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    “Elevado hersir, Lady Alva, por aqui, por favor. O senhor os aguarda.” disse um servo.

    Leif apenas assentiu, Alva respondeu com um gesto menor ainda e tomou a dianteira como quem já conhece a casa. A testa do hersir permaneceu franzida enquanto atravessava a propriedade. Pouco antes de entrarem, ele sentira a presença do rapaz, era fraca se comparada à sua. Fraca o bastante para não impressionar ninguém, mas havia nela outra coisa, algo antigo e estranho para a cor que carregava, como um Hesir ele podia sentir o que aquela megin prometia. 

    Leif tinha certeza de que a presença era de Hrafn, e isso só o deixava mais irritado, o garoto era um bom pressagio, não o maior que ele já tinha visto. Ainda assim, Hrafn era bom o bastante para importar, e bom o bastante para justificar disputa. O rapaz despertara cedo junto de outros dois, e isso por si só já bastaria para chamar atenção, mas também Havia algo nele que não devia ser da sua cor, e Leif não acreditava em caprichos, a Estrela não tinha caprichos. Três despertos tão cedo de forma natural já seria um evento, como o jovem estava, era ainda mais.

    Ele queria ter feito a oferta antes, não era necessário o mesmo esforço pelos outros dois. Tinham boas cores, sobretudo Sigrid, já Hrafn não, ele tinha o preconceito da cor e da perda do braço, então Leif decidira falar pelo rapaz, usar o peso do próprio nome e forçar a Hird a pensar antes de deixar o menino cair em mãos erradas.

    Os burocratas recusaram, um aleijado, disseram, era um verde e era apoio, lembraram, não valia esforço adicional. Mas Leif não abaixara a cabeça, era um hersir e sua palavra seria ouvida, e foi. Tarde demais.

    A causa da perda andava poucos passos à sua frente, com vestido bom e queixo erguido. Enquanto ele discutia com a alta ordem da Hird, chegando ao ponto de deixar ameaças veladas pairarem no ar, a pequena nobre fizera sua jogada e firmara um acordo com Hrafn. Aquilo o surpreendera, pois poucos entenderiam o potencial real do rapaz. O próprio Leif só entendia porque o vira perto o bastante para saber que havia ali mais do que um verde devia carregar.

    O pensamento o fervia por dentro enquanto eram conduzidos além do hall da mansão até a sala de jantar. O mordomo já servia o vinho, e os servos terminavam os últimos preparativos da refeição. Hrafn estava sentado à cabeceira da mesa, ainda de armadura, com o capacete de chifres pousado ao lado. Ele estava com o corpo largado no assento com despreocupação, aparentemente cansado demais para se dar ao trabalho de parecer digno.

    “Elevado Leif, Lady Alva. Venham, sentem-se.”

    Leif puxou uma cadeira e se acomodou. Alva fez primeiro uma breve reverência, então sua criada puxou a cadeira para ela. 

    “Então,” disse Hrafn, indo direto ao ponto, “o que vocês querem?”

    Leif não gostou do tom, como um homem da guerra, não apreciava falta de respeito à hierarquia, mas como soldado, porém, sabia respeitar a praticidade. “Vim avisá-lo,” disse ele.

    Hrafn inclinou a cabeça, mas não lhe perguntou primeiro, e virou-se para a dama. “E você, Alva?”

    “Elevado Hrafn, antes de tudo eu gostaria de—”

    “Sim, Lady Alva,” cortou ele, sem piedade alguma. “Por ter resolvido o problema da mina, voltado vivo e toda essa merda.” Fez um gesto vago com a mão. “O que você quer?”

    “Tenho um contrato de casamento no meu quarto,” disse ela.

    “Que bom, fico feliz.” Hrafn se recostou um pouco mais na cadeira. “Veio me convidar para ser padrinho? Talvez um amante?”

    Leif franziu a testa um pouco surpreso, ele próprio era homem direto mas, o jovem à sua frente parecia um tipo muito particular de cínico, ainda assim não falou nada pois não fora ofendido, e se fosse honesto consigo mesmo, gostava de ver um membro da Coroa ser maltratado.

    “Creio que não vai precisar ser padrinho, e creio que já tenha perdido membros demais para pôr em risco outro…” respondeu Alva. “Mas um presente de casamento cairia bem.”

    “É mesmo?”

    “A cabeça do meu irmão, retirada em duelo. Seria especialmente apreciada.”

    Hrafn ergueu levemente as sobrancelhas. “Seu irmão?”

    “Foi ’ideia’ dele.”

    “Seu irmão não parece do tipo esperto.”

    “Não,” disse Alva. “Não é.”

    “Hm.” Hrafn passou a mão pelos cabelos. “Não passou nem um mês e eu já tenho um duelo. Lady Alva, não acha que está abusando do contrato?”

    “Por que eu teria um contrato se não para abusar dele?”

    “Eu posso cuidar do contrato,” intrometeu-se Leif.

    A conversa parou e os dois o olharam de jeitos diferentes. Nos olhos de Alva havia veneno, mas ela não o derramaria. Filha de marquês ou não, ele era um hersir, mesmo o pai dela, por mais abençoado que fosse ainda estava abaixo disso. 

    Já Hrafn olhou com curiosidade. “Você disse que veio me avisar,” falou o jovem voroir. “Sobre o quê exatamente?”

    “Vim avisá-lo para deixar a Coroa.”

    Alva se moveu na cadeira. “Elevado hersir, eu não—”

    “Quieta, garota.” Disse Leif. Então soltou apenas uma lasca da própria presença, mas bastava para fazer Alva abaixar a cabeça e tremer na cadeira, a criada empalideceu logo atrás, Hrafn resistiu melhor, mas Leif percebeu a tensão em seus ombros.

    “A Hird é dura, rapaz,” continuou ele, agora olhando apenas para Hrafn. “Mas é melhor que a Coroa. Não sei qual acordo lhe deram, mas uma vez dentro desse antro de porcos, você estará preso.”

    Hrafn o sustentou por um momento, rejeitando tanto suas palavras quanto sua megin com teimosia. “A Hird não tem corrupção então?” perguntou, com um sorriso torto. “Pode garantir que cada funcionário, cada servo, cada alto conselheiro é limpo… Você é limpo?”

    A pergunta foi heresia o bastante para azedar o sangue de Leif. Ele apertou apenas a mão sobre a mesa, e a sua presença cresceu, dessa vez não foi só Alva que baixou a cabeça, pois o ar foi arrancado do cômodo. Os servos caíram de joelhos, a criada perdeu o equilíbrio, até Hrafn se envergou sob o peso, e a mesa de pedra estalou perto do punho de Leif, uma rachadura fina abrindo-se como gelo se partindo.

    A ira subiu quente ao peito do hersir, não porque o rapaz estivesse inteiramente errado. Subiu porque ele tinha razão e ele não iria mentir o contrário. No fim, Leif recolheu a megin de volta, e o ar retornou ao aposento. Alva puxou o fôlego como quem emerge da água, os servos tossiram e Hrafn voltou a respirar sem desviar os olhos.

    Teimoso, rebelde, descarado… Promissor.

    Ele acreditava na ordem da Hird, mas não podia responder por todos os homens que a vestiam, não podia pesar cada coração, nem limpar cada mão, eram muitos. E a fé, quando encarnada em gente demais, sempre acabava tocando alguma lama.

    Então preferiu mostrar a diferença onde podia. “Os irmãos da Lady já contataram outros voroirs da Coroa,” disse.

    Alva levantou a cabeça rápido demais.

    “Isso não é—”

    “Diga que estou mentindo, criança,” cortou Leif, sem sequer olhar para ela. “Ouse.”

    O silêncio caiu pesado como resposta e Leif voltou-se para Hrafn. “Eles provavelmente vão pedir uma batalha de seis.” continuou. ‘’E duvido que sua aliança na coroa vai ajudá-lo com isso garoto, porque não há lucro’’. 

    Dessa vez, até o cinismo do rapaz pareceu perder o passo por um instante. Duelo simples era disputa, batalha de seis era outra coisa, a Coroa não moveria tres vorois para uma disputa de matrimônio por capricho. Como moveram significava que Hakon não era só um irmão inconveniente, significava que iriam investir nele. Assim como demonstrava que eles queriam Alva fora do tabuleiro. 

    Leif viu Hrafn entender isso, viu também Alva entender com desgosto, assim como perceber que ele tinha acabado de lhe roubar a iniciativa. “Saia da Coroa. Eu lido com as consequências do contrato” disse o hersir, agora mais baixo. “Tome sua decisão enquanto ainda pode escolher com alguma dignidade.”

    Hrafn passou o polegar pela borda da taça, pensativo. “E entrar na Hird seria liberdade?”

    “Não, seria dever” respondeu Leif. “Mas seria honesto, e eu tenho vaga para alguém como você”

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