Capítulo 27 - Hrafn - Lutando Contra a Floresta
“Como o elevado pode ver,” disse o velho, apontando a bengala para o pinheiro. “Não foi fogo.”
Hrafn encarou a árvore ressequida. O velho estava certo, a casca estava descascando como pele morta e quebradiça, mas não havia o menor traço de fuligem ou cheiro de fumaça, aquilo era outra coisa.
“Poderia ter sido qualquer coisa,” rebateu Dagny, cruzando os braços. “A noite tem muitos filhos estranhos, vovô.”
“Não foi a noite, criança,” insistiu o velho, estreitando os olhos para a árvore morta. “Eu vejo a noite há mais tempo do que você viu a Estrela e sua ausência juntas.”
“Experiência,” apontou Hrafn. “Você mesma me disse para ouvir a experiência.” Ele a lembrou do próprio conselho que ela lhe dera antes de chegarem ali.
Dagny bufou, impaciente. “Não há nada aqui, garoto. Nada acontece há um mês, lembre-se.”
Hrafn não respondeu. Ele entendia o jogo dela, faria o mesmo em seu lugar. Dagny queria desacreditar a história para justificar dar meia-volta e ir embora. O problema era que ela havia se mostrado esperta demais antes para fingir ser tão ignorante agora. Além disso, diante daquela árvore, Hrafn não podia negar o que o velho dissera. Não era fogo e também não era alguma cria da noite, ele saberia se fosse, sua bênção o incomodaria.
“Não é da noite,” declarou. “É uma coisa do dia e eu suspeito saber o que é.”
A declaração pegou o grupo de surpresa.“Ah é, garoto? E o que seria?”
“Mandrágoras.”
O barbudo que acompanhava o cavalheiro ergueu um pouco a mão. “Perdoe-me, elevado. Mas eu já vi mandrágoras, usei uma na minha filha quando ela pegou pele de ferro e é um remédio excelente, mas eu não vejo como…” Ele hesitou, apontando para o tronco seco.
“Mas é,” insistiu Hrafn. Ele dobrou um joelho, e pressionou a manopla contra a terra fria. “E está ficando mais forte.”
Ele sentia aquilo desde que entrara na mata, era como se a força vital da floresta estivesse sendo drenada, puxada para um ponto mais fundo, muito além de onde estavam. Para um observador comum, tudo parecia normal, mas para ele a realidade se abria, havia uma rede de raízes, finas como pedaços de barbante se estendendo por metros e metros sob a terra, sugando a energia do mundo.
“Digamos então que é uma mandrágora diferente de qualquer outra,” disse Dagny. “Como você espera resolver isso? Como espera encontrá-la?”
“Hoje,” respondeu Hrafn, se erguendo. “Antes que cresça mais.”
“Por que tanta pressa?” protestou a mulher. “Já é a nona hora da Estrela e você quer nos arrastar para vegetação densa? Eu digo que voltamos amanhã. Mais prudente.”
“Amanhã será tarde demais,” rebateu Hrafn, sem tirar os olhos das sombras entre as árvores.
“E qual seria a abordagem, elevado Hrafn?” perguntou o velho, com o interesse de alguém que pensava já ter visto tudo.
“Não há abordagem,” disse Hrafn, friamente. “Ela vai saber que estamos indo. Provavelmente já sabe.”
“E você ainda quer ir?” rosnou Dagny.
“Fomos pagos por isso,” rebateu Hrafn, sua paciência com a mercenária se esgotando. “Você foi paga.”
“Metade é promessa,” ela corrigiu, áspera. “Uma promessa que eu só recebo se você voltar vivo. Assim como eu.”
“Nós vamos.”
Dagny o encarou por um longo momento. “Certo garoto, deixe-me ver se entendi. Vamos entrar na mata, na nona hora da Estrela, contra algo que está nos esperando, que fez um rastejador fugir de medo e que aparentemente está ficando mais forte?”
“Você entendeu a ideia,” respondeu Hrafn, sarcasmo escorrendo pesado pela abertura do elmo.
Com uma expressão hostil, Dagny olhou para as costas do voroir. Puxou o grande machado, girou-o no ar e o cravou com força no chão antes de se virar para o bando. “Vocês ouviram o garoto, vamos entrar na mata.”
A maioria dos homens já estava pronta e começou a verificar o equipamento quando ouviu o chamado. Alguns resmungaram, baixo o bastante para não serem repreendidos, mas alto o bastante para deixar claro o descontentamento.
“Ela vai nos atacar bem antes de chegarmos lá, está espalhada pela floresta,” explicou Hrafn.
“Maravilha, garoto. Uma ‘boa’ notícia atrás da outra,” zombou Dagny. “Mais alguma coisa para mim e meus rapazes comemorarmos?”
“Só mais uma,” disse ele, apertando a maça. “Já que ela já sabe, nós não vamos devagar, vamos correr.”
“Pela mata?!”
“Isso mesmo, eu sei onde ela está, só me sigam.”
Desta vez Dagny se limitou a assentir com a mandíbula travada. Os guerreiros se alinharam, como a ordem era correr, deixaram para trás boa parte do peso e suprimentos desnecessários.
“Prontos?” perguntou Hrafn. Com os acenos afirmativos, ele foi o primeiro a disparar.
Ele avançou como um aríete, os passos pesados marcando o chão e esmagando a vegetação rasteira. O resto do grupo veio logo atrás, botas, ferro e respirações ofegantes rasgando a floresta em uma única massa de barulho e pressa. Mas mandrágora não os deixou correr por muito tempo, antes que tivessem avançado um minuto mata adentro, o bosque reagiu.
Um galho grosso desceu na diagonal, rápido como um chicote, mirando sua cabeça. A maça já vinha girando desde o começo da corrida e Hrafn a ergueu em um golpe brutal. Aço encontrou madeira com violência suficiente para quebrar o galho em uma explosão de lascas. Outro veio raspando naquele mesmo instante, baixo e mirando sua perna. Hrafn jogou o peso das botas sobre o galho, esmagando a madeira sem perder o ritmo.
Ao redor dele, os outros ainda estavam indo bem. A maioria dos guerreiros desviava com agilidade suficiente para continuar avançando, enquanto veteranos como Dagny abriam caminho pela força bruta. Mas isso não durou muito, quanto mais fundo iam, menos a floresta parecia uma floresta. Os galhos vinham mais grossos e mais decididos. A corrida perdeu velocidade, assim como o terreno começou a abatê-los à força.
Foi então que veio o golpe ruim.
Um galho grosso como a perna de Hrafn veio da esquerda, na altura da barriga, no exato segundo em que ele erguia a maça para despedaçar outro ataque que vinha de cima. Não houve tempo para reposicionar o corpo e a madeira o atingiu em cheio. Hrafn foi arrancado do chão e jogado para o lado. Voou alguns metros antes de rolar sobre a terra úmida, abrindo um sulco entre folhas e lama, a armadura absorvendo o golpe. O mesmo não podia ser dito do que estava dentro dela.
Uma costela quebrada, talvez duas e o ar fugiu de seus pulmões
Mas não havia tempo para medir o dano, dois galhos mergulharam de cima como estacas. Hrafn rolou por instinto, sentindo a dor pulsar dentro do peito a cada movimento, forçando o corpo a obedecer encontrou uma abertura, firmou a bota no chão, tentou se erguer, mas outro galho grosso já varria o ar na sua direção.
Sem escolha, Hrafn mergulhou na bênção e a mudança veio como sempre, útil assim como odiosa. Sua percepção se aprofundou, mas o preço veio junto. A dor nas costelas fraturadas se multiplicou na mesma hora, muito mais aguda, como se a própria carne tivesse sido forçada a despertar para sofrer melhor. Cerrou os dentes até a mandíbula protestar, segurando a sensação antes que ela o partisse por dentro.
Os outros estavam se saindo melhor do que ele. Isso ficou claro pois os ataques não estavam sendo distribuídos por igual, a maioria dos galhos vinha para ele.
Onde está você…
Outro golpe passou perto demais. Hrafn torceu o corpo por um fio, sentindo o deslocamento de ar roçar a lateral do elmo.
Onde está você…
A dor pulsava e seu coração martelava, seus músculos já começavam a reclamar do esforço de sustentar a bênção por tanto tempo.
Achei você.
No instante em que a sentiu, ele abandonou o estado de uma vez. A realidade pareceu ceder sob seus pés por um segundo. Sua mente se torceu em exaustão, e seus músculos gritaram em protesto, ainda assim Hrafn virou o corpo e partiu ao meio um galho grosso que vinha em sua direção.
“Está lá!” ele rugiu, apontando a arma para uma grande árvore à frente. No exato momento em que sua intenção se fixou sobre a mandrágora, a floresta inteira pareceu entender e os galhos ao redor dele se voltaram com fúria renovada.

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