Capítulo 26 - Liv - Chegando nas Minas
“Abram os portões!” A voz do guarda desceu do alto da muralha do posto com a aspereza de alguém que passara tempo demais no frio durante aquela vigília.
O lugar era exatamente como diziam, muito menor do que qualquer cidade, menor até do que Liv imaginara quando ouvira falar dele pela primeira vez. As muralhas eram grossas e altas o bastante para enfrentar a noite, mas construídas apenas para durar o suficiente e resistir apenas ao necessário.
“Vamos,” disse a líder do grupo, guiando-os adiante. “Resolvam isso rápido e voltem rápido.”
Os portões pesados começaram a se abrir com um gemido metálico. Liv apertou as rédeas, e o cavalo bufou sob ela. O ar lá dentro cheirava a carvão, ferro e gente que trabalhava demais. Quando cruzaram a entrada, ela viu que o posto era ainda mais diferente do que estava acostumada. As casas tinham a mesma madeira chamuscada de sempre, escura e áspera, mas não eram casas comuns. Havia oficinas por toda parte, o chão era negro em muitos lugares, coberto de carvão triturado, poeira e os restos de algum processo que ela não conhecia bem.
Era um lugar feito para sobreviver perto o bastante da floresta para odiá-la.
“Bom ver que alguém finalmente veio,” resmungou um sujeito barbudo logo à frente, assim que passaram pelo portão.
Ele nem esperou que desmontassem antes de abrir a boca. “Então a pequena dama afinal se lembra de nós. Eu achei que—”
“Cuidado com suas palavras,” interrompeu outra voz, mais velha e muito mais firme.
Uma mulher idosa veio logo atrás dele, acompanhada por um homem ainda mais velho. O velho tinha as costas curvadas, uma bengala gasta, e olhos que não tinham perdido nada com a idade além da velocidade. Ele bateu de leve com a bengala na perna do barbudo, empurrando-o um pouco mais para trás com a autoridade de alguém que não precisa gritar para ser obedecido.
“Somos gratos por terem vindo, bravos guerreiros,” disse o velho, curvando-se com o cuidado que seu corpo ainda lhe permitia.
Liv já estava prestes a dizer que nada daquilo era necessário, mas então se lembrou de quem estava ao seu lado.
O jovem voroir apenas assentiu e então começou a descer do grande cavalo de guerra. Houve um baque surdo quando suas botas atingiram o chão, e o barbudo deu mais um passo para trás sem querer. Liv viu aquilo e quase sentiu vergonha por ele.
“Perdoe-o,” disse o velho, apontando para o sujeito com a ponta da bengala, enquanto o homem agora mantinha a cabeça baixa. “Não sabíamos que a Dama enviaria um elevado.”
“Não tem problema,” respondeu o voroir. Sua voz saiu calma, sem o peso arrogante que Liv esperava de alguém como ele. O mordomo se apressou em ajudá-lo a remover o elmo, revelando um rosto jovem demais para repousar tão confortavelmente dentro daquela armadura. Seu cabelo castanho-médio se moveu um pouco no vento frio.
“Vamos entrar,” disse ele. “Está frio.” As palavras saíram em bafo branco no ar, era o fim do primeiro mês do inverno. Ainda não havia neve, mas o frio já tinha se instalado o bastante para incomodar em silêncio, escorrendo pelas mangas, mordendo as orelhas.
“Sim, claro. Perdoe minha falta de cortesia,” respondeu o velho, fazendo um pequeno gesto com a bengala. “Por aqui.”
Cruzar o posto não demorou tanto por causa da distância, mas por causa do passo do velho, ele andava devagar, medindo o chão antes de cada passo e ninguém queria apressá-lo. O povo do posto observava o pequeno grupo enquanto passavam, havia rostos cansados nas portas, mãos enegrecidas de carvão, crianças escondidas atrás de saias ou barris, pareciam um pouco aliviados em velos.
No fim do pátio principal, o velho parou diante de um prédio maior que os outros. O barbudo correu à frente para abrir a porta, como se quisesse se redimir inteiramente com aquele gesto. O calor saiu de dentro e tocou o rosto de Liv com suavidade.
“É simples,” anunciou o homem, sem olhar diretamente para ninguém. “Mas sejam bem-vindos.”
A líder cutucou Liv com um curto movimento de cabeça, mandando-a seguir. Mais um dos guerreiros entrou também junto do voroir e de seu mordomo. Os outros permaneceram do lado de fora, se espalhando perto da entrada e do pátio. O interior realmente era simples, uma mesa grande, prateleiras tortas, um mapa velho preso à parede com facas e pregos. A lareira ocupava boa parte de um lado do salão e o fogo dentro dela já ardia havia tempo suficiente para fazer o lugar cheirar a fumaça, couro molhado e roupas secando.
“Façam chá para os convidados,” disse o velho, tomando seu lugar diante do voroir. “Lamento não ter café.”
“Não tem problema,” respondeu o jovem. “Nós temos.”
O mordomo já estava se movendo antes mesmo de ele terminar de falar, abrindo uma das bolsas presas à sela que haviam trazido para dentro.
“Trouxemos alguns suprimentos que Alva mandou,” continuou o voroir. “Para ajudar nestes tempos difíceis.”
“Isso é bom,” disse o velho, com um sorriso gentil que parecia envelhecê-lo ainda mais quando aparecia. “Lady Alva tem sido boa conosco.” Ao dizer isso, lançou um olhar severo e instrutivo na direção do barbudo, que fingiu não perceber.
“Mesmo nestes tempos de preparação, ela ainda demonstra preocupação. Uma boa garota.” Ele falou mais para si mesmo do que para os outros.
Liv continuou de pé perto de um dos cantos, esfregando os dedos um no outro para trazê-los de volta à vida enquanto observava, essa era a primeira vez que via um voroir tão de perto por tanto tempo. Esperava um homem duro, impaciente, alguém que pisaria nos plebeus sem sequer notar e faria perguntas rápidas apenas para poder ir embora logo depois, o tipo que carregava glória como permissão para o desprezo.
Em vez disso via um jovem, educado e firme. Um verdadeiro herói, pensou, e imediatamente sentiu vergonha da frase na própria cabeça. Soava infantil mas a ideia não foi embora.
“O que vocês viram?” perguntou o voroir, recostando-se. “O que todos vocês conseguiram ver,” acrescentou. “Pelo que me foi passado, os sinais são poucos e até agora não houve vítimas.”
Liv prestou ainda mais atenção então. Aquela era a parte que ela também queria ouvir.
O velho assentiu devagar, como se estivesse organizando as lembranças por ordem de gravidade antes de entregá-las. “Eu vivi muitos anos,” começou. O fogo crepitou na madeira, como se concordasse. “Tempo bastante para ver sinais. E tempo bastante para saber quando é apenas medo de coincidência estranha.”
“As árvores, senhor,” cortou o barbudo, incapaz de conter a própria urgência. “Elas mudam, dia após dia.” O velho não o repreendeu dessa vez.
“Semana passada,” continuou o homem, agora falando mais baixo do que antes, “uma delas estava bem. Um pinheiro velho a leste daqui, quando levei dois rapazes para sondar o terreno dois dias atrás…”
Ele parou ali, como se a própria conclusão pudesse convidar o azar para dentro da sala.
“Estava seco e morto,” terminou o velho por ele. “Levei meus velhos ossos até lá para ver com meus próprios olhos. Estava seco como carne curada para o inverno.”
“Isso pode ser muitas coisas, vovô,” disse a líder do grupo. Estava de pé perto da porta com os braços cruzados e a cara de alguém que já tinha pouca paciência quando entrou e agora tinha menos ainda. “Uma besta da noite. Um pequeno fogo causado pela Estrela que vocês só perceberam depois.” Ela quase cuspiu no chão ao terminar, mas se conteve no último momento.
“Sim, criança,” respondeu ele, usando a palavra com exatamente o peso necessário para responder ao tom dela. “Se fosse só isso, então eu dormiria bem.”
A líder soltou ar pelo nariz, mas não interrompeu.
“Mas aquela foi apenas uma de muitas coincidências,” prosseguiu o velho. “Árvores mudando de tamanho. Terra arrastada, grandes buracos no chão onde antes não havia nada. A floresta parece viva às vezes, alguns galhos balançam sem vento e depois param.”
Enquanto ele falava, Liv sentiu a própria imaginação começar a trabalhar contra ela. Conhecia bem a mata o bastante para saber que ela já era ruim mesmo quando se comportava como devia.
“Vovô,” disse a líder de novo, sua voz agora um pouco mais áspera, “muitas coisas acontecem à noite. Coisas o bastante para mudar florestas inteiras, às vezes.” Ela descruzou os braços.“Vocês nos chamaram aqui para ver isso? O que o mal faz consigo mesmo no escuro e os rastros que deixa? Ou esperam que a gente vagueie por aí na ausência da Estrela para encontrar a causa? Tolice.”
Desta vez ela cuspiu no chão sem se conter, e o barbudo deu meio passo à frente.
“Não, criança—” começou o velho.
“Então vamos mostrar a ela!” cortou o homem. “Quero vê-la chamar isso de tolice depois de ver com os próprios olhos.”
A líder abriu a boca, provavelmente pronta para devolver outra resposta, mas o voroir ergueu a mão. “Mostre,” disse.
“Agora?” perguntou o homem.
“Agora,” respondeu o voroir. “Ainda temos luz. Se há algo errado, prefiro ver antes que a Estrela se recolha ainda mais.”
O velho assentiu devagar, como se aquela fosse a única resposta sensata desde que o grupo passara pelos portões. Liv sentiu um breve aperto no estômago, a líder olhou para ela de lado ao passar, já seguindo de volta para a porta.
“Sem tremedeira,” murmurou. Liv endireitou a postura imediatamente, odiando que a mulher tivesse percebido, então Dagny chamou dois dos seus com um gesto. O voroir recolocou o elmo com a ajuda do mordomo, que ajustou as correias com calma. Quando os chifres do carneiro emolduraram de novo o rosto escondido, ele deixou de parecer apenas jovem, tornou-se outra coisa. Mais alto, mais sagrado.
Então o grupo voltou a se mover, cruzando o posto em direção ao lado leste, onde as paliçadas cediam lugar às trilhas de trabalho e a floresta começava.

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