Capítulo 22 - Hrafn - Mandrágoras
“Há muito… muito tempo. A que se foda, quem eu quero enganar? Nem faz tanto tempo assim. Eu estava lá, eu estava lá quando a maldita coisa quase matou todos nós.
Tudo começou na primeira noite. Ouça bem, elas começam fracas, sugando do mundo, crescendo devagar, como toda raiz faz. A princípio, achamos que estávamos loucos. A floresta parecia se mexer sozinha, brincar conosco, zombando de nós. Galhos rangendo, quase como se rissem, só para ficarem em silêncio no instante em que alguém prestava atenção. Estavamos pensando demais, foi isso que achamos, paranoia. Um homem fora dos muros começa a ouvir o próprio medo em todo canto.
Ate que veio a primeira morte. Não de homem, nada tão severo. Talvez, olhando para trás agora, teria sido melhor se fosse. Talvez tivéssemos criado algum juízo e fugido com o rabo entre as pernas, mas a vítima foi um alce diamantado. Encontramos o bicho seco e furado no chão e julgamos ter sido algo da noite.
Sempre mais fácil enganar-se quando a moeda está em jogo. Tão burros, gananciosos, ignoramos todos os sinais pequenos, todos os avisos que agora parecem óbvios, até ser tarde demais.
Aconteceu na oitava hora da Estrela, talvez esse tenha sido outro motivo para termos sofrido tanto.
Não esperávamos merda daquele tipo sob a luz dela. O primeiro homem a cair foi o anunciador da missão. Um galho grosso como a perna de um adulto atravessou o peito do sujeito e se ramificou dentro dele. O resto de nós não se saiu muito melhor. Éramos bons guerreiros, corajosos e violentos. Lutamos, cortamos, quebramos árvores. Mas toda a floresta parecia estar contra nós. As raízes no solo, os galhos acima.
Styr fora nosso salvador, aquele magrelo. Ele é um desgraçado sorrateiro, eu lhe digo. Se um dia o conhecer, não confie nada seu a ele. Mas era útil, como era. Sempre via o que os outros não viam. Chamávamos de dança-olhos, porque aquelas órbitas nunca paravam quietas. Foi ele quem achou a raiz literal do problema.
Uma coisinha, posso afirmar que alguns diriam até que era fofa, se a vissem em outro lugar. Mas para nós, naquele momento, parecia o próprio diabo. A maldita mal alcançava metade da minha canela, e ainda assim seus bracinhos cresciam por metros e metros, se ramificando uma vez, depois outra, entrando no chão, se enroscando nas árvores, cercando-nos. Eu não fazia ideia de como aquilo era possível. Tão pouco faço hoje.
No fim, apos quase todos nós termos morrido com um buraco novo no corpo, seja um galho fino nos olhos, um grosso no peito, ou em lugares piores… pobre Herdis, que a estrela o tenha e o seu rabo arrombado por um galho. Finalmente consegui matar a coisa, fui capaz de esmagar o corpo maldito com o peso do meu martelo.
O bicho secou em segundos, ficou igual às próprias vítimas, devolvendo ao mundo o que havia roubado. Eu trouxe o corpo comigo, e quando voltei à cidade um boticário me disse que aquilo era uma mandrágora.
Ele me mostrou desenhos, raízes, usos, receitas. Riu na minha cara, como se eu fosse um retardado quando eu disse que a coisa matou dez homens adultos. Disse que mandrágoras não matariam nem formiga. Mas eu sei o que vi, por isso escrevo esta história. Se você estiver lendo isso, saiba que não sou louco, porra.
Fique longe de mandrágoras.”
* * *
Hrafn fechou a velha capa do livro e ficou um momento com a mão pousada sobre ela.
Nanna gostava daquela história. Gostava das que assustavam, na verdade. Divertia-se com elas, claro, contava tudo com muito mais pudor para as crianças do que estava escrito ali. Cortava as piores blasfêmias, amansava alguns detalhes, fazia os velhos idiotas soarem menos bêbados e menos estupidos. Ainda assim, o medo sempre permanecia no lugar certo.
Hrafn estava grato por ter ouvido e, mais ainda, por ter se lembrado. Ao que parecia, Nanna talvez pudesse ter razão, talvez houvesse mais nas histórias.
Passou o polegar pela lombada gasta do volume. Muitas daquelas narrativas pareciam absurdas, muitas falavam de outros tempos, outros reinos, quase de outros mundos. A maioria provavelmente era invenção, exagero, delírio de viajante ou mentira de gente sem trabalho. Mas algumas talvez não, algumas talvez tivessem raiz.
Tinha se lembrado daquele conto no instante em que recebera o primeiro pedido de Alva junto do contrato e da pequena caixa de joias. O recado falava de mineiros assustados, de floresta se movendo, de coisas acontecendo onde não deviam acontecer. Sob a luz da Estrela, ainda por cima.
“O que acha de mandrágoras, Ed?”, perguntou.
Edvard permanecia, como sempre, ao lado dele. Saía apenas quando solicitado, a trabalho, ou quando Hrafn dormia. O homem ajeitou o monóculo e levou um instante para vasculhar a própria memória. “São raízes, meu senhor. Muitos acreditam que sejam vivas, devido ao som que produzem ao serem arrancadas. Assemelha-se, em alguma medida, ao choro humano.”
“Em alguma medida”, repetiu Hrafn. “Então não choram de verdade.”
“Não, senhor. Não são vivas.” Edvard fez uma pequena pausa. “O barulho é só um método de preservação da planta. O fato de se parecer com um som humano é, até onde sei, mera coincidência.”
“Coincidência.” Hrafn deixou o livro no colo. “E elas não matam gente.”
“Já ouvi relatos de homens feridos tentando arrancá-las de solo ruim. Gente assustada por sons no escuro, gente adoecendo por preparar remédios como errado. Mas não.” Endireitou o punho da manga. “Nunca ouvi falar de uma mandrágora arrastando uma floresta inteira atrás de si para matar dez adultos.” Hrafn assentiu devagar.
Imaginei.
Nem mesmo Edvard, que parecia saber alguma coisa sobre quase tudo que importava, conhecia histórias daquele tipo. Fazia sentido, em última análise, era uma fábula. Um conto perdido num livro velho, contado por alguém que deveria ter morrido a muito tempo.
Ainda assim, alguma coisa o puxava na direção contrária, passou a mão pela capa outra vez. Talvez fosse o tipo de intuição que nasce quando o mundo já mostrou uma vez que sabe ser mais estranho do que deveria.
A caixa trabalhada demais repousava sobre a mesa intocada. Hrafn não gostava de coisas delicadas demais, gostava menos ainda de presentes que vinham com implicações brilhando por dentro. O grão de luz continuava lá, aguardando momento melhor.
Virou o rosto para o mordomo. “Aceitarei o pedido de Alva”, declarou, levantando-se. “Partiremos o mais breve possivel.”
Edvard pareceu querer protestar. Olhou-o por um momento, mexeu no monóculo, respirou do jeito de quem reorganiza dez objeções e enterra nove. No fim, apenas assentiu. “Como desejar, meu senhor.”
Hrafn ficou satisfeito com aquilo, era bom que o mordomo confiasse mais nele. Não queria ter de convencê-lo a cada passo, e no fim das contas, o pedido não era grande coisa.
Iria até lá,veria o que estava acontecendo, tentaria descobrir o que quer que fosse. Se achasse perigoso demais, ou descobrisse algo além daquilo com que pudesse lidar, avisaria a Hird.
Era simples, sua presença no local serviria sobretudo para dar peso e voz aos delírios dos mineiros, que juravam que um caído andava sob a luz da Estrela, atormentando-os.
Se fosse só medo, pisaria nele, se fosse outra coisa, pisaria nela também, se pudesse.
“Quer que eu prepare os homens?”, perguntou Edvard.
“Poucos”, respondeu Hrafn. “Não vou arrastar uma procissão até um buraco de minério porque um bando de homens viu galhos demais onde devia haver menos.”
“Lady Alva talvez esperasse uma demonstração maior.”
“Lady Alva pode esperar sentada.”
“Como desejar.”
Hrafn se aproximou da janela e lançou um olhar à cidade. Sahirid erguia-se bela, ampla, telhados, pedra e canais. Já havia conforto ali, rotina também. Quarto limpo, café bom, cama boa, um mordomo assustadoramente eficiente e até presentes em caixas bonitas.
Privilégios. Começava a entendê-los melhor do que gostaria, mas não fora feito para apodrecer dentro de paredes polidas, cercado de prata e cortesia.
Infelizmente.
Havia coisa demais lá fora tentando arrancar a pele de gente como ele, precisava ser forte. E se Nanna estivera certa, então talvez histórias velhas merecessem mais respeito do que davam a elas os homens que passavam a vida inteira protegidos por muralhas.
De todo modo, era hora de deixar Sahirid, se havia alguma raiz maldita andando sob a Estrela, Hrafn queria vê-la com os próprios olhos, tinha algumas ideias em mente.

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