“Aleijado maldito.”

    A xícara se despedaçou no chão de pedra, espalhando chá, porcelana e um pouco da compostura que Alva sustentara até o fim da negociação.

    Ela estava sozinha com Astrid no aposento de trabalho, terminaria de redigir o contrato com a própria mão. Preferia assim, documentos importantes não passavam por dedos alheios, e aquele envolvia mais do que moeda, envolvia futuro.

    “Foi um acordo justo”, disse Astrid, já se abaixando para limpar a bagunça.

    “Espera que eu me sinta melhor?”

    A resposta saiu alta. Sua compostura, nesse ponto, já havia ido embora por tempo suficiente para que fingir o contrário soasse ridículo. Fora embora assim que a negociação terminara, talvez antes, talvez no instante em que percebeu, tarde demais, que Hrafn a estava ouvindo de verdade.

    “Um grão de luz, Astrid. Um grão de luz.”

    A criada recolheu dois cacos maiores antes de erguer os olhos. “Sim, minha senhora. Eu estava presente.”

    Alva a ignorou. Cruzou o aposento até a mesa e pousou as duas mãos sobre a madeira escura, inclinando-se levemente.

    Fora tola. Tola de uma maneira especialmente insultante, porque não costumava ser. Quisera mostrar poder, como quem deixa uma joia rara escapar por acidente, só o bastante para que o outro compreendesse o peso do que estava sendo oferecido e passasse o resto da conversa girando em torno disso. Funcionava, mas não desta vez, desta vez tinha tido o efeito contrário.

    O jovem voroir não abrira mão daquilo depois de ouvir. Não titubeara, não fingira delicadeza, não a deixara reposicionar o valor da oferta mais tarde, quando lhe conviesse. Simplesmente agarrara a peça e a tornara parte do preço.

    Ele era mais esperto do que parecia e Alva odiava se lembrar disso.

    “Isso o tornará mais forte, minha senhora”, disse Astrid, continuando a recolher os cacos. “Isso beneficia você.”

    “Não ao ponto de valer o preço. Eu pretendia usar a peça depois, quando surgisse a necessidade, agora vai direto para as mãos dele.”

    “Porque a necessidade surgiu.”

    Astrid ergueu-se, levou os cacos até a bandeja vazia e voltou para a mesa de chá como se a discussão inteira não passasse de mais uma tarefa doméstica a cumprir.

    “Vale, senhora”, continuou Astrid, servindo chá novo para as duas. “Sabe que vale, por isso aceitou.”  afirmou. Então se sentou, como sempre fazia quando estavam a sós demais para continuarem fingindo certas distâncias.

    “Irá fazer vinte e cinco”, disse. “E terá passado da hora de se casar.”

    A menção surtiu o efeito que a xícara quebrada não surtira. Alva respirou pelo nariz, longa e controladamente, antes de pegar a sua própria xícara. O chá ainda estava quente, assim como estará doce, era quase uma velha piada agora entre as duas.

    “Sim, eu sei. Meus irmãos não vão esperar mais.”

    “Não. Não vão.”

    Havia um começo de sorriso nos lábios da prima agora, fino, quase caridoso.

    “Damas elevadas como a senhora devem decidir cedo. Casar-se numa boa casa, fortalecer o nome, produzir alianças, produzir filhos, produzir utilidade.” Astrid soprou o chá antes de beber. “Só servas humildes e menores podem se dar ao luxo de perder tempo.”

    “Agora zomba abertamente.”

    “Eu não ousaria, minha senhora.” O sorriso alargou-se só um pouco. “São apenas verdades.”

    Alva sustentou o olhar dela enquanto bebia. “Já lhe disse que fala verdades demais para o seu próprio bem, Astrid?”

    “Já, sim. Frequentemente.” Astrid pousou a xícara no pires com cuidado excessivo. “Mas uma verdade é uma verdade, minha senhora. Assim como é verdade que pode solicitar um duelo para se livrar de qualquer casamento.”

    “Se meus irmãos não o comprarem”

    Astrid não a contradisse dessa vez, apenas inclinou um pouco a cabeça, aceitando o peso do raciocínio.

    Seus irmãos não eram tolos. Nem especialmente pacientes, ja haviam esperado o bastante enquanto Alva se mantinha útil por outros meios, moeda, rotas, trato, presença, alianças menores, pequenos ganhos que, acumulados, ainda justificavam deixá-la sem dono formal por mais tempo. Mas essa margem não duraria, não para sempre. 

    “Não foi por isso que nos adiantamos, então?”, perguntou Astrid.

    Seu olhar caiu sobre a pequena caixa de joias repousando na mesa, perto dos papéis do contrato. Era uma peça bonita, pequena, mas belíssima, trabalhada em prata escurecida e sal branco incrustado. Dentro dela jazia o verdadeiro peso da manhã; o grão de luz.

    De longe mais valioso do que qualquer pedra que Alva usava no pescoço, nos dedos ou no cabelo.

    “Não é por isso que pagaremos tal preço?”, insistiu Astrid.

    “Sim, mas era para ser dado quando a situação surgisse.”

    Alva pegou a caixa entre os dedos e sentiu que era leve demais para o que custava. Custava influência, sobretudo, custava possibilidade, dar aquilo agora era abrir mão de uma alavanca futura em troca de fortalecer alguém que ainda podia tornar-se um problema.

    “Dá-lo agora”, disse ela, olhando para a peça, “é perder poder para negociar no futuro.”

    “É ganhar confiança.”

    “Não confio nem nas minhas servas.”

    “Concordo. Elas são pouco confiáveis, minha senhora.”

    Astrid bebeu mais um gole. “Estava falando de você.”

    “Pensei ser a serva das verdades.”

    Houve um instante de silêncio depois disso, desses que podiam terminar em sangue ou riso, Alva foi a primeira a ceder. Soltou uma risada curta, descrente, cansada, Astrid a acompanhou um instante depois, e por um momento o aposento pareceu menos apertado. 

    “Como está o problema no posto da mina?”, perguntou.

    Astrid ficou séria no mesmo instante. “Complicado, senhora.”

    Isso bastou para estragar o resto do humor.

    “Os mineiros dizem que a floresta os está atacando. Que o lugar foi amaldiçoado.”

    “Bobagem.”

    “Sim. Bobagem, é claro.” Astrid entrelaçou as mãos no colo. “Mas medo e bobagem costumam caminhar muito bem juntos. Eles se recusam a fazer certas rotas dentro do bosque, evitam alguns turnos, juram ver vultos entre as árvores mesmo em tempo de luz. O rendimento caiu e dois carregamentos já atrasaram. O medo deles está começando a estragar os negócios.”

    Alva permaneceu imóvel por um momento.

    A mina era pequena, se comparada ao que seus irmãos controlavam, mas era dela, não oficialmente, mas o bastante. Um pedaço arrancado por insistência, cálculo e alguns favores bem colocados. 

    Alcançou o pequeno espelho de mão sobre a mesa, mais por hábito do que por vaidade.

    A imagem que lhe devolveu era a de sempre: os cabelos dourados caindo bem, os olhos azuis frios e claros, a pele cuidadosamente tratada, o rosto correto, belo, limpo. Ela tinha tudo o que uma dama poderia desejar: aparência e bom nascimento, mas nunca lhe bastaram.

    Tentara ser voroir, quando veio a idade, houve preces, preparos, expectativas. Mas fracassara, miseravelmente. O corpo não abrira a porta, a Estrela não a quisera.

    “E se o enviarmos?”, perguntou, ainda olhando o próprio reflexo antes de baixar o espelho.

    Astrid demorou pouco a entender. “Não seria sensato, minha senhora.”

    “Não?”

    “Ele tem potencial, mas ainda há de crescer.”

    “Não mandarei meu investimento para a morte, Astrid.” Alva apoiou o espelho na mesa e ergueu os olhos para a prima. “Mas um voroir entende o mundo de formas estranhas. Talvez ele veja algo que os outros não veem, talvez descubra a raiz do problema. Talvez, no mínimo, devolva alguma coragem aos mineiros.”

    Astrid a observou em silêncio. “Também seria um teste.

    “ Principalmente um teste.” Queria vê-lo em movimento, queria medir até onde ia o valor do que comprara. O quanto daquele homem era força, o quanto era sorte. Queria saber se havia feito um acordo caro com uma peça de qualidade ou apenas com um aleijado de língua suja e instintos úteis.

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