Capítulo 28 - Liv - O Que Um Herói Faria
Ele era incrível e Liv já sabia disso, sabia desde a luta contra o rastejador, mas aquilo era diferente e agora ela o via melhor. No começo da corrida, Liv veio logo atrás dele e seguindo Dagny, tentando acompanhar enquanto desviava de espinhos, raízes e galhos grossos que brotavam de todos os lados. Ela e quase todo mundo precisavam se abaixar, pular ou desviar o tempo todo. Já ele simplesmente avançava, seu impulso só parecia ser interrompido por breves instantes, sempre para desferir alguma brutalidade mais elaborada contra a floresta antes de voltar a correr, perdendo quase nada do ritmo.
Com o tempo todos começaram a se cansar, ainda assim existia um caminho graças a ele. Até que veio o grande golpe, Um galho grosso como um tronco jovem atingiu Hrafn de lado e o arremessou para longe com um estrondo seco de madeira e ferro. Por um instante, ela teve certeza de que o voroir morreria ali. Ninguém podia receber um impacto daqueles e simplesmente continuar.
Mas voroirs tendiam a ignorar o senso comum e a razão com frequência.
Ele rolou pelo chão, desviou de mais ataques, fincou as botas no chão outra vez e então parou no último instante, justamente quando parecia que seria atingido de novo. Seu corpo se dobrou de um jeito tão impressionante que até Liv, que não entendia metade do que via os grandes guerreiros fazerem, podia perceber que havia técnica ali. O galho grosso passou e foi quebrado e no mesmo movimento Hrafn apontou a maça para uma árvore à frente junto com um grito, revelando o inimigo.
Daí em diante, o ataque mudou. Já não se tratava apenas de sobreviver aos golpes da floresta, agora havia um alvo e os guerreiros começaram a avançar naquela direção com mais fúria, às vezes sendo forçados a recuar meio passo, mas sempre conseguindo ganhar um pouco mais logo depois.
A maior parte das raízes também já não parecia interessada neles, dezenas delas agora se voltavam para o voroir, que acabara ficando um pouco para trás. Sua maça girava sem descanso e Liv mal conseguia acompanhá-la com os olhos. Nos poucos instantes em que conseguiu de fato observá-lo, viu Hrafn se abaixar para deixar um galho passar, erguer-se torcendo o corpo para evitar outro, quebrar um terceiro com a maça, pisar numa raiz que tentava prender sua perna, usar o impulso para se lançar para o lado e, logo depois, fazer a arma descer de novo. Tudo em um único fôlego. Cada gesto parecia nascer do anterior com tanta limpeza que se tornava difícil entender onde um terminava e o outro começava.
“Garota!”
O grito de Dagny arrancou Liv dos próprios pensamentos bem a tempo. Ela virou a cabeça por instinto e um galho fino passou assobiando, errando seus olhos por pouco, O golpe ainda assim pegou sua orelha e arrancou um pedaço antes de seguir em frente. Liv sentiu a ardência da ferida antes de quebrar o galho com a mão e continuar avançando, ela sabia que não deveria se distrair no meio de uma luta. Mas ainda assim não conseguia deixar de lançar breves olhares para o voroir, e foi olhando que ela viu. Um dos galhos que ele havia quebrado, era diferente dos outros.
O galho parecia mais fino e mais novo, isso fez Liv erguer os olhos na direção de onde ele viera. Lá atrás, alguns metros além de Hrafn, entre raízes e folhas remexidas, havia uma pequena criatura. Com mais e mais galhos saindo de seu corpinho e do chão ao redor dela, se acumulando atrás como uma maré de madeira viva, esperando a hora de cair sobre alguém.
Liv reduziu o passo por um instante, avaliando. Dagny provavelmente alcançaria a criatura da frente. Eles estavam ganhando terreno a cada momento por pouco que fosse, mas estavam. A outra, porém, era um problema. Um problema sério, se as coisas continuassem daquele jeito o voroir seria cercado. Eles o distrairiam com ataques de todos os lados e quando ele estivesse preso no ritmo da defesa, a segunda mandrágora o afogaria naquele mar de galhos que vinha reunindo.
Se ele morresse, talvez Dagny também não alcançasse a outra a tempo, pensando nisso, Liv puxou um fôlego fundo e começou a correr de volta, muito mais rápido dessa vez. Ela ouviu Dagny gritar atrás dela algumas vezes, mas a líder estava ocupada, perto demais da mandrágora principal, sem fôlego para mais do que um protesto curto.
Liv a ignorou.
Correu com tudo o que tinha na direção da coisinha, apertando a lança com tanta força que seus dedos doíam. Para sua sorte, agora que estava recuando, sofria menos com os galhos da primeira criatura. A maioria deles estava ocupada com o grupo, ou talvez a mandrágora simplesmente achasse que Liv não valia a atenção.
Hrafn continuava lutando, havia algo feroz e terrível no modo como ele resistia. Galhos vinham de todos os lados, e ainda assim ele permanecia de pé. Às vezes a segunda criatura também lançava um ataque na direção dele, sempre aproveitando alguma abertura. Seus galhos eram mais fracos que os da outra, mas muito mais rápidos.
A pequena mandrágora só percebeu Liv quando ela já estava perto. Uns bons trinta metros, talvez menos.
Talvez criar tantos galhos consumisse algo dela e roubasse sua atenção. A criatura ate virou alguns galhos na direção da jovem guerreira, mas ainda assim parecia relutante em dispará-los. A maioria permanecia apontada para Hrafn, como se a coisa não conseguisse decidir se valia a pena perder tempo com outra presa. Liv não alimentava as mesmas dúvidas da criatura, ela sabia exatamente o que precisava fazer. Correu ainda mais rápido enquanto suas coxas doíam, suas panturrilhas queimavam e seu peito já ardia com o esforço.
A pequena criatura enfim pareceu alarmada, mais galhos se voltaram para ela e Liv entendeu que não a alcançaria a tempo, pelo menos não correndo. Então tomou o impulso da própria corrida e o transformou em outra coisa, jogou o corpo para trás, puxou o braço armado bem para trás e o estalou para a frente como um chicote. A lança deixou sua mão pesada, voando reta e rápida, cortando o espaço entre os galhos.
Os galhos já vinham sobre Liv, de cima e dos lados. Alguns tão perto que ela podia ouvir o estalo da madeira rasgando o ar. Ainda assim, ela sorriu, satisfeita porque a lança havia atravessado. Com sorte, com força e talvez com alguma bênção da Estrela, a arma se cravou no chão atrás da criatura. No meio da haste, empalada e presa como um pedaço de carne num espeto, a pequena mandrágora gritou no mesmo tom com que uma criança humana choraria.
Em outro ponto da mata, os ataques contra Hrafn cessaram quase ao mesmo tempo. Dagny devia ter conseguido, claro que conseguiu, pensou Liv. Ela era a mulher mais forte que conhecia e não perderia para algumas raízes.
A satisfação a aqueceu por um instante curto e precioso, Ela talvez até tivesse se alegrado mais, se não tivesse sentido naquele momento um gosto de ferro subir em sua boca.
O ar entrou difícil e estranho fazendo Liv olhar para baixo, onde alguns galhos estavam perfurando seu corpo.

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