeu de leve, em choque, ao ver vários moradores saindo das chamas e se reunindo como uma muralha protetora atrás dela e do tio.

    Ninguém entendia como aqueles corpos carbonizados ainda se moviam, mas lá estavam eles, tentando formar uma cortina humana onde aqueles dois poderiam desaparecer com facilidade.

    Mas eles não foram rápidos o suficiente.

    Vaiola apenas viu um flash prateado e, em seguida, sentiu algo metálico roçar sua perna.

    Uma espada longa tinha atravessado Dokin.

    O homem até tentou continuar se movendo, mas aquele corpo tinha atingido o seu limite. Sabendo disso, Dokin pousou a menor no chão e deu seu último suspiro.

    — Ti… — A voz da nanica saiu rouca, raspando a garganta. Ela nem pôde terminar. Dokin sorriu largamente, então seu corpo tombou.

    Espadas de aço continuavam caindo.

    Antes que pudesse processar tudo, Vaiola sentiu outro solavanco e foi novamente erguida. Quando as espadas se cravaram na terra, ela virou o rosto para o lado.

    O choque foi tanto que ela apenas abraçou quem a carregava e chorou mais uma vez.

    — O… o ti…

    — Eu sei, pequena. — Glamich respondeu, acarinhando a cabeça dela.

    — Vejam só o quão corrompidos estão… — Outra voz lá em cima soou. — Voltam até dos mortos para proteger esse demônio imundo. Não veem que estão apenas sendo usados?

    — Demônio? Hahahaha! — Alguém na multidão de corpos carbonizados gritou, em deboche e indignação. — Como vocês têm coragem de chamar aquela criança de demônio depois de tudo o que fizeram aqui? O que nós fizemos contra vocês?

    — Essa sua mente corrompida nunca entenderia a graça divina…

    — Graça divina? Graça divina!!!!? — O corpo carbonizado tremeu, tomado pela raiva. — Que tipo de deus faz isso contra um povo que estava apenas tentando sobreviver a um dia de cada vez? Nas grandes cidades, a escravatura reina, humanos tratando como bestas os seus semelhantes, matando quando querem e tomando para si o que não lhes pertence…

    — Por que não punir esses? É o dinheiro? Essa tal graça divina funciona assim? Quem tem mais, recebe melh…

    — Cale a…!!

    — POIS EU PREFIRO SER UM LACAIO DE UM DEMÔNIO COMO ELA A TER DE SERVIR DEUSES COMO OS VOSSOS!!!!

    — Quanta heresia!!

    Não houve sequer aviso. Inúmeras armas brancas começaram a chover do céu, desde pequenas facas até longas lanças.

    O corpo carbonizado que falava antes foi o primeiro a tombar, atravessado por cerca de cinco espadas longas.

    Um a um, os corpos carbonizados foram ficando para trás, rasgados pelas armas que caíam dos céus.

    Enquanto seu pai corria com ela no colo, Vaiola olhava para aquilo em desespero. Ainda não dava para entender o panorama completo da situação, mas uma coisa ela já entendia:

    “É… é minha culpa?”

    Em apenas alguns segundos, vinte corpos carbonizados foram travados no chão, seus corpos perfurados já nem sangravam mais.

    — Pa… ra… — Ela murmurou, reunindo forças para se debater. — Pa… ra…

    Glamich, fragilizado, cedeu à agitação da filha; seus braços a soltaram e ela caiu no chão.

    — Vaiola, espera!

    — Pa-ra… — A nanica não escutava mais seu pai. — Pa…

    Mais corpos carbonizados começavam a se reunir, substituindo aqueles que haviam caído. Mas não era suficiente; a chuva de lâminas estava lá para continuar reduzindo aqueles números.

    — Para! — Sua voz enfim saiu, ainda fraca, mas audível.

    Levantou-se cambaleante, dando um passo de cada vez, lutando para se manter firme.

    — Para! — Não importava o quanto ela tentasse gritar, sua voz não alcançava ninguém e as lâminas continuavam caindo.

    Depois de alguns passos, seu corpo cedeu ao desespero e ela caiu de joelhos.

    — Hunf! Hunf! Hunf! — Aquela fumaça densa, que arrastava odores tóxicos, começava a afetá-la. — Eu… — Mas ela era uma Hermês, não podia desistir. — Eu… Hunf! Hunf! — Foi quando um vigor repentino se apossou do seu corpo, restaurando, por apenas um segundo, aquela energia infantil. — EU MANDEI PARAR!!!!

    Aquele grito se espalhou por toda a favela, agitando os ventos, as labaredas e…

    Clang!

    Todas as lâminas que caíam dos céus se transformaram em frangalhos, caindo em seguida como flocos de neve.

    — E-ela… — As vozes no alto soaram atônitas, incapazes de acreditar no que acontecia. O próprio fogo tinha parado de balançar e consumir. — Ela possui… uma Autoridade?

    — Isso… — Um toque de pavor podia se sentir ali. — E-ela… ela precisa ser parada… AGORA!!!

    Glamich olhou para as chamas imóveis sem entender, mas não se prendeu àqueles detalhes. Já estava pronto para usar aquela breve distração para tirar a filha dali.

    — Vem, pequena, nós…

    — Sou eu que vocês querem, não é mesmo? — A voz chorosa da menor soou, pausando o avanço dos corpos carbonizados. — Eu estou bem aqui! Deixem eles em paz! Estou bem aqui!

    — Vaiola… — Glamich estava logo atrás dela, tomado pela tristeza de não poder fazer muito pela própria filha. Ele estava com queimaduras graves por todo o corpo e, em breve, não mais conseguiria sequer ficar de pé.

    — Você acha que nós negociamos com demônios? Acha que somos tolos o suficiente para deixar todos aqui irem embora, para que depois sirvam como uma semente destinada a espalhar a sua corrupção? — Aqueles lá em cima falaram, mais vigorosos do que antes. — Cavaleiros Templários, A Ordem De Purificação Já Foi Emitida!! Estamos Lidando Com Um Rei Demônio Portador De Autoridade, Que Planeja Poluir O Mundo Com A Sua Corrupção, Usando De Marionetes Para A Disseminação!

    — Não Permitam Que Sobre Um Só.

    Vendo que a situação parecia escalar para um patamar ainda pior do que antes, Glamich se curvou rapidamente para tirar a filha dali.

    — Vaiola, nós…

    Swing.

    Bam!

    Ao escutar o baque atrás de si, Vaiola virou a cabeça de forma robótica. Depois de tudo o que tinha visto naquela noite, sua mente estava continuamente imaginando os piores desfechos possíveis para aquela situação, e o que mais temia acabava de acontecer.

    Glamich estava estatelado no chão, com uma flecha atravessada no pescoço.

    A pequena olhou para o lado. Uma pequena unidade de soldados estava ali e, entre eles, um homem de longos cabelos loiros baixava o grande arco.

    Ela queria gritar. Seu coração pesava tanto no peito, mas tudo nela paralisou.

    — Vi… va… — Foram as últimas duas sílabas daquele amado pai.

    Logo em seguida, uma chuva brilhante caiu dos céus. Eram lâminas de aço misturadas a lâminas de fogo e outras que pareciam… pinturas?

    Nenhum dos corpos carbonizados resistiu.

    Os olhos da nanica estavam congelados no corpo do pai, que jazia sobre uma poça de sangue cada vez maior, coberto por queimaduras que deviam ter tirado sua vida muito antes daquela flecha.

    As palavras dele soavam repetidamente, como ecos infinitos em sua mente.

    “Viva.”

    “Viva.”

    Depois de alguns segundos presa àquilo, sua face se distorceu numa expressão difícil de interpretar. Então seus olhos brilharam — um brilho carregado de algo sombrio — e, por fim, ela riu.

    — HAHAHAHAHAHA! — Até os soldados mais distantes recuaram um passo, confusos com aquela explosão repentina de alegria. — HAHAHAHA!! — Sua nuca quase tocava as costas e os céus pareciam se esconder atrás daquela densa camada de nuvens negras, assustados com o quão distorcida estava a face daquela criança. — ELE MANDOU… HAHAHAHA… ELE MANDOU EU VIVER… HAHAHAHAHA!

    Seus olhos voltaram para o pai e a gargalhada ficou ainda mais alta.

    — VOCÊS OUVIRAM… HAHAHA… VOCÊS OUVIRAM AQUILO!!? — Virou-se para os Cavaleiros Templários, limpando as lágrimas com uma das mãos e apontando para o corpo que ainda nem tinha esfriado. — ELE MANDOU EU VIVER… HAHAHAHA!

    Aquilo continuou por quase trinta segundos e parecia que não chegaria ao fim tão cedo…

    — AAAAAAHHHRG!!! — Com aquele grito repentino, que carregava algo muito mais denso do que uma simples raiva, os soldados deram mais um passo para trás. A aparente alegria da nanica tinha se esvaído. — SEU MENTIROSO!!! E AQUELA HISTÓRIA DE QUE OS PAIS DEVEM SEMPRE DAR O EXEMPLO!!? VIVER!!? QUE AUTORIDADE VOCÊ TEM PARA ME DAR ESSA ORDEM, ESTANDO AÍ JOGADO!?

    — QUE TIPO DE EXEMPLO VOCÊ ACHA QUE ESTÁ DANDO AGORA, HEIN!!?

    — LEVANTA DAÍ!!

    Suas pequenas mãos caíram sobre as costelas do pai, sacudindo aquele corpo com força. O movimento foi tão intenso que a flecha acabou se partindo em algum momento.

    — LEVANTA! LEVANTA! EU MANDEI LEVANTAR, PORRA!!

    Os soldados deram mais um passo para trás. A voz de Vaiola tinha saído duplicada e algo semelhante a uma coroa de chifres roxos começou a se delinear sobre sua cabeça.

    Mas nada mudou.

    — Levanta… por favor… — O sacudir cessou e a menor apenas conseguiu se curvar até tocar a testa no abdômen do pai, enquanto as lágrimas continuavam caindo sem parar. — Pai… — Por alguns segundos, os soluços, os gemidos e o choro contido roubaram suas palavras. — Eu não quero… ficar sozinha.

    Ela não disse mais nada pelos cinco segundos seguintes e os demais, ainda sem entender como reagir àquela situação, apenas observavam a pequena Rainha Demônio, que parecia ter adormecido.

    Depois daqueles segundos de silêncio, as últimas duas sílabas deixadas pelo pai voltaram a ecoar em sua mente.

    “Vi… vá.”

    Os olhos da pequena se abriram abruptamente e seu tronco e cabeça se ergueram.

    Era uma iluminação.

    “Entendo.” — Vaiola murmurou em sua mente.

    Ela tinha sido uma menina muito má. Desobedeceu às ordens do pai.

    Glamich queria tirá-la dali. Todos os moradores queriam vê-la longe daquele lugar. Mas ela insistiu em ficar.

    Quem ela pensava que era? Algum tipo de heroína? Mártir? Salvadora?

    Ela tinha sido tão arrogante.

    — Entendo.

    Se tivesse deixado o pai levá-la embora enquanto os outros lutavam para criar uma distração, talvez alguma coisa tivesse sido diferente.

    Mas não.

    Ela escolheu voltar.

    E o que conseguiu?

    Apenas piorou tudo.

    — Entendo.

    Mas ainda existia uma chance. Ela ainda estava viva, afinal. Enquanto continuasse daquele jeito, ainda existia uma forma de resolver tudo, de voltar a ser uma boa menina.

    — Entendo.

    Ser uma boa menina era algo muito simples. Não fácil, mas simples.

    Ela só precisava voltar a obedecer às ordens do pai.

    — Entendo.

    “Viva”, a ordem que Glamich lhe dera em seu último suspiro era bem simples. Ou pelo menos seria, se não houvesse um exército inteiro querendo exatamente o oposto.

    — Entendo.

    Mas, se era daquele jeito, se ela precisava viver mesmo diante daquela situação, então aquela ordem final podia ser vista por outro ângulo.

    — Entendo.

    Agora ela entendia o que seu pai queria dizer com aquela ordem. Afinal, diante de um mundo que desejava vê-la morta, existia apenas uma maneira de viver.

    Ou seja, aquela ordem significava:

    “Mate todos!”

    “Destrua tudo!”

    Era tão óbvio.

    — Olha só o que você fez com tantas pessoas de bem, seu demônio imundo! — Um homem grande se afastou da unidade e se aproximou dela, portando uma grande espada. — Eu, Avirgan Gratyn, capitão da Unidade 5 dos Cavaleiros Templários, juro que…

    “O que está esperando?”

    Era aquela voz que antes lhe parecia desconhecida, mas estranhamente familiar. Uma voz à qual ela já tinha se acostumado. Uma voz que permanecera em silêncio durante os últimos dois meses.

    Era sua amiga imaginária sussurrando em sua mente.

    — Ma… tar… — Aquele murmúrio não veio sozinho. Um movimento de mão, tão rápido que sequer foi percebido, foi realizado pela pequena.

    — M-m-mas que merda…!! — Um dos Cavaleiros Templários gritou, os olhos arregalados e a mão que segurava a espada já sem forças.

    — CA-CAPITÃO!!! — Aquela unidade gritou, depois de alguns segundos de choque, observando o grande corpo do capitão Avirgan… ou melhor, observando a metade esquerda do corpo do homem, que expelia sangue e vísceras, formando uma poça.

    Aquele homem e metade da unidade atrás dele tinham sido dizimados de um segundo para o outro por uma força desconhecida.

    O mais assustador, aquilo que fez os Cavaleiros Templários hesitarem, era que aquele homem era um Campeão de Duas Estrelas, um Ascendido. Mas, de um segundo para o outro, sem que eles sequer vissem o que havia acontecido, o capitão perdera metade do corpo e metade da sua unidade tinha sido exterminada.

    — Haaaa. — Vaiola se levantou, seu corpo se contorcendo feito uma serpente enquanto os ossos estalavam. — Por quê?

    Ela se virou para os soldados. As escleras, antes brancas, estavam tomadas por um breu profundo e ameaçador; e dois pontos, um azul e outro roxo, brilhavam ali, conectados por uma fina linha avermelhada.

    — Por que hesitam? — perguntou, enquanto os cantos da boca se curvavam sutilmente. — Não estavam procurando por um demônio? — Cambaleou para a frente e o sorriso cresceu. — Pois bem… encontraram-no.

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