Índice de Capítulo

    A lança de Kael girou entre os dedos antes de encontrar o martelo de Dan no centro da rua.

    O impacto espalhou fogo pelas pedras.

    Eldrik apareceu pelo flanco esquerdo no mesmo instante.

    Chamas azuis atravessaram o corredor estreito entre as casas.

    Kael recuou meio passo.

    A lança girou outra vez.

    O metal desviou o fogo para cima, o suficiente para que as chamas subissem pela parede lateral em vez de atravessar para o outro lado da rua.

    As janelas explodiram com o calor.

    Os soldados aproveitaram a abertura.

    Dois avançaram juntos enquanto os magos assumiam postura ofensiva nos flancos.

    Kael deslizou para trás enquanto a lança desviava uma espada e quebrava a postura do segundo soldado no mesmo movimento, redirecionando o peso do homem para fora da linha sem precisar de impacto direto.

    O joelho acertou o abdômen antes dele recuperar equilíbrio.

    Dan já vinha outra vez.

    O martelo desceu pesado.

    Kael inclinou o corpo no último instante.

    O martelo passou a centímetros e destruiu o que restava de um poste à esquerda.

    Eldrik tentou aproveitar a abertura.

    Fogo azul explodiu na direção do rosto de Kael.

    A lança girou horizontalmente.

    O choque das duas manas espalhou brasas pela rua inteira

    Kael sentiu o calor atravessar parte da manga.

    Recuou dois passos.

    Os passos o colocaram exatamente diante de uma casa com janela aberta, ele ouviu antes de ver, crianças dentro, e deslocou o próximo bloqueio dois palmos para a direita para que as chamas que escapassem fossem para cima e não para dentro.

    Custou o ângulo de contra-ataque que havia preparado.

    Dan não perdeu.

    O martelo veio lateral.

    Kael absorveu com o cabo da lança, o impacto o empurrou três metros pela rua em vez de redirecionar.

    Enquanto escorregava na pedra os olhos passaram rapidamente pelo ambiente.

    Civis correndo.

    Uma mulher com duas crianças tentando cruzar a rua atrás da linha de combate.

    Uma delas havia parado para olhar.

    Kael esperou o movimento de Dan terminar, girou a lança e empurrou o segundo soldado que havia tentado usar o intervalo com força suficiente para enviá-lo contra o colega e fechar o ângulo que abriria em direção aos civis.

    Dan percebeu o olhar.

    Ficou parado por meio segundo.

    Os olhos foram para a mulher com as crianças.

    Depois para Kael.

    O martelo girou outra vez no ombro.

    — Interessante — disse ele.

    Kael não respondeu.

    Dan avançou — mas pelo ângulo oposto aos civis, o que obrigou Kael a seguir, afastando o combate da janela aberta.

    O martelo veio pesado de novo.

    Kael bloqueou.

    O impacto empurrou os dois pela rua enquanto fogo escapava da lança em pequenas explosões ao redor da lâmina.

    Uma lança dos soldados veio pelo ponto cego abrindo um corte leve no ombro de Kael, seguida por uma bola de fogo de um dos magos.

    As chamas passaram raspando e explodiram numa parede atrás dele.

    Kael ouviu a parede ceder.

    Nenhum grito de dentro.

    A casa estava vazia.

    Ele soltou o ar.

    Dan viu isso também.

    — Vocês Guardiões são engraçados — cuspiu sangue no chão. — Fingem se importar com civis quando na verdade estão só calculando quanto espaço têm para lutar.

    Kael ficou em silêncio.

    Eldrik surgiu pelo flanco.

    As chamas azuis explodiram contra a rua.

    Kael finalmente usou mana para bloquear.

    Fogo vermelho surgiu ao redor da lança.

    As duas explosões colidiram no centro da rua.

    O impacto arrancou portas das dobradiças.

    Os soldados recuaram imediatamente do choque térmico.

    Eldrik arregalou os olhos por um instante.

    O fogo de Kael havia sido contido — não em tamanho, em direção. Saiu em cone estreito que encontrou as chamas azuis de Eldrik e não deixou nada escapar para os lados.

    Controlado demais para ser reflexo.

    Dan ficou olhando para isso.

    Para o cone.

    Para a rua ao lado que deveria ter sido atingida e não havia sido.

    Depois olhou para Kael.

    Não disse nada.

    Só apertou o martelo.

    O último civil virou a esquina.

    Sumiu.

    O vento atravessou a rua destruída carregando fumaça e cinzas.

    Kael não avançou.

    Só ficou onde estava com a lança baixa e os olhos no ambiente, nas casas destruídas, na pedra carbonizada, nos destroços espalhados pelo chão e soltou o ar uma vez de forma longa e deliberada.

    Dan sentiu antes de ver.

    O tipo de sinal que quarenta anos de combate gravam no corpo antes de gravar na mente.

    A nuca arrepiando, o estômago descendo um centímetro, a respiração mudando de ritmo sem decisão consciente.

    Ele havia sentido isso antes.

    Poucas vezes.

    Sempre na presença de algo que não deveria ser enfrentado diretamente.

    Olhou para Kael.

    Os ombros haviam baixado dois centímetros.

    A lança havia parado de girar.

    O rosto que havia sido expressivo durante toda a luta — ironia aqui, leveza ali, o sorriso constante de alguém que estava se divertindo dentro dos limites do que havia permitido — estava quieto de uma vez.

    Nenhuma mudança clara.

    Nenhum sinal óbvio.

    Só aquilo.

    E o instinto que Dan havia aprendido a nunca ignorar dizendo, com a clareza de coisa simples e verdadeira:

    Corre.

    Eldrik sorriu.

    — Finalmente desistiu de fu—

    — Não gosto de repetir.

    A voz de Kael saiu baixa.

    Sem ironia.

    Sem o tom que havia estado lá durante toda a luta.

    Os olhos foram para Dan.

    Como se Eldrik não existisse.

    — Qual de vocês foi?

    Dan ficou imóvel.

    — O quê?

    A lança girou uma vez.

    Lenta.

    — Quem fez aquilo com o meu irmão?

    O silêncio caiu na rua destruída.

    Eldrik inclinou a cabeça.

    — Irmão? Vocês dois não parecem nem da mesma ra—

    Dan se moveu antes dele terminar.

    O cabo do martelo acertou a lateral da cabeça de Eldrik com força suficiente para apagar o fogo nas mãos dele antes do corpo tocar o chão.

    Os soldados olharam sem entender.

    — Levem ele — Dan falou sem tirar os olhos de Kael. — Agora.

    Dois soldados hesitaram.

    — AGORA.

    Kael observou Eldrik sendo arrastado rua abaixo.

    Ficou em silêncio por um momento.

    — Não somos irmãos de sangue — disse ele.

    Uma pausa.

    — Então foi você?

    Dan não respondeu imediatamente.

    Olhou para o espaço onde Eldrik havia estado.

    Depois de volta para Kael.

    — Isso foi culpa minha — disse. — Não sabia que a princesa ia quebrar tão fácil.

    Kael ficou em silêncio.

    Os olhos fixos nele.

    Sem emoção aparente.

    O fogo começou a surgir pelas fissuras da pedra abaixo dos pés de Kael.

    — Eu adoraria retribuir o dobro do que você fez.

    As pedras da rua ficaram negras.

    — Mas não tenho tempo.

    Dan sentiu o calor antes de ver a mudança.

    Aumentou o Ordo imediatamente.

    As marcas percorreram o braço.

    A pele endureceu.

    A mana se comprimiu ao redor do corpo em camadas.

    A mana de Kael tomou o ambiente de uma vez.

    Não em explosão.

    Em colapso térmico.

    O ar entre eles ficou pesado antes de ficar quente — a densidade aumentando primeiro, como se a mana estivesse comprimindo o espaço antes de incinerar o conteúdo.

    Os soldados restantes não gritaram.

    Não houve tempo para gritar.

    A pele rachou.

    Os olhos queimaram.

    As armaduras ruborizaram do interior para o exterior antes de cair vazias na pedra carbonizada.

    Em menos de dois segundos.

    Kael nem olhou para eles.

    Dan sentiu o calor atravessar o Ordo mesmo com toda a proteção ativa.

    A pele queimou.

    O ar entrou nos pulmões como algo sólido.

    Mas ele avançou.

    O martelo atravessou o inferno vermelho na direção de Kael.

    Kael bloqueou com a lança.

    Os olhos estreitaram levemente.

    — Ainda de pé.

    Dan cuspiu sangue no chão.

    Parte evaporou antes de tocar a pedra.

    — Vai precisar de m—

    Kael entrou na guarda.

    O soco acertou o rosto com força que fez Dan morder a própria língua antes de processar o impacto.

    O sangue que saiu evaporou antes de cair.

    — Você tem sorte por eu estar sem tempo.

    Dan recuperou o equilíbrio.

    O corpo inteiro queimando sob o Ordo que já não estava conseguindo compensar completamente.

    Brandiu o martelo pela última vez.

    Mirando a cabeça.

    Kael ergueu o antebraço.

    O impacto que Dan esperava não veio.

    O metal encontrou escamas negras cobrindo o braço de Kael, surgidas sem aviso, sem processo visível, só presentes onde não haviam estado um segundo antes.

    O martelo rachou.

    Depois explodiu na própria mão.

    Os fragmentos atravessaram a fumaça vermelha.

    Dan ficou olhando para a mão vazia.

    Para o que restava do cabo.

    Para o braço de Kael onde as escamas haviam aparecido e desaparecido no calor distorcido.

    Respirou pesado.

    Kael ficou olhando para ele por um momento.

    — Uma morte rápida é algo que você não merecia.

    A temperatura pareceu cair por um segundo, o tipo de frio que sacudiu todo o corpo de Dan antes da mana ao redor perder a forma de uma vez.

    As sombras atrás de Kael cresceram.

    Dan quase não via mais o corpo de Kael apenas o contorno.

    E foi quando ele viu as bordas primeiro.

    Grandes demais.

    Negras.

    O formato errado para qualquer coisa que ele havia enfrentado.

    Escamas apareceram pelo braço de Kael — desta vez não sumindo, avançando, cobrindo o antebraço, o cotovelo, subindo pelo ombro em padrão.

    Os olhos mudaram para um vermelho vivo.

    O instinto de quarenta anos de combate gritou.

    Dan já sabia que era tarde.

    Kael desapareceu dentro da fumaça e do calor distorcido.

    Dan sentiu as asas antes de ver — o deslocamento de ar se movendo em espaço que não comportava algo daquele tamanho, e então as viu, negras, cruzando a fumaça num movimento que seu olho treinado tentou acompanhar e perdeu.

    O impacto chegou.

    Dan pensou em Aedin.

    No irmão que havia feito de si mesmo por escolha, não por sangue.

    No quanto havia valido a pena.

    Vou ficar devendo a bebida, amigo..

    Depois o mundo ficou branco.

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