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    ​Enquanto a quilômetros dali, nas entranhas da floresta, a morte era convertida em vida e a vida em morte através da heresia de Isaac, no centro da arena de árvores e mata fechada, o ar era ditado por uma realidade muito mais primitiva. A única coisa que preenchia os pulmões de Helick era o hálito fétido, quente e carniceiro da Pantera-Chicote.

    ​O príncipe mais novo de Lyberion estava cara a cara com os olhos amarelos e precatórios do seu provável fim.

    ​Rhyssara fora categórica antes de desaparecer: as leis do Império a proibiam de erguer um dedo para ajuda-los. A fera era parte do teste. O obstáculo final da ascensão.

    ​As cinco caudas da criatura agitavam-se de forma errática e hipnótica no ar, como chicotes farpados prontos para retalhar o que restava da farda do rapaz.

    “Droga…”, os pensamentos de Helick atropelavam-se em uma tentativa inútil de traçar uma estratégia. “Tenho mana para uma última conjuração de gelo. Uma só. Eu poderia usá-la para criar uma distração e fugir… mas se eu fizer isso… Cassian ficaria. Eu não consigo carregá-lo. Não com os meus músculos tremendo desse jeito. Merda! Eu nunca vou deixar o meu irmão para trás!”

    ​Não houve tempo para mais nenhum cálculo. O chicote central da pantera, uma cauda espessa que terminava em uma lâmina curva, semelhante ao ferrão de um escorpião, esticou-se em um estalo sônico, mirando direto entre os olhos do príncipe.

    ​Em um reflexo puramente instintivo, gerado por anos de treinamento militar desde a infância, Helick cruzou o seu ARGUEM acima do rosto. O impacto foi brutal. O metal chiou e protestou contra a força esmagadora do golpe, e a violência do choque arremessou o príncipe contra o solo de mármore rachado.

    ​Antes que ele pudesse recuperar o fôlego, um peso colossal e sufocante desabou sobre o seu peito o fazendo arregalar os olhos em meio a dor.

    ​A Pantera-Chicote o havia prendido contra o chão, cravando as garras dianteiras sobre as costelas de Helick. O som do esterno do rapaz estalando sob a pressão foi abafado pelo grunhido aterrorizante da fera. O felino inclinou a cabeça de lado; seus caninos, longos e afiados como duas adagas gêmeas, roçavam a pele exposta do pescoço do príncipe.

    ​A cada respiração pesada do monstro, Helick sentia o ar faltar e um gosto amargo de ferro subir por sua garganta. O sangue começava a inundar os suas vias pulmonares. A criatura o estava esmagando vivo, saboreando o terror de sua presa antes de iniciar o banquete.

    “Então… é assim?”, uma calmaria mórbida e repentina começou a tomar a mente de Helick conforme o oxigênio parava de chegar ao cérebro. “É aqui que a minha jornada termina? Eu não consigo mais sentir a presença de Rhyssara… Aquela rainha de sangue vai mesmo nos deixar morrer como cães nesse chão?”

    ​A visão nas bordas de seus olhos começou a escurecer, sendo engolida por uma névoa estática e fria. Suas mãos perderam a força, e o cabo do ARGUEM deslizou por seus dedos inertes.

    ​Não havia mais saída. Não havia milagre biológico que sustentasse aquele corpo partido ao meio. Ele revisou cada cenário, cada feitiço, cada gota de energia, e a matemática da sobrevivência simplesmente zerou. Ele ia morrer.

    “Que se foda a Imperatriz. Que se fodam as leis”, pensou ele, focando os olhos turvos na silhueta imóvel de Cassian, caído a poucos metros dali. Uma última fagulha de determinação, puramente fraterna, acendeu-se no peito do caçula. “Esse resto de mana não vai me salvar. Eu já estou acabado… Mas você não, Cass. Pegue isso. Pegue tudo o que me resta. Só… por favor, acorde e corra.”

    ​Concentrando o último suspiro de sua alma, Helick começou a direcionar o filete final de sua mana para fora do corpo, preparando-se para apagá-lo de vez.

    No exato milésimo de segundo em que Helick fechou os olhos, entregando-se ao fim, um fenômeno bizarro cortou a penumbra da arena.

    ​Um som de conjuração ou o calor familiar de um aliado se aproximando. Um rastro duplo, violento e silencioso, riscou a penumbra da mata fechada vindo das profundezas mais escuras da floresta. Eram duas esferas de um brilho incomum, uma mistura desconfortável de um dourado quase divino envolto por uma névoa cinzenta e gélida, que emanava um cheiro sutil de terra molhada e ferro. De morte e sangue.

    ​Antes que a mente agonizante de Helick pudesse sequer processar aquele feixe luminoso, os projéteis desconhecidos mergulharam como duas flechas cadentes, cravando-se com violência cirúrgica diretamente no peito dos dois príncipes caídos.

    ​O impacto não gerou uma explosão de chamas ou estilhaços, mas sim uma onda de choque que reverberou diretamente na alma de Helick.

    ​No instante em que a Pantera-Chicote escancarou as mandíbulas para cravar suas presas na cabeça de Helick, uma torrente de poder avassaladora, vinda de uma fonte que ele jamais saberia explicar, reascendeu sua alma.

    ​Os olhos do caçula se abriram, injetados de uma nova vida.

    ​Um círculo mágico branco-azulado, brilhante e límpido como vidro de gelo, expandiu-se no mármore abaixo dele. Antes que o felino pudesse reagir, as Correntes dos Lobos emergiram do solo congelado com a força de aríetes, entrelaçando-se violentamente nas patas dianteiras e ao redor do pescoço musculoso da Besta Mítica.

    ​A fera, enfurecida pela súbita resistência, tentou desferir o golpe de misericórdia com suas cinco caudas farpadas, que se esticaram como chicotes mortais em direção ao corpo do príncipe. No entanto, o vínculo mágico de Helick respondeu em uma velocidade absurda: novas correntes gélidas brotaram da terra, trançando-se contra o aço das caudas e fincando-se profundamente no mármore.

    ​A Pantera-Chicote foi completamente imobilizada, esticada e presa contra o chão em um rugido de pura frustração.

    ​— O que… o que foi isso? — Helick arquejou, a mão direita erguida a centímetros das garras presas da pantera, mantendo a canalização das correntes com uma firmeza que ele não tinha há horas. Ele olhou para o próprio peito, confuso. — Essa energia extra salvou minha vida… mas sinto um peso horrível. Algo quase mórbido reverberando no meu peito…

    ​Os pensamentos em voz alta do jovem lobo foram interrompidos quando uma voz firme, porém cansada cortou o ar logo atrás dele:

    ​— Não é hora para nos preocuparmos com a origem disso, Helys.

    ​Helick virou o rosto, boquiaberto.

    ​Cassian estava de pé. Seu corpo, antes retalhado e sem forças, agora emanava uma aura revitalizada, embora seus olhos carregassem a mesma seriedade de quem acabara de cruzar o próprio inferno mental. O príncipe herdeiro empunhou seu ARGUEM, apontando-a para a floresta distante.

    ​— Precisamos levar essa pantera de vez e cumprir o plano — sentenciou Cassian, os olhos fixos no horizonte. — Eles estão lutando por nós. E estão nos esperando.

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