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Capítulo 28. Dedos Dourados 6
O escriba estava agachado à beira de um córrego não muito distante, mas longe o suficiente. Amarrou o fardo das roupas que acabara de despir, camadas descartáveis de indumentária que envolviam a grande tesoura em seu centro. Fogo chamaria muita atenção; os arbustos de orla eram baixos demais, o curso da água, raso. O jeito é enterrar.
O solo macio cedeu facilmente; Benk usou um pedaço de madeira para escavar e reuniu pedras grandes e pesadas o suficiente para soterrar todo o tecido, o chapéu e a ferramenta metálica no leito local. Não era de modo algum o melhor descarte, mas esperava que durasse o tempo necessário para ser ignorado até o dia em que a chuva e a correnteza desenterrassem o embrulho. E a época da cheia ainda demoraria a chegar.
Lavou as mãos e sondou a velha bolsa que costurara há tantos anos. O apego ao couro reverberava em sua consciência; jogá-la fora não era uma opção.
Subiu a encosta refletindo sobre os próximos passos, mas primeiro precisava de um lugar seguro para analisar o objeto, compreender o seu funcionamento e, claro, investigar o pesado livro cuja posse os dedos contornaram.
…
No alojamento, ao entardecer daquele dia, Pelk e Benk desmontaram a estrutura do conversor.
— A mana é captada por essa extremidade, percorre o metal, é modulada segundo essas runas gravadas e na outra extremidade, através desse outro cristal, se propaga. É bem simples: o segredo real são as runas internas ao cilindro — relatou Benk, manuseando o equipamento.
— Dois conjuntos de runas, um externo e outro interno, consegue decifrá-los? — perguntou Pelk, já sabendo a resposta, enquanto guardava na gaveta as folhas de camomila que ganhara de Lorem.
Benk ergueu o cilindro interno na altura dos olhos para enxergar melhor o conjunto de marcas e símbolos esculpidos no metal.
— Esse cilindro é substituível — afirmou Benk.
— Como assim? — disse Pelk, que sentiu um calafrio eriçar os pelos de todo o corpo.
O amigo continuou analisando o cilindro em silêncio e momentos depois explicou a situação.
— A mana de cada mago tem uma identidade particular; ela pertence à vida do portador. Essa energia interna do indivíduo pode sincronizar-se com a mana que permeia tudo ao redor. É algo que está ali, como o ar que respiramos. Ou seja, cada mana tem propriedades distintas, e a mana natural não é reativa, apenas está aqui — disse, espalmando a mão no ar.
Benk apontou então para o cristal.
— O mago respira a mana externa e sincroniza com a própria mana interna, moldando com sua vida uma forma particular. Ao emaná-la no cristal, ela atravessa esse lastro cilíndrico interno. As palavras de runa purificam sua natureza. Está escrito o seguinte: Energia vital que a um pertence, a todos deve nutrir. Que se faça pura. Entende?
O colega balançou a cabeça indicando que não.
— É como uma fórmula — explicou Benk.
— Nesse caso, a mana é primeiramente purificada e, depois, nesse cilindro exterior, ela ganha a intensidade certa para ser canalizada sobre o que se deseja preencher. A configuração das runas externas serve para ajustar essa intensidade. Pensando bem, ambos os cilindros são ajustes de mana, um de identidade e o outro de intensidade. Que intrigante.
O corpo do escriba começou a se mover, caminhando lentamente pelo pequeno quarto, em círculos. Pelk o observava, enquanto também refletia sobre como poderiam usar o equipamento.
— Precisamos estudar — proclamou Pelk em tom levemente irritado.
Benk parou. Colocou o cilindro sobre a cômoda e sentou-se na beira da cama.
— A configuração atual do conversor está adaptada para recarga de cristais de aquecimento. Eles usam mana neutra e a concentram. Há dois jeitos de conseguirmos reconfigurá-lo: por testes ou descobrindo as runas certas. Qual dos dois caminhos devemos seguir? — questionou Benk, mais pensando em voz alta do que elaborando uma conversa.
— Podemos fazer as duas coisas ao mesmo tempo — disse o amigo, também expondo os pensamentos em palavras.
…
Benk desenhou em uma tira de papel comum frases rúnicas poéticas. Sua teoria precisava ser testada.
Primeiro, substituiu as runas internas por um receptáculo de madeira de tamanho equivalente. A dúvida era se a madeira conduzia mana tão bem quanto o metal, mas, por hipótese, acreditava que sim. Ao redor da madeira enrolou o papel e o conectou ao dispositivo.
— O que escreveu, Benk? — perguntou o amigo. E não era uma questão de pouca importância.
O escriba olhou de lado e sorriu:
— Vamos fazer magia, Pelk?
O rapaz engoliu em seco.
— Tem certeza?
Sem responder, Benk solicitou que Pelk tocasse o cristal.
— Isso é seguro, Benk? — questionou o jovem, ainda hesitando.
Benk ajustou os óculos e, com confiança, acalmou o amigo.
— Não é uma conjuração. Fique tranquilo; é só canalizar a mana no cristal.
Pelk concentrou-se em emanar sua mana lentamente, apesar da falta de prática e de temer ser descoberto. Sabia, por experiência, que para captar a identidade de outro mago, era necessário que o mago em questão emanasse uma quantidade intensa de mana do corpo. Caso contrário, passaria despercebido.
E, apesar de nunca ter efetivado uma conjuração, emanar mana era uma habilidade relativamente simples. Seus dedos esquentaram sutilmente.
Imediatamente, o papel interno ao mecanismo incandesceu, liberando uma luz difusa que, aos poucos, se intensificou, principalmente ao redor das runas escritas em tinta comum. Na extremidade oposta, o cristal reverberou levemente e, de sua superfície, uma brisa ondulou em todas as direções.
Ambos observaram fascinados enquanto o ar refrescante atingia os seus rostos.
A experiência durou poucos instantes. O papel, em um piscar de olhos, transformou-se em um pequeno amontoado de cinzas, interrompendo a conexão.
— O que você escreveu nele? — indagou Pelk, o mago.
Benk estava absorto em pensamentos, mas controlou a curiosidade analítica para responder:
— Energia vital que a um pertence, ao ar deve vibrar. Que se faça vento.
O mago franziu a testa inconformado.
— Só isso? — perguntou Pelk, roçando o cristal com os dedos.
Agora, o escriba não mais ouvia a questão do amigo, mas a resposta era simples. Magia era muito mais intenção e permissão do que complexidade.
…
Os testes seguiram por dezenas de dias. Os amigos entretinham-se em desvendar quais palavras, linguagens e materiais funcionavam melhor. Dentre as descobertas estava o fato de que todos os materiais pareciam permitir o fluxo de mana, e a peculiaridade de que quanto mais a linguagem era expressa por ideogramas, melhor se desdobrava o fluxo. Todas as línguas acessavam a magia, mas cada uma sincronizava-se de um modo diverso e com resultados que variavam desde o completamente frustrante até o absolutamente surpreendente.
A escolha dos vocábulos também era uma variável importante; era preciso estabelecer um começo, um processo e um resultado, e quanto mais complexo o enunciado, mais intenso parecia ser o desfecho.
Benk testou inversões vocabulares, variações enunciativas, e sob a orientação de Pelk, que enxergava as palavras de invocação, descobriu que distorcer o fluxo cobrava um preço.
— Como estão seus olhos, Benk? Ainda estão ardendo? — perguntou o amigo preocupado.
O escriba refletia sobre quais caracteres ainda não havia testado, e compreendia cada vez mais o motivo de usarem runas e símbolos ideogramáticos para compor os contratos. A estabilidade do fluxo de mana nesses casos parecia estar próxima do ideal.
No entanto, a cada resposta que desvendava, múltiplas dúvidas atormentavam sua mente.
— Ardem — respondeu ele, incorporando outros incômodos à confissão.
Em mais um dia rotineiro de trabalho, a missão de Pelk seria não apenas desenhar os símbolos nos títulos de propriedade, mas ser atencioso e solícito para poder receber trabalho extra.
Ao contrário de Benk, que costumava ser obrigado a trabalhar a ponto de quase não ter tempo para respirar, devido à sua gloriosa e desastrosa capacidade de ler e compreender todos os idiomas conhecidos, Pelk, por vezes, ficava ocioso devido à baixa demanda documental.
— Se ofereça para entregar os documentos no departamento de conferência e ativação dos circuitos rúnicos — orientou Benk.
— E espera que eu faça amizade com um dos magos e que ele gentilmente me mostre o conversor de mana em funcionamento? — zombou Pelk, incrédulo.
No mesmo instante em que terminou o questionamento, ao encarar o rosto do amigo, o jovem Sagaz entendeu. É exatamente isso que você precisa fazer!
Em todos esses anos de trabalho compulsório, nos quais a infância foi cooptada pela prosperidade financeira do reino, havia um tipo de pessoa que Pelk evitava mais do que qualquer outra coisa no mundo: magos.
Você é um escriba, Pelk. Consegue identificar runas tão bem quanto eu. Vai dar tudo certo! Pelk mentalizou a voz de Benk em seus ouvidos, dialogando contra argumentos que não podia refutar.
Olhou ao redor e percebeu a pequena pilha de documentos já adequadamente preenchidos do estado de Loabek. Oportunidade era o nome da situação.
Pelk levantou-se de sua cadeira, andou em direção ao supervisor do seu segmento, Gior-joh, e escolheu as melhores palavras para indicar sua intenção ao homem de postura profissional.
— Senhor Gior-joh, terminei de preencher os títulos e os depositei na pilha de despacho, mas vejo que o segmento de Loabek já avançou bastante no trabalho. Não seria adequado encaminhá-los para o setor seguinte? Posso levar até lá se não se importar! — disse Pelk, na expectativa de uma resposta positiva.
O supervisor observou o escriba e a caixa quase cheia de papéis já adequadamente confeccionados.
— Uma caixa. Melhor acumular mais uma — disse ele, frustrando o primeiro movimento do escriba.
— Bem, de todo modo vou ao banheiro. Quer que eu traga algo para você beber? — continuou Pelk, com um sorriso afável.
E resolveu intensificar o argumento.
— Quero aproveitar a saída. Se quiser, levo a papelada também — insistiu o jovem.
Gior-joh consultou a garganta, relaxou o queixo e cedeu.
— Tudo bem! — assentiu o supervisor.
O mago afastou-se respeitosamente abaixando a cabeça, ergueu a caixa de peso burocrático e seguiu em direção ao corredor com passos firmes.
Da ala leste do prédio da Câmara Forte, onde se encontrava, para a ala norte, setor de conferência e ativação, a caminhada não era breve. O grande salão onde trabalhava ficava próximo ao almoxarifado de materiais — onde eram guardados os papéis para preenchimento dos títulos. Seguindo pelo corredor, após uma curva à esquerda, outro armazém se apresentava até que, por fim, ao fundo, uma escada levava ao setor acima: a torre norte.
A bela estrutura cilíndrica de pedra cortada era composta de doze andares, cada um responsável por um dos estados do reino antigo, exceto Gujav Bow, onde as pessoas não possuíam qualquer vínculo proprietário. Em cada andar, ao menos dois magos e um aprendiz trabalhavam conferindo e ativando os circuitos mágicos dos registros de posse. Os mais idosos ficavam próximos à base, para evitar reclamações quanto às escadas.
Por milênios, muitas inovações arquitetônicas floresceram no reino, mas certas superstições mantinham viva a força nos joelhos dos magos. Magia ascende aos céus. Era o que os antigos proclamavam.
Pelk enfrentou os degraus, andar por andar, como um bom mago, mesmo que isso fosse um segredo que apenas Benk conhecia.
A escada circular em espiral abria espaço para a entrada dos departamentos, e a que pertencia ao estado de Loabek encontrava-se no sexto andar. Acima da entrada em arco, uma placa de madeira fixada indicava o nome do estado.
O escriba respirou fundo, contou em voz baixa até cinco e entrou lentamente no local.
As pilhas de caixas e papéis preenchiam quase todos os espaços da sala. Qualquer pessoa com o mínimo de discernimento concluiria que faltava mão de obra no setor de conferência das runas. Magos não dão em árvores. Isso era certo.
O calafrio de se imaginar preso naquele prédio pelo resto da vida, soterrado por documentos, percorreu os nervos de Pelk. Emprego vitalício, certo? Era tudo o que não desejava, mas a atmosfera daquela sala paradoxalmente renovou sua motivação em investigar o que precisava ser revelado.
— Olá — chamou o escriba, poucos passos porta adentro.
O barulho da sola das botas no assoalho de pedra indicou a aproximação da aprendiz.
Uma mulher esguia, jovem e alta, vestida com a tradicional túnica âmbar dos tabeliães, encarou com presteza o visitante por trás dos pequenos óculos. Duas constatações concretizaram-se na mente da tabeliã.
— Dedos dourados… mago? — sussurrou a moça de olhos cansados, com plena inocência.
Pelk ouviu a palavra tabu. Um nó de angústia estrangulou os sentidos enquanto as mãos que sustentavam a caixa perderam a força.
A aprendiz se inclinou instintivamente, aparando as mãos do jovem e segurando a caixa que havia iniciado o percurso da queda. Ambos entrelaçaram os olhares. Pelk em completo desespero. Ling, confusa, tomava consciência do que havia feito.
— Perdão… — disse a maga com a culpa contornando o timbre da voz.

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