Capítulo 30 - Edvard - Um Velho Coração
Edvard permanecia ao lado da cama.
Seu jovem senhor estava desacordado havia quatro dias. No começo, Dagny e a velha parteira do posto haviam dito a mesma coisa; ele viveria, mas perdera muito sangue, e o sono era natural, isso serviu até o segundo dia. Depois dele a tranquilidade começou a se esvair, um homem podia dormir por exaustão, um voroir talvez também. Mas por tanto tempo?
Edvard não gostava da conta, Hrafn era jovem mas era poderoso ate onde ele viu, mais do que deveria ser ate. Costelas partidas e perda de sangue não deveriam bastar para enterrá-lo num silêncio daqueles, havia algo de errado ali, e Edvard não suportava coisas erradas quando elas estavam sob sua responsabilidade.
Por isso andava de um lado para o outro no pequeno aposento. Perder um senhor tão cedo seria uma mancha e uma vergonha, que mordomo decente deixava seu amo morrer antes mesmo de completar um ano de serviço?
“Fique calmo,” disse a idosa, enquanto trocava o pano sobre a testa de Hrafn. “Ele vai acordar.”
Edvard respirou fundo pelo nariz e assentiu uma vez, mas não discutiu, ela não era medica, mas era o mais proximo disso que lhe restava ali. A velha verificou o pulso de Hrafn, ajustou a manta sobre ele e voltou a mexer em suas pequenas coisas com a paciência de quem já tinha visto homens irem e homens ficarem.
Cogitou levá-lo de volta à Hird, mas isso não lhe pareceu prudente, mover um homem doente nunca foi aconselhável. Por fim sentou-se e estendeu a mão para a prateleira e pegou o velho livro de contos. Era um volume indigno com uma lombada cansada, um livro vulgar se o julgassem apenas pela aparência. Mas Edvard já havia aprendido que o objeto carregava mais valor do que sua feiura sugeria.
Abriu-o distraidamente. A maior parte daquelas histórias parecia o tipo de coisa que se vende em mercado para crianças assustadas e adultos nostálgicos. Mesmo assim havia ali uma diferença inquietante, pois algumas passagens sabiam demais, a história da mandrágora, por exemplo, contra toda a lógica ela estava correta.
“Vejo que gosta de ler,” disse a velha, sem erguer muito os olhos.
“Conhecimento é indispensável a alguém no meu papel,” respondeu Edvard.
“Mesmo este?” Ela arqueou uma sobrancelha ao ler a capa. “Contos do Mundo.”
“Geralmente, não.” Edvard passou o polegar pela borda de uma página. “Mas este sim.”
“Que interessante.” A idosa torceu o pano úmido sobre a bacia. “Adoraria saber que tipo de conto fascina um homem como você.” Recolheu então suas coisas com lentidão. “Mas a Estrela se põe, e eu me vou com ela.”
Edvard assentiu mais uma vez, metade de sua atenção permanecia no livro, a outra no leito. Lá fora o tempo piorava a cada dia. O auge do inverno viria logo e ficar preso num posto avançado durante a estação fria não era perspectiva que agradasse homem algum. Menos ainda a um mordomo obrigado a assistir enquanto seu senhor se recusava a acordar.
Levantou os olhos para a janela, ainda não havia neve, mas o vento soprava tão frio que quase parecia visível. A rua jazia vazia sob um crepúsculo magro e a luz da Estrela já havia recuado quase por completo, deixando o mundo entregue ao crepusculo. Edvard considerou fazer café, talvez o cheiro despertasse Hrafn, o pensamento o divertiu um pouco. Havia homens devotos à Estrela, ao Sal ou à Hird mas seu senhor, ao que parecia, era devoto ao café.
A ideia mal terminara de se formar quando algo mudou.
Um choro.
Edvard enrijeceu, os pelos de seus braços se arrepiaram sob a roupa. Seu primeiro impulso foi olhar para a rua, abriu a janela com cuidado e lançou os olhos para fora, esperando encontrar alguma criança ferida ou algum acidente tolo, mas não havia nada.
Só a rua escura, o frio, e um velho sentado num banco mais adiante, fumando como se o mundo jamais tivesse produzido coisa digna de pressa, então o choro veio de novo, mais próximo, e Edvard fechou a janela devagar. Dessa vez reconheceu a direção do som com uma clareza desagradável.
Vinha de trás.
O choro crescia à medida que ele girava o corpo, fino e agudo, quase colado aos seus ouvidos, como se a criatura lamentosa estivesse junto de sua nuca. Sua mão desceu por reflexo até a adaga. A outra subiu e ajustou o monóculo com um gesto muito mais calmo do que ele se sentia. Então viu, sobre o peito de Hrafn, sentada entre as cobertas havia uma pequena mandrágora.
Era minúscula, pouco maior que uma mão aberta. Tinha as perninhas tortas afastadas para os lados, os bracinhos curtos batendo contra o corpo do jovem senhor num ritmo aflito, e chorava com uma tristeza tão estranhamente humana. As folhas sobre sua cabeça tremiam, a pele vegetal tinha um verde escuro e úmido. Os olhos, que viu quando ela ergueu o rosto, pareciam duas pequenas pedras de esmeralda vivas.
Edvard puxou a adaga e a criatura virou-se para ele no exato instante em que a lâmina saiu. Ele firmou a postura, esperando o salto, o ataque ou qualquer coisa. Mas nada aconteceu, a coisinha apenas o fitou por um momento com aqueles olhos, antes de ficar de pé. O choro cessou e no lugar dele surgiu uma pequena risadinha alegre. Antes que Edvard pudesse decidir se recuava, atacava ou chamava ajuda, a criatura pulou da cama, e veio correndo na direção dele.
Rápida e desajeitada, ela avançava sobre as próprias pernas finas com uma pressa infantil. Edvard não se moveu, seu coração batia com violência no peito, mas a adaga permaneceu suspensa, incapaz de descer. Não por compaixão, mas sim por cálculo. Seu senhor jazia inconsciente a poucos passos, e atacar aquela coisa sem compreender o que ela era, ou o que fazia ali, parecia um erro.
A mandrágora chegou às suas botas e ergueu os bracinhos, e eles se alongaram. O movimento fez o estômago de Edvard apertar, enquanto os membros vegetais esticaram-se com uma maleabilidade antinatural, enrolaram-se em sua perna e começaram a escalar seu corpo com a alegria de uma criança subindo numa árvore. A criatura ria enquanto fazia isso, satisfeita consigo mesma, saltando do joelho à cintura, da cintura ao ombro.
Ele observou-a subir, e seu coração, já pouco inclinado a heroísmos, parecia disposto a se aposentar ali mesmo. Ela passou por seu ombro, roçou a lateral de sua cabeça, saltou para o outro lado e voltou agitada.
Edvard apertou a adaga com mais força. Não sabia o que a criatura faria se fosse contrariada, e não sabia o que ela era para Hrafn, não sabia sequer se aquilo era uma bênção, uma praga ou alguma forma muito fofa de desgraça.
E Edvard começava a suspeitar de que seu coração, por mais velho que fosse, ainda teria de suportar coisas muito piores.

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