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    Briorn estava na arena, no piso interno do anel mais baixo, era um lugar grande, cheio de pedra cara e povo berrando por sangue antes mesmo dele entrar, ao seu lado estavam Hrafn e Dagny.

    O aleijado vestia uma armadura imponente, e estava segurando o capacete de chifres de carneiro, Dagny, por outro lado, vinha leve demais para alguém prestes a entrar numa batalha, não usava escudo, não usava nem sequer uma arma decente. Trazia só um monte de bolsas presas ao corpo.

    “Tem certeza de que isso vai funcionar, garoto?” perguntou Dagny.

    “Não tenho,” respondeu Hrafn. “Mas basta correr até o outro lado, fazer o serviço e sair da arena, depois disso o resto não será mais problema seu.”

    Ele então virou o rosto para Briorn com aquele sorriso de canto nojento, claramente pronto para dizer alguma maldade. “Não começa, pernas,” avisou Briorn antes.

    “Pernas?” perguntou Dagny, franzindo a testa.

    “Ele gosta de focar no que tem de sobra,” respondeu Hrafn. “Por isso nunca fala do tamanh—” ia dizendo, mas parou no meio, receoso.

    Briorn abriu um sorriso largo, eram raras as chances em que conseguia fazer o maldito engolir a própria língua, e isso quase já pagava o risco da batalha. O resto do pagamento vinha na forma do ouro prometido e, claro, da cara de bunda do instrutor da Hird quando ele resolveu aparecer ali. O sujeito passara quase meia hora falando de acordos, ordens e consequências, mas Briorn não podia se importar menos.

    Um homem decente ajudava um amigo a molhar o biscoito, mesmo que tivesse de arriscar o próprio pescoço, essa era a filosofia de Briorn. “Hakon, não é?” perguntou ele.

    “É.”

    Briorn assentiu devagar, como quem aceitava uma responsabilidade sagrada. “Sabe, aleijado…” Fez uma pausa só para esticar a zombaria. “Você até que é um cara legal. Me dá boa comida, boa moeda.” 

    Coçou a cabeça com um ar meio envergonhado, como um idiota feliz por ter ganhado licença para algo sujo. “Até me deu a chance de bater num nobre.” Seu sorriso cresceu. “Eu sempre sonhei em bater num nobre.”

    “É um sonho justo,” disse Dagny, erguendo o polegar.

    Hrafn abriu a boca de novo, provavelmente para estragar a beleza do momento com alguma resposta esperta, mas desistiu pela segunda vez. Isso deixou Briorn ainda mais satisfeito, estava até disposto a provocar um pouco mais, se a grande passagem de pedra à frente deles não tivesse começado a se abrir naquele instante.

    A luz da arena entrou como um tapa. “Bem,” disse Hrafn, pondo a maça de ferro sobre o ombro e distribuindo o peso da armadura de um pé para o outro. 

    “Vê se não morre, garoto,” acrescentou Dagny. Então puxou uma adaga da cintura e abriu vários furos nas bolsas presas ao próprio corpo.

    Briorn viu aquilo e sentiu a alegria subir. “Vamos foder com eles!.”  E assim que a voz dele caiu, os três começaram a correr.

    Essa era outra parte do plano do aleijado, Hrafn era um sujeito cheio de planos, cheio de pequenos cálculos e de preocupações com detalhes que Briorn jamais perderia tempo mastigando. Na visão dele, era mais fácil entrar e descer a porrada naqueles nobres safados até um dos lados parar de se mexer. Mas Hrafn fora insistente nas próprias maquinações mesquinhas, e Dagny aceitara, então Briorn aceitou também.

    Quando seus pés tocaram o piso mais elevado, ele viu três figuras surgindo na entrada oposta. O barulho da plateia invadiu seus ouvidos logo depois, milhares de vozes berrando com os pés batendo. Briorn gostou da glória de gente demais olhando para ele, isso lhe pareceu correto.

    Pensou até em diminuir o passo e mandar uns beijos para algum rostinho bonito na arquibancada, talvez um dedo do meio para alguém com cara de folgado. Mas Hrafn acabaria reclamando depois, e Briorn estava fazendo um esforço sincero para colaborar.

    O aleijado corria na frente de todos, mesmo com a armadura mais pesada. Briorn não gostava de admitir esse tipo de coisa, mas ficar por aí se casando, matando bicho na escuridão e fazendo pacto com coisas de madeira aparentemente tinha deixado Hrafn bem forte.

    As outras três figuras do outro lado não corriam, apenas avançavam com lentidão. A calma arrogante de quem já se achava vitorioso. Quando Briorn, Hrafn e Dagny alcançaram o meio da arena, os inimigos mal haviam cruzado um terço da parte deles.

    Ele estudou os três enquanto corria, o do meio só podia ser Hakon, pois tinha cara de moça mimada e sorriso de puta, e usava uma armadura fresca demais, como se a porra inteira tivesse saído de um livro infantil. A lança parecia pior ainda, toda trabalhada como se tivesse sido tirada do cu de uma fada. 

    Os outros dois eram mais velhos, e carregavam espada curta e escudo. Os três tinham a mesma cara de gente que merecia levar um soco, com nariz em pé, sorriso de canto e o peito estufado. Briorn decidiu quebrar tudo logo no início e deixar o resto com o aleijado, que certamente já tinha algum plano maldito.

    Puxou o ar todo ao redor para dentro do peito, seu passo seguinte acertou o chão e rachou o piso da arena, e o próximo foi bem pior, banhado ate o limite de megin. O tremor subiu por seu corpo inteiro quando ele se conectou com o solo, e a pedra abaixo respondeu. O chão se partiu sob seus pés e o lançou adiante, impulsionando-o num voo baixo em direção ao que ele julgava ser Hakon.

    Os três voroirs à frente riram, estavam provavelmente pensando demais. Esse era o problema das pessoas, Briorn achava, pensavam demais. Quando estava a poucos metros deles, Hakon apontou a lança com um sorriso bonito, claramente satisfeito por receber um alvo voando de peito aberto.

    Coitado.

    Briorn era talentoso onde ele realmente se importava: violência e brutalidade, e no instante antes do choque, o chão sob os três mudou, algumas partes cederam, outras subiram, com a pedra traindo o equilíbrio de todos eles. Os dois mais velhos reagiram rápido, mas Hakon perdeu o rumo por tempo demais.

    Briorn caiu seguro bem à frente dele agachado, e já girando o corpo, uma rasteira veio baixa e pesada, lançada na coxa de ferro da armadura. Houve um estrondo de metal contra metal e depois Hakon saiu voando para o lado, batendo em um dos aliados antes de começar a quicar pela pedra como um boneco de pano.

    A plateia rugiu e Briorn sorriu com todos os dentes.

    Os outros dois se voltaram para ele na mesma hora, o que era ótimo, porque ele não teria muito tempo para fazer barulho, já que estava usando tudo o que tinha logo de saída. A espada do primeiro desceu rápido, Briorn respondeu com um soco preciso na lateral da lâmina, sentindo o impacto subir até o ombro. O segundo veio ágil, tentando cortar baixo, mas Briorn recuou meio passo e inclinou para trás, usando sua baixa altura a seu favor. Dançou entre os dois com uma agilidade raivosa, desviando, rebatendo e enviando rasteiras pesadas para tirar o equilíbrio do inimigo.

    Sempre mantendo os olhos no canto onde Hakon ainda tentava descobrir onde tinha ido parar. Era bom que ficasse no chão um pouco mais, para dar tempo suficiente para Dagny. 

    A guerreira comum passou entre eles e o nobre caído, correndo com tudo o que tinha. O som da respiração dela ecoava seco, os olhos fixos na frente. As bolsas rasgadas iam derramando pequenas sementes conforme ela avançava.

    “Eu me rendo!” gritou. E continuou correndo para a saída do outro lado da arena.

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