O último dos livros estava sendo colocado na prateleira.

    Edvard não sabia exatamente por que seu senhor, sendo quem era, dava tanto valor a um velho livro de contos, mas aprendera a não desprezar as pequenas coisas. Também passara a gostar daquele volume, não pelo conteúdo, e sim pelo que ele indicava. 

    O jovem, até pouco tempo um comum sem nome digno de nota, viera cheio de surpresas. Uma delas era saber ler. Outra, talvez mais importante, era ter sido educado o bastante para esconder parte do que sabia. Havia lacunas, mais do que Edvard gostaria de admitir.

    Ainda assim, a matéria ali era boa. Hrafn tinha um tipo de inteligência venenosa, desconfiada, cínica. Se não fossem as falhas óbvias nos maneirismos, na etiqueta e no linguajar, Edvard poderia tê-lo tomado por um nobre; por um dos bons.

    “Imagino que seja hora, Ed”, disse seu senhor.

    Edvard conteve a pequena fisgada interna que ainda lhe vinha sempre que ouvia a abreviação. Teria de se acostumar. Havia coisas mais graves no mundo do que o assassinato lento de um nome.

    “Não pensei que ela viria até nós.”

    Hrafn era jovem, e seu título ainda não tinha peso. Normalmente, uma filha tão distante na sucessão não carregava o bastante da própria casa para mover um voroir não afiliado. Podia convidá-los, claro. Isso qualquer uma podia. Outra coisa era esperar que eles viessem. Voroirs orgulhosos tendiam a preferir que o mundo se movesse até eles. Hrafn não era orgulhoso como os outros, a ponto de zombar da palavra. Ainda assim, poderia muito bem recusar por preguiça, desinteresse ou simples capricho. Era esse tipo de homem.

    “Ela pode estar jogando, meu senhor”, respondeu Edvard. “Os nobres levam até as menores coisas ao jogo.”

    “Sim, eles levam”, disse Hrafn. “Se não fosse por você, eu sequer saberia que quem vai a quem tem qualquer importância. E os idiotas ainda chamam isso de esperteza.”

    “Obrigado, meu senhor. É sempre um prazer poder ajudar.” Respondeu com orgulho moderado. Em parte porque aquilo era apenas parte do trabalho. O outro motivo era porque Hrafn fazia elogio soar como ofensa com uma naturalidade quase nobre.

    “Mas creio que talvez ela queira baixar sua guarda”, continuou Edvard. “Provavelmente já sabia que eu o instruiria a isto. Pode imaginar que o senhor reconhecerá boa vontade no gesto.”

    “Vamos ver até onde essa boa vontade vai.” respondeu Hrafn.

    Faltava pouco para os convidados chegarem. Edvard preparara tudo com antecedência. Lady Alva era filha de uma casa condal poderosa; tratá-la bem não era mera cortesia, era prudência. Quando uma criada surgiu para informar que as visitas já estavam a caminho, Edvard sentiu alívio. Seu jovem senhor era do tipo impaciente, o tipo que batia os dedos, mexia o ombro, deslocava o peso do corpo de um pé ao outro quando precisava esperar.

    Hábito lamentável. Pior ainda porque amassava, com regularidade criminosa, as roupas que Edvard preparava com tanto cuidado.

    “Lady Alva”, declarou Hrafn assim que a viu. Não se curvou, não usou o tratamento adequado, não fez nada certo.

    “Trouxe mais gente também. Bom.” Apontou para a criada e para o guarda que a acompanhavam. Apontar já seria falta de respeito em circunstâncias melhores. Ali, logo de início, pareceu a Edvard quase uma tentativa ativa contra a ordem natural das coisas.

    “Elevado Hrafn”, respondeu a lady, com uma demonstração impecável de compostura em cada gesto. “É uma honra—”

    “Sim, sim, imagino”, interrompeu Hrafn, para o desconforto imediato de todos, e pavor de Edvard. “Entrem, vamos. Estou com fome.”

    Antes que qualquer um pudesse protestar, ele já havia virado as costas e seguido na direção da refeição preparada, andando o mais rápido que podia sem realmente correr. Por um instante, Edvard cogitou desculpar-se em nome do senhor. Não tinha esse direito; isso implicaria, diante de todos, que Hrafn estava errado.

    Logo, limitou-se a seguir atrás, junto dos demais, em silêncio constrangido.

    “Vamos, sentem-se”, disse Hrafn ao alcançar a mesa. Então apontou para Edvard com um sorriso largo demais. “Você também, Ed.”

    O mordomo não compartilhava da mesma alegria. Seu senhor parecia gostar de testar até onde seu velho coração iria antes de ceder de vez.

    “Não.” respondeu. Em circunstâncias normais teria sido mais educado, mais ponderado. Mas, pelo que vinha aprendendo, qualquer delicadeza extra só daria ao jovem humorado mais espaço para pregar-lhe alguma peça. Algo como: Uma mesa de seis cadeiras, Ed, e ainda assim você insiste em ficar em pé?

    O comentário não veio. Ainda assim, apenas imaginá-lo, dito naquela ordem e diante da filha de um conde, fez o coração de Edvard errar uma batida.

    “Com sua licença”, disse Lady Alva, enquanto a criada puxava sua cadeira.

    Sentou-se com elegância impecável. A criada permaneceu atrás dela. O guarda, um passo ao lado, imóvel, atento, treinado para ser esquecido até o momento em que deixasse de ser.

    Edvard notou que Lady Alva media tudo no aposento: o tamanho, os móveis, as artes, a prata, as distâncias, os servos, as saídas. Acima de tudo, media Hrafn.

    Fazia aquilo com o descaramento que sua posição permitia. Edvard também media as coisas, claro, mas o fazia como homem de ofício. Ela o fazia como uma mulher acostumada a decidir o valor das coisas antes mesmo de tocá-las.

    Teria dificuldade ali, suspeitou ele. Hrafn não era fácil de medir.

    “Então, Alva”, disse seu senhor, chamando-a direto pelo nome, fazendo pouco esforço para frustrar as expectativas mais baixas do mordomo. “O que quer de mim?”

    A pergunta saiu com a boca um pouco cheia. Para piorar, ele ainda fez um gesto vago com a mão, perto do ouvido, algo entre pode falar e ande logo. Edvard sentiu uma fadiga lhe tocar os ossos.

    Lady Alva tomou um instante antes de responder.

    Ele viu o desgosto nela, embora bem escondido, assim como na criada, até mesmo no guarda, homem mais mundano, até ele parecia saber que estava tudo errado.

    “Elevado Hrafn”, começou ela. “Primeiramente, gostaria de parabenizá-lo por sua rápida elevação—”

    “Obrigado”, interrompeu aquilo que seria, claramente, um monólogo respeitável de apresentação. 

    “Em segundo lugar”, insistiu Lady Alva, firme o bastante para não deixar a interrupção lhe roubar o eixo, “vim também parabenizá-lo por lidar tão bem com uma situação difícil de perda, assim como lhe oferecer algumas oportunidades.”

    Inteligente, pensou Edvard. Todos os elogios soavam sinceros, todos carregavam algo a mais.

    Rápida elevação – cedo, portanto. Cedo podia soar bem, mas também podia significar cedo demais, antes da instrução, antes da forma, antes do devido preparo. A menção à perda fora ainda melhor colocada. Aos ouvidos da alta sociedade, era quase o mesmo que dizer: o senhor começou agora, e já começou errado.

    “E, perder o braço foi uma merda”, respondeu Hrafn, e Edvard teve a nítida impressão de que ainda não descobrira o limite exato da própria capacidade de horrorizar-se. “Oportunidade é bom”, continuou seu senhor, sem uma gota de vergonha na cara. “Mas o que você ganha nisso?”

    Lady Alva não perdeu a compostura. Isso, por si só, já dizia bastante. A criada atrás dela baixou um pouco mais os olhos. O guarda, por sua vez, endureceu a linha da mandíbula de um jeito que denunciava irritação antes mesmo que ele próprio percebesse.

    Lady Alva pousou os dedos no braço da cadeira, leve o bastante para parecer casual. Mas não era, nada nela era casual. “Uma pergunta justa”, disse. “Ganho proximidade com um homem promissor. Você ganha uma casa com recursos, rotas, experiência comercial e influência suficiente para tornar certas dificuldades menos… difíceis.”

    Hrafn mastigou mais um pouco, como se considerasse a proposta e a comida no mesmo peso. “Influência”, repetiu, com o tom de quem experimenta algo e já suspeita não gostar.

    “Ela move coisas”, respondeu Alva. “Moeda também.”

    “Moeda compra menos do que acreditam.”

    Edvard quase suspirou.

    Aquilo agora, ao menos, começava a parecer uma conversa de verdade.

    Hrafn limpou os dedos no pano com uma indiferença ofensivamente sincera. Não era exatamente grosseria calculada. Era só o modo natural como ele existia.

    “Eu já tenho dinheiro”, disse. “A Hird paga bem.”

    Lady Alva sustentou o olhar. “Nem sempre paga em escolha.”

    Hrafn inclinou um pouco a cabeça. Por um instante, pareceu menos desleixado, menos bruto, quase atento. “Então você quer me vender margem”, disse.

    “Quero lhe oferecer parceria.”

    “Palavra bonita.”

    “Palavras bonitas costumam ser necessárias.”

    “Pra esconder coisa feia?” 

    Hrafn soltou um ruído curto pelo nariz. Não chegava a ser riso. Também não era desprezo puro. Edvard conhecia aquele som. Conhecia-o bem o bastante para saber que, contra toda razão e todo bom gosto, a conversa talvez estivesse indo melhor do que devia.

    E foi então, enquanto observava o jovem voroir torto, a lady ambiciosa, a criada silenciosa e o guarda desconfortável dividindo a mesma mesa sob o teto que preparara com tanto cuidado, que Edvard começou a pensar que talvez ficar perto da lareira, bebendo chá, xingando panelas, criticando o clima e essas coisas, afinal, não soasse tão mal.

    Mas era tarde demais para isso.

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