Capítulo 64 - Xu San
Cinco anos depois…
O sol da manhã atravessou a névoa da montanha, projetando um padrão dourado de luz e sombra no chão da floresta, filtrando-se através da copa das árvores e das frestas entre as folhas.
A Família Li cultivava a terra perto do Lago Vislumbre da Lua havia mais de cinco anos. Fazia dezesseis ou dezessete anos desde que pegaram o espelho. Os caminhos de pedra no Monte Lijing estavam agora levemente tingidos de verde pelo musgo. Os pássaros nos galhos cantavam, celebrando o início de um novo dia.
O Velho Xu sentou-se, encostando seu corpo curvado em uma lápide fria e coberta de musgo. Sua mão frágil agarrou um punhado de terra.
“Por que… eu ainda não morri?”, perguntou ele em voz alta.
Há alguns anos, o Velho Xu mudou-se para o Monte Lijing e resolveu vigiar os túmulos ancestrais da Família Li. Apesar dos protestos de Li Xiangping e outros, eles acabaram cedendo.
Li Xuanxuan construiu uma pequena cabana para ele ao lado do cemitério. A família o visitava regularmente, trazendo presentes. O Velho Xu era bom em fazer grilos de palha e desenhar, então as crianças da Família Li corriam para sua casa a cada dois ou três dias. Li Xuanfeng não tinha amigos da sua idade na montanha e seu pai era muito ocupado, então ele cresceu brincando com o Velho Xu.
Embora os dias do Velho Xu fossem repletos de risos e brincadeiras com as crianças, ele nutria um desejo secreto pela morte. Todas as noites, antes de dormir, ele se perguntava se aquele seria seu último dia, apenas para acordar como de costume na manhã seguinte, quando o sol nascia.
Apenas um dia antes, o Velho Xu havia conseguido ultrapassar os oitenta anos de idade.
“Caramba, como alguém consegue viver até os oitenta anos e ainda não ter morrido?”, ele se perguntou.
Ele apertou os olhos para uma colina distante. Banhada pela luz dourada do sol, vislumbrou uma pequena pessoa na colina, acenando em sua direção. A luz dourada do sol projetava uma sombra sobre a criança, alongando-a no terreno.
“Xuanfeng está aqui para te ver, Velho Mestre Xuuuuuuuuuuuuuu!”
As roupas da criança estavam sujas, seu rosto manchado de terra e seus cabelos despenteados lhe conferiam uma aparência selvagem e indomável. Ele carregava um pequeno arco de madeira na mão e uma pequena aljava presa à cintura.
Enquanto a criança saltitava energicamente pela colina ensolarada, sua energia vibrante contrastava fortemente com a do Velho Xu, que permanecia encolhido em um canto escuro e isolado. Naquele momento, eles personificavam os extremos opostos do espectro da própria vida, onde a exuberância da juventude e a solenidade da partida iminente convergiam no Monte Lijing.
O vVelho Xu, momentaneamente lúcido, ergueu a cabeça e disse: “Xuanxuan, você está aqui.”
“Eu sou Li Xuanfeng, Velho Mestre Xu. Meu pai é Li Xiangping, não Li Changhu”, corrigiu o menino, que tinha aproximadamente sete ou oito anos, com um sorriso travesso, e então caminhou casualmente até uma lápide de sua altura perto do velho. Ele afrouxou o cinto em volta das calças e começou a urinar enquanto cantarolava uma melodia.
Assim que Li Xuanfeng terminou de urinar e estava prestes a subir as calças, os olhos do Velho Xu brilharam com intensidade. Com um ímpeto surpreendente de energia, ele pegou sua bengala e atingiu Li Xuanfeng nas nádegas.
“O que você está fazendo, garoto? Esse é o túmulo do seu bisavô”, repreendeu o Velho Xu.
Li Xuanfeng foi pego de surpresa. Rapidamente, puxou as calças para cima, amarrou a faixa em volta delas e retrucou: “Os mortos estão mortos! Não vejo problema nenhum! Como ele morreu, afinal?”
“Ele foi envenenado”, respondeu o Velho Xu, com o ânimo momentaneamente renovado pelo menino, que conseguiu se sentar e contar uma história do passado.
“Há muitos anos, quando a Família Li não era tão influente quanto é hoje, existia uma família proeminente — a Família Yuan. Eles envenenaram seu bisavô e o irmão do seu avô numa tentativa de se apoderarem de suas terras. Mas então, seu avô retornou com um sabre na mão e buscou vingança contra a Família Yuan. Ele matou todos os membros daquela família e redistribuiu as terras.”
Sentado em uma lápide coberta de musgo e de tamanho perfeito, Li Xuanfeng bateu palmas com suas mãozinhas e exclamou maroto: “O vovô se saiu muito bem!”
O Velho Xu lançou-lhe um olhar fulminante e disse: “Bem? Um dos filhos da Família Yuan conseguiu escapar… voltou vinte e dois anos depois e matou seu primeiro tio!”
“O quê?!” Li Xuanfeng estreitou os olhos de repente. Ele franziu as sobrancelhas finas e respondeu indignado: “O vovô fez um trabalho porco! Teria acabado se ele tivesse matado todo mundo daquela família, como ele pôde deixar um escapar?”
O olhar do Velho Xu endureceu quando ele disse: “Você dá muito trabalho! Parece que a tendência rebelde da Família Li começa cedo.”
Li Xuanfeng balançou a cabeça indignado e gritou: “Ora, foi a Família Yuan que atacou primeiro, matando as pessoas da nossa família! O vovô só voltou para se vingar. E já que o vovô ignorou uma criança, não é surpresa que a criança também tenha voltado para se vingar.”
O Velho Xu balançou a cabeça e suspirou. “A vingança é um ciclo vicioso…”
“Se você for fraco, será um ciclo vicioso. Mas se você for capaz de eliminar completamente a outra família, ninguém mais poderá vir buscar vingança”, respondeu Li Xuanfeng com um olhar carrancudo, seu rosto juvenil contorcido por uma expressão de desprezo que parecia ir além de sua idade.
Após uma breve crise de tosse, o Velho Xu soltou uma risada autodepreciativa. “Já testemunhei o suficiente da vida e da morte para ter receio de tirar vidas, mas parece que esse não é o seu caso, garoto.”
“Velho Mestre Xu”, disse Li Xuanfeng seriamente, parando ao seu lado: “As ovelhas pastam, os lobos caçam ovelhas, os humanos consomem carne, os demônios atacam os humanos. Este é um mundo onde ou você come ou é comido. É o que meu pai sempre me diz.”
Endireitando as costas, Li Xuanfeng imitou o olhar severo de seu pai. Com uma voz impregnada pela sabedoria da idade, disse: “Feng’er! O próprio mundo é um lugar de grandes conflitos!”
Com essas palavras, ele caiu na gargalhada enquanto rolava no chão. Suas travessuras arrancaram uma mistura de tosses e risinhos do Velho Xu.
Assim que as risadas cessaram, o Velho Xu começou a contar uma história.
“Antigamente, havia uma família que morava nos arredores da aldeia. O pai era um homem trabalhador e a mãe cuidava muito bem dos seus três filhos. Um dia, o pai viu fumaça vinda de uma aldeia vizinha. Ele mandou seu filho caçula, Xu San, buscar lenha na montanha. Xu San subiu a montanha alegremente e brincou lá até o pôr do sol.”
“Ele voltou para casa e encontrou uma cena sangrenta. Havia cerca de uma dúzia de homens reunidos no pátio de sua casa, em volta de uma grande panela. Dentro da panela, ele viu seus pais. Seus dois irmãos mais velhos haviam sido esquartejados e colocados em duas pilhas.”
Aterrorizado, Xu San deu meia-volta e fugiu. Escondeu-se nas montanhas por dez dias e, mais tarde, soube que uma seca havia levado os aldeões vizinhos, famintos, ao desespero, culminando na tragédia que se abateu sobre sua casa isolada.”
Li Xuanfeng estava completamente absorto na história.
“Eu mataria todos eles”, disse ele, sombriamente.
“Mas Xu San era um covarde. Viveu em silêncio e medo pelo resto da vida. Não ousou dizer uma palavra a ninguém e se escondeu na aldeia a vida inteira. Xu San detestava aqueles homens! Detestava aquele pardal enorme! Detestava aquele imortal!” gritou o Velho Xu.
Ele estendeu a mão e puxou Li Xuanfeng para mais perto, depois reprimiu a voz ao dizer: “Xu San ouviu uma conversa entre dois servos perto do riacho da montanha, falando sobre como… como eles atraíram o enorme pardal para o Monte Dali para se banquetear com humanos. O objetivo deles era coletar o qi negro das chamas para o jovem mestre do Portão Dourado de Tang. Xu San ouviu cada palavra, mas o medo o manteve em silêncio por décadas. E Xu San… Xu San… Morreu… Todos morreram.”
O Velho Xu ofegou duas vezes, desesperado, em busca de ar. Seus olhos estavam vermelhos enquanto ele tossia sangue e caía para o lado. Sua mão se agarrou à perna da calça de Li Xuanfeng por um instante, antes de afrouxar o aperto gradualmente.
Li Xuanfeng olhou para ele sem expressão. Depois de alguns instantes, sussurrou: “E agora… você também está morto, Xu San.”
Lágrimas quentes escorriam por suas bochechas, caindo sobre o corpo frio e sem vida do Velho Xu. Li Xuanfeng sussurrou algumas palavras entre soluços, depois se jogou sobre o corpo do velho e chorou alto. Ele chorou com uma mistura de tristeza e raiva até ser tomado por uma onda vertiginosa de emoções.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.